Desequilíbrio da economia

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É lamentável observar como se desencadeou, a partir do segundo semestre de 2013, a grave crise econômica que hoje enfrentamos. Sua origem está no fato de o governo ter cedido às especulações provocadas por interesses dos políticos oposicionistas e do mercado financeiro, que fizeram duras críticas aos juros baixos num momento de pressão inflacionária. Porém, é importante lembrar que, mesmo com o cenário internacional negativo, inclusive na Europa, nosso PIB cresceu 2,5% naquele ano e só não chegou a 3% devido à inversão da estratégia de combate à inflação: a troca do mecanismo da moeda valorizada pelos juros altos. Os atuais índices inflacionários, acompanhados de recessão, demonstram o equívoco.
O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, salientou, no seu discurso de posse, em janeiro, como faria para enfrentar as dificuldades, mas até agora só sinaliza pioras, adotando política monetária em linha com as especulações e liberando o câmbio, fatores responsáveis pelo agravamento da crise. Nesse contexto, qualquer notícia negativa é motivo para que o dólar dispare, realimentando a inflação e provocando ainda mais o processo recessivo.
Quanto aos juros altos, é incompreensível que se pressione o governo a cortar gastos, inclusive de investimentos, e não se alerte o quanto eles estão onerando a dívida pública, cujo serviço, em 2015 (com taxas reais de quase 6% ao ano), será 300% mais dispendioso do que em 2013 (juros reais abaixo de 2%). Para retomarmos a expansão do PIB, seria preciso reduzir a Selic a um patamar de, no máximo, o IPCA mais 3%. Com isso, além de colocar fim à estagnação, evitaríamos a fuga de capital estrangeiro, pois nossas taxas ainda continuariam mais atrativas do que as do mercado norte-americano.
É preciso avaliar, também, os efeitos em cascata negativos gerados pela instabilidade do câmbio. O Banco Central jamais poderia ter permitido que a desvalorização do Real alcançasse esses níveis. Deveria ter substituído parte dos contratos de Swaps pela venda da moeda norte-americana no câmbio pronto, para evitar o abuso dos especuladores. Para isso, seria usada parcela das reservas cambiais. Afinal, é para essas situações que elas existem!
Na atual conjuntura, seria coerente estabelecer um valor ideal para o dólar, de maneira que compensasse a queda dos preços médios das commodities, e impedir a alta volatilidade do câmbio, para evitar especulações desenfreadas. A maioria dos empresários defende a depreciação de nossa moeda para estimular as exportações, desprezando os efeitos negativos gerados pela inflação e alta da Selic. Porém, as vendas externas, considerando manufaturados e bens de consumo, representam cerca de 5% do PIB. Se incluirmos as commodities, chegam a 13%.  Portanto, deveríamos priorizar o crescimento de 100% da economia e não da parcela de 5% referente às exportações de manufaturados e bens de consumo!
É necessário, sim, proteger a indústria local do ingresso significativo de importados e proporcionar superávit comercial, mas isso deve ser feito com o Real valorizado, criando-se, em contrapartida, um subsídio, em forma de crédito fiscal de até 20%. Tal benefício não geraria custos para o governo, uma vez que seria repassada ao exportador apenas parte da receita do imposto de importação. Os setores produtivos também não teriam de se preocupar, pois, além do incentivo fiscal, a economia voltaria a crescer e o câmbio seria fixado num patamar adequado de equilíbrio, (atendendo ambos setores).
País de moeda fraca não tem credibilidade! Se continuarmos depreciando o Real, iremos pelo mesmo caminho da Argentina e nossa dívida líquida disparará para o nível de 2003 (60,4%). É preciso reavivar a memória e lembrar da política econômica  praticada entre 2003 e 2013.  Ao assumir o governo, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o País no 11º lugar no ranking mundial, com uma dívida no FMI de US$ 38 bilhões e apenas US$ 55 bilhões em reservas cambiais. A dívida líquida em relação ao PIB era de 60,4%; a inflação, de 12,5%; e os juros, de 25% ao ano.
A política econômica passou, então, por uma grande mudança. Houve a baixa dos juros, proporcionando o aumento real dos salários, possibilitando o crescimento do consumo e, consequentemente, movimentando o setor produtivo, com grande geração de empregos. Dessa forma, a economia passou a crescer, atraindo investidores internos e externos. Assistimos à valorização do Real, queda da inflação, recordes de arrecadação e neutralização do déficit público, viabilizando o subsídio da energia elétrica e dos combustíveis. Esses três fatores também retroalimentaram a expansão do PIB.
Pondero que o governo não gastou tão mal os recursos públicos como se especula. Houve excessos em alguns itens e deficiências em outros. No entanto, o grande problema foi a inversão do mecanismo de controle inflacionário, com a substituição da moeda valorizada pelo desastroso aumento dos juros, feita pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega, no segundo semestre de 2013. O governo somente será forte para fazer as mudanças que necessita com eficiência, se conseguir retomar a expansão do PIB.
Devemos reconhecer a necessidade de alguns ajustes, como vem fazendo o ministro Levy, mas é premente retomar o modelo monetário, ainda pouco reconhecido, praticado no Governo Lula, com juros baixos e Real valorizado. Isso é fundamental para o desenvolvimento do Brasil, país com economia peculiar, que requer uma política econômica independente do modelo de outras nações e condizente com sua cultura, população, dimensões territoriais e pluralidade. Nesse contexto, sugerir a valorização de nossa moeda significa defender a queda da inflação e, consequentemente, a redução dos juros e a volta do crescimento do PIB.

*José Vilmar Ferreira é fundador e presidente do Grupo Aço Cearense (GAC).

 

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