“Cotonicultores ainda estão sob pressão”

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Tribuna do Planalto – A safra de algodão em Goiás do mês de junho apresentou uma redução, em relação à última temporada. Qual foi o motivo dessa retração e o que isso representa para o setor?

Luiz Renato Zapparoli – Houve uma combinação de problemas que levaram os cotonicultores goianos a efetuar esta redução. Certamente, o aumento dos custos está no ponto mais elevado das motivações que basearam nossas tomadas de decisões. O fator mais claro para isto está relacionado com o estouro do bicudo, que em todo o Brasil apresentou problema. A baixa nos preços e o alto estoque de algodão no mundo também não davam ânimo para mantermos ou aumentarmos a área plantada. Assim, o descontrole do bicudo e o cenário de preços baixos nos levou a optar por decisões mais seguras para retomarmos o controle do bicudo e a gestão dos custos, e não tínhamos oportunidades mais baratas e de menor risco para passarmos este ano. Precisamos lembrar, ainda, que no ano passado choveu em quase todo o Estado no período da colheita do algodão e isto nos trouxe muitos problemas na hora da entrega/cumprimento dos contratos. Agora, ao analisarmos as decisões tomadas na saída da safra passada, concluímos que acertamos e estamos prontos para que, se possível, retomemos um aumento, mesmo que tímido, da área do algodão no Estado. Precisamos ter em vista que a situação de preço da pluma do algodão ainda não está boa e que isto poderá ser um limitante da área do algodão no Estado. Acredito que, num futuro não distante, veremos bons preços para a pluma de algodão, uma vez que depois de muitos anos, nesta safra, o mundo plantará menos algodão do que consumirá.

O Brasil está entre os cinco maiores produtores de algodão, e Goiás ocupa o terceiro lugar no ranking nacional. Mesmo, com a retração do mês, há perspectivas de melhora, com previsão de aumento de 25% para a próxima safra. O que mudou em relação à última? Qual a perspectiva para o próximo ano, nesse sentido?
Os cotonicultores ainda estão sob pressão. Os estoques mundiais estão muito altos e principalmente concentrados na China. A concorrência com a fibra sintética é dura e não há no setor, em termos mundiais, uma liderança para tentar defender a perda de mercado que a fibra de algodão tem sofrido nos últimos anos. Aquela expressão de tempestade perfeita, muito usada pelos norte-americanos, parece que está sobre a cotonicultura, não apenas sobra a brasileira ou goiana e sim mundial. O petróleo próximo a U$D 50 o barril e a volta do Irã ao cenário mundial representam uma concorrência muito, para nós, se trata apenas como um item de custo, uma vez que pagamos muito mais caro pelo combustível que nossos concorrentes nos Estado Unidos da América e em outras partes do mundo afora. Desta forma, precisamos ser competitivos em todos os níveis para conseguirmos concorrer nos mercados internacionais e infelizmente não é isto que temos recebido. O setor é articulado, mas a batalha é dura e, em alguns casos, os problemas estão muito acima da nossa capacidade de articulação.
 
O setor é um dos pioneiros em organização no Estado. Qual o papel que a Associação tem desempenhado atualmente, junto aos produtores, e quais as próximas metas a serem alcançadas?
O papel da Associação é de representar o setor, buscar um movimento uniforme a fim de sermos ouvidos pelos vários setores da sociedade, capacitar o setor para enfrentar problemas e desafios e se atualizar para observar demandas nas áreas socioambientais. O grande tema para a Agopa hoje é a sustentabilidade, em especial, nos aspectos sociais e ambientais. Com orgulho, podemos afirmar que neste aspecto estamos muito bem e que temos contribuído para que o agronegócio goiano seja reconhecido como um setor que respeita o seu trabalhador, o meio ambiente. Na cidade onde existe a cultura do algodão temos nosso trabalho reconhecido e apreciado. Podemos, orgulhosamente, afirmar que em nossos campos não temos trabalho infantil e que nossas sedes de fazendas têm recebido investimentos para adequarmos nossas cozinhas, alojamentos, depósitos de defensivos agrícolas em conformidade às normas vigentes. Temos treinado nossos funcionários em vários setores, em especial quanto à necessidade de e como utilizar os EPIs, bem como manusear os defensivos agrícolas com a máxima segurança. Existem outras atividades, mas estas, creio, são as mais relevantes.
 
Recentemente, foi realizado o Dia do Algodão, em Luziânia. O tema escolhido para esta edição foi “Fortalecimento da sustentabilidade e viabilidade econômica do algodão”. Em que termos pensa-se a sustentabilidade dentro do setor?
Social, ambiental e econômico. Podemos gerar ganhos para a toda a sociedade. Contudo, sem lucro não há perpetuação do negócio, tão pouco estabilidade dos empregos e avanços nas cidades.
 
Sobre a questão da viabilidade econômica, que também fez parte da pauta deste ano, a produção de algodão tem encontrado dificuldades neste sentido?
Como disse, o grande estoque de passagem, de quase um ano de consumo, gera uma pressão sobre o preço da commodity. Não bastasse isto, ainda existe a ameaça da fibra sintética, com uma melhoria na qualidade deste produto e uma queda acentuada do petróleo, pelo menos no mercado internacional, e se não fossem alguns problemas locais, talvez aqui também.
 
O setor tem adotado o sistema de rotação de culturas. Como isso é feito e qual a importância dessa produção?
Sim, o setor tem adotado e recomendado a rotação de culturas já de longa data. Inclusive a sustentabilidade passa pelos ganhos que a rotação do algodão nas fazendas agrega. A primeira delas seria o ganho de produtividade nas culturas sucessoras e depois, não em ordem de importância, quebra dos ciclos de ervas e doenças, preparo de solo entre outros.
 
Qual o balanço que o sr. faz da realização do Dia do Algodão deste ano?  
O balanço do dia de campo foi um sucesso. Realizamos numa região onde o algodão não é uma unanimidade e, mesmo assim, vimos a presença de aproximadamente 320 pessoas, contamos com ótimos palestrantes, todos com assuntos interessantes, assim como com patrocinadores de destaque no nosso setor e a presença de inúmeras personalidades que nos encheram de orgulho. Na pessoa do nosso associado e diretor Carlos Alberto Moresco, inclusive anfitrião do evento, gostaria de agradecer a presença de todos os produtores goianos que nos visitaram e nos prestigiaram com a sua presença.
 
Como está o setor, em termos de incentivo público à produção?
Em termos estaduais estamos muito bem assistidos pelo Governo Estadual, com apoio em vários órgãos e respaldados por vários dirigentes estaduais empenhados em fortalecer, não apenas o algodão, mas todo o agronegócio no Estado de Goiás.
 
Quais são os maiores desafios para o produtor, hoje? É ainda uma questão de subsídio, ou a questão de adoção de novas tecnologias também está incluída aí?
Estabelecer o maior desafio é uma tarefa dura e cheia de controvérsias. Porém, do meu ponto de vista, o nosso maior desafio hoje é o bicudo, pois o combate dele tem tirado o nosso sono e trazido um grande desafio de gestão. Outro ponto, não menos relevante, é o preço e a fraqueza da indústria local. A desindustrialização do Brasil está atingindo a cotonicultura em cheio e precisamos de uma indústria local forte para sermos fortes. As questões legais, em termos de liberação de novas moléculas de defensivos, também nos afligem, e junto a transformação das questões ambientais em questões ideológicas também trazem grande preocupação. É certo que o novo Código Florestal ajudou muito, mas ainda há muito o que se fazer. As questões trabalhistas também trazem uma grande dor de cabeça e o quadro que temos agora aqui no Brasil só revela uma forma de sairmos deste atoleiro e será trabalhando mais.
 Em maio deste ano, a Agopa anunciou que os produtores goianos poderiam deixar de cultivar algodão devido às incertezas do mercado e também ao alto custo de produção. O sr. alegou até mesmo o possível desaparecimento do algodão, que poderia ser substituído pela fibra sintética. Esta é ainda a sua avaliação?
Sim, eu disse isto, que poderia desaparecer o algodão de Goiás. Uma outra pergunta que poderia ser feita seria: o algodão ‘’deve’’ desaparecer de Goiás? E aí a resposta seria não. O algodão não pode desaparecer de Goiás. O quadro ainda é grave e estamos atualmente sobrevivendo com muita luta e com esperança de dias melhores logo mais à frente. Esses dias melhores dependem de uma série de fatores e em apenas alguns temos condição de gestão. O preço internacional não está em nosso controle. Já a questão de novas moléculas e seus custos, temos alguma capacidade de gestão e temos trabalhado neles junto com a Abrapa. O desenvolvimento de novas técnicas e manejos, também temos gestão sobre isto e temos trabalhado com vários órgãos e instituições e a principal delas tem sido a Fundação Goiás. Ela é o braço científico das organizações goianas voltadas especificamente para o algodão e hoje passa por uma grande transformação apoiada pelo Fialgo, que é o Fundo de Incentivo à Cultura do Algodão em Goiás. O trabalho em prol do algodão se dá em várias frentes em Goiás e no Brasil; todos com uma boa sinergia nas várias atividades. A boa sinergia ainda está presente nas relações com o governo estadual e isto é certo, e com vários órgãos do governo federal sob a liderança da Abrapa. Desta forma posso afirmar que com todo este trabalho venceremos as incertezas que estão fora de nosso controle. Já as variáveis que temos algum controle, estas contribuirão para a continuidade da cultura do algodão em Goiás, para que o algodão goiano continue sendo um item importante na pauta de exportação goiana para o Brasil e para o mundo, bem como os empregados do setor serão reconhecidos como grandes profissionais em todos os setores envolvidos no processo.

 

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