Educomunicação: novas possibilidades para a aprendizagem

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SLIDESESCOLAAutor dos livros O segredo da caverna: a fábula da TV e da internet (Editora Cortez) e Manual do telespectador Insatisfeito (Summus Editorial), Wagner Bezerra possui larga experiência na área de Mídia-educação e Educomunicação. Mestre em Mídia e Cotidiano, o pesquisador acredita que o consumo massificado das mídias e, em especial, das novas tecnologias da informação e da comunicação, tem criado alterações muito significativas para a produção e difusão do conhecimento.

“Neste momento, o ensino formal e o informal, complementam-se de modo híbrido criando um imenso ambiente comunicacional que há muito invadiu e transformou por completo os processos pedagógicos”. Tais mudanças, segundo Bezerra, podem até assustar, mas representam uma oportunidade de ampliar as possibilidades de difusão do conhecimento, de superar o distanciamento existente entre a pedagogia baseada no livro didático e no conhecimento centrado na figura do professor, e a chamada pedagogia conectada, onde o conhecimento é descentrado e pode ser encontrado e consumido em locais e meios distintos. Confira a entrevista.

Em linhas gerais, fale um pouco sobre o que é Educomunicação?
Educomunicação é um conceito relacionado à chamada educação para a mídia e aplica-se em ações que visam o empoderamento de crianças e jovens a partir das suas capacidades de historicizarem-se a partir das próprias narrativas comunicacionais. A Educomunicação atua também para o desenvolvimento da leitura crítica, permitindo que os educandos sejam capazes de praticar um consumo midiático mais seletivo e consciente em relação ao que é consumido no ecossistema midiático. O neologismo foi criado pelo professor Ismar de Oliveira Soares, da USP, no início da década de 1980, quando seria agregado pela UNESCO como equivalente à media education.

Uma expressão que tem aparecido com bastante frequência nos últimos tempos é a chamada “alfabetização para os meios”. Qual a importância dessa concepção e como se atinge esse objetivo?
A alfabetização para os meios, a educomunicação e a midiaeducação, no Brasil, a media literacy ou media education nos países de língua inglesa, a literacia mediática, em Portugal, e mais recentemente a alfabetização midiática informacional, de acordo com a UNESCO, além do letramento digital, todos, são conceitos que, embora possuam

especificidades que os distinguem entre si, possuem um tronco comum, ou seja, são correlatos e compõem as chamadas pedagogias criticas da mídia. Outros objetivos comuns seriam orientar e fornecer o lastro teórico e as habilidades necessárias à leitura com o uso das novas tecnologias, construindo, assim, uma educação cada vez mais inclusiva, responsável e solidária, por meio da qual se possa trilhar o caminho da autonomia e do protagonismo infantil e juvenil, elementos determinantes para a Educação do Século XXI.

A partir de que momento o encontro entre educação, comunicação e multimídia, por exemplo, pode ser produtivo do ponto de vista da construção de um conhecimento significativo para a formação humana?
O atravessamento que o consumo massificado, desenfreado, das mídias e, em especial, das novas tecnologias da informação e da comunicação, tem agregado à Educação, tem criado alterações muito importantes para a produção e difusão do conhecimento. Neste momento, o ensino formal e o informal, complementam-se de modo híbrido criando um imenso ambiente comunicacional que há muito invadiu e transformou por completo os processos pedagógicos. Se, por um lado, a presença midiática e tecnológica pode assustar os educadores “formais”, principalmente a família e os professores, praticamente obrigando-os a tornarem-se neo digitais, por outro lado, essas mudanças podem significar oportunidades de superar-se o fosso que se formou entre a pedagogia convencional, baseada no livro didático e no conhecimento centrado na figura do professor, e a chamada pedagogia conectada, onde o conhecimento é descentrado e pode ser encontrado e consumido em toda parte, como em um aplicativo no celular. ÂÂÂ
Televisão é 100% educação?
Sim. Muitos estudiosos e pesquisadores tem trabalho a partir desta hipótese. De acordo com o pesquisador mexicano Guillermo Orozco Gómez (2014) – doutor em Educação pela Universidade de Harvard –, “as aprendizagens estão sempre em concorrência. Ele afirma:  “Às vezes ganha a escola, outras vezes a família, outras ainda a religião. Faz tempo que quase sempre ganham os meios de comunicação”. Você pode discordar do filósofo Pierre Levy – autor da cibercultura e professor da Universidade de Paris VIII – quando afirma que todo ato de comunicação implica um aprendizado, ou do professor Douglas Kellner –  Universidade da California, que diz que “somos aquilo que vemos e ouvimos, assim como somos aquilo que comemos; por isso, é importante imprimir nos indivíduos a necessidade de evitar comida ruim da cultura da mídia e escolher produtos mais sadios e nutritivos”. Mas, se levarmos em conta a autodidaxia, o consequente autoaprendizado, ambos muito bem sucedidos tanto nas experiências de educação a distancia, tanto via TV quando nos ambientes virtuais de aprendizado, é possível que os autores citados estejam certos ao afirmar que todo o conteúdo da mídia (seja rádio, cinema, TV, tablet, games e demais suportes e dispositivos) é educativo. ÂÂÂ

Com relação ao papel da televisão na vida das pessoas, percebe-se um nível grande de crítica aos conteúdos veiculados. Redes sociais como o facebook, por exemplo, estão cheias de comentários críticos em relação aos conteúdos televisivos. É possível afirmar que estamos um degrau acima no quesito critica aos meios, tendo como referencial a última década, por exemplo?
Acredito que imaginar um passo a diante em relação à simples contestação dos conteúdos midiáticos que são veiculados e consumidos tanto no meio da TV ou no ambiente digital, no facebook, seria a prática do consumo midiático seletivo. Ou seja, estabelecer critérios de seleção em relação ao que é ofertado pela mídia, conscientes de que é fundamental consumir conteúdos de qualidade, porque, de outra forma, corre-se o risco de se interiorizar o lixo da mídia, obviamente algo nocivo para quem consome. Como fazemos em relação aos alimentos, por exemplo. Quando uma criança se torna capaz de ler criticamente os meios, seja o game ou a TV, ela tem condição de descartar os excessos de sexo ou violência, e não consumir passivamente estes conteúdos apenas por comodidade ou por ceder aos apelos sedutores destes conteúdos.

Por falar em crianças, pesquisas apontam que elas têm passado mais horas assistindo televisão. Que prejuízos essa exposição pode trazer para os pequenos?
Os reflexos do hiperconsumo de mídia na infância não mediado por pais e professores (mais de 3 ou 4 horas diárias de TV, internet (redes sociais) e games), referem-se principalmente à obesidade, dificuldade de concentração e desinteresse por outros tipos de atividade. Todavia, há riscos maiores envolvidos que dizem respeito à pedofilia, bulling e assédio, que podem ser praticados por adultos contra crianças nativos digitais que navegam na rede desacompanhados.
Pensando no ambiente escolar, qual o desafio dos educadores que desejam ensinar a partir de conteúdos veiculados pela mídia. Cite alguns cuidados que se deve ter nessa hora para que o aspecto pedagógico seja produtivo…
Ao invés dos cuidados, prefiro mencionar o quão valiosas podem ser as experiências colaborativas que emergem do uso mediado dos meios nos ambientes de ensino-aprendizagem. A importância das trocas que podem ocorrer entre alunos e professores, seja no ambiente digital, no ciberespaço ou fora dele, fazem das mediações de fato surpreendentes. A troca de papéis, quando o aluno nativo digital se desloca da posição de aprendiz, ajuda o professor a descobrir algo novo. Estas são algumas das vivências gratificantes que podem ser experimentadas com o uso pedagógico dos meios.

Você possui dois livros publicados que discutem essa questão da influência dos meios de comunicação na vida das pessoas. De que forma essas publicações podem ajudar pais e professores no quesito “alfabetização para os meios”?
Parte do desafio do uso pedagógico dos meios audiovisuais, das novas tecnologias da comunicação e da informação e dos games, diz respeito às responsabilidades que isto implica para alunos, pais e professores. Com o livro “O segredo da caverna, a fábula da TV e da internet”, Cortez Editora, busco ajudar a iniciar o diálogo educomunicativo na família e em sala de aula sobre o consumo midiático consciente. Acredito que o livro pode ser uma boa ferramenta de trabalho nas salas de aula.


Quem é e o que faz?

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Consultor, pesquisador e autor nos campos da Mídia-educação e Educomunicação, Wagner Bezerra é graduado em Marketing pela Universidade do Norte do Paraná (UNOPAR), especialista em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Após a conclusão de seu mestrado na UFF, onde pesquisou sobre o uso pedagógico das TICs no ensino público municipal (Projeto GENTE) na Rocinha, Rio de Janeiro, Bezerra tem se dedicado a ministrar cursos de “educomunicação e ensino conectado” em escolas e cursos superiores de Pedagogia. No meio televisivo, o pesquisador já atuou como diretor e roteirista em programas de educação a distância.

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