O apoio a Dilma e o dilema tucano

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Sem títuloNão é segredo para ninguém que a presidente Dilma Rousseff (PT) está passando pela pior crise político-econômica de todos os seus anos à frente do Palácio do Planalto. Há cerca de 15 dias, a petista reuniu todos os governadores em Brasília e pediu apoio para aprovar o ajuste fiscal e barrar projetos que podem causar mais gastos à máquina estadual. O governador Marconi Perillo (PSDB) voltou da capital federal com discurso de apoio à presidente. Os deputados goianos do PSDB, porém, dizem que não darão trégua à presidente. E mais: a maior parte deles apoiam o impeachment.

A clareza nos discursos de cada um é evidente. Ao mesmo tempo em que o governador prega um discurso de governabilidade e de continuidade no trabalho de Dilma, os parlamentares da bancada tucana acham que a gestão petista já se esgotou. Enquanto o governador adota um postura republicana, os deputados querem mais ver o ‘circo pegar fogo’. Para eles, não há outra saída a não ser o afastamento de Dilma Rousseff.
Sofrendo com a falta de uma base coesa no Congresso, o Planalto tem sofrido derrotas consideráveis na Câmara dos Deputados e agora sofre pressão pelas ameaças do presidente da Casa, Eduardo Cunha, de pautar projetos que aumentam o custeio da máquina pública, as chamadas “pautas-bomba” (leia abaixo). Os parlamentares goianos do PSDB jogam no time da oposição e ampliam a base dos críticos à sua gestão. Nem mesmo o apoio de seu líder à presidente Dilma faz com que os parlamentares diminuam o tom das críticas em relação à petista.

Pedido
Cinco dos seis tucanos ouvidos pela reportagem dizem que vão continuar fazendo oposição ao governo. Até aqui os deputados revelam que o governador Marconi Perillo não chegou a conversar com eles sobre apoio de sua bancada à Dilma. A única exceção é o deputado Alexandre Baldy (PSDB), que revela um pedido do governador.
Para o deputado Alexandre Baldy, Marconi não chegou a pedir apoio à presidente, mas solicitou que observasse a situação do Estado e que  rejeitasse medidas que possam afetar a saúde financeira de Goiás. “Marconi só pediu para que nós não aprovássemos nenhuma medida que onerasse os cofres do Estado”, revela Baldy.
A preocupação de Marconi ganhou coro na última semana. Em plena crise econômica, a Câmara Federal aprovou uma Proposta de Emenda Constitu­cional (PEC) que reajusta salários de várias carreiras, provocando impacto de R$ 2,45 bilhões por ano apenas para a União. O temor dos chefes de Estado é que a queda de braço entre Câmara e o executivo federal afete os Estados e municípios. A aposta do Planalto é de que governadores e prefeitos pressionem parlamentares de suas bancadas para evitar efeito cascata da PEC.
Apoio
O apoio que o governador Marconi Perillo hipoteca à presidente Dilma não deve ser transferido para sua bancada por fatores que, segundo eles mesmos, são bem entendidos pelo governador. O discurso dos parlamentares é um só: o papel de quem está num executivo é governar, enquanto o papel de quem está no campo de oposição no Legislativo é de fazer oposição.
Segundo o deputado federal Delegado Waldir Soares (PSDB), membro da CPI da Petrobras, o governador não deve pedir apoio ao Palácio do Planalto. “Não houve conversa após a reunião com Dilma. Ele não deve pedir isso. Nós temos que seguir nosso papel de legisladores de oposição”, garantiu Waldir Soares.
Segundo o parlamentar, a situação do governo é caótica e não deve “demorar muito até sua queda”. Neste sentido, os desgastes da presidente deve chegar a quem se propor a ajudá-la. “Vamos seguir nossa postura de oposição. Neste momento quem dar a mão para Dilma vai se afogar junto com ela”, observa.
Endossando o discurso de Waldir,  o deputado federal Fábio Sousa  (PSDB) também acredita que Marconi não fará nenhum pedido de apoio aos parlamentares. Segundo Fábio Sousa a postura de Marconi favorece o estado. “Ele tem consciência de cada papel. Governo não pode fazer oposição a governo”, diz.
Ainda segundo Fábio Sousa, seus companheiros devem fazer o papel que cabe a opositores e diz entender a posição do governador na boa relação que mantém com a presidente, apesar do governo mal avaliado. “Ele tem que trazer benefícios para o Estado. Não pode fazer oposição”, corrobora Sousa.
Deputado federal João Campos (PSDB) acredita que Marconi sabe a postura dos deputados e ressalta que a relação de Perillo deve mesmo ser institucional. “Marconi sabe da postura de cada um no Plenário. Não fará nada para que nós tenhamos a mesma postura dele. A relação dele é institucional”, brada Campos.
Neste sentido, o PSDB parece adotar o mesmo discurso dos parlamentares e não diverge sobre papel de Marconi. O presidente da sigla no Estado Afrêni Gonçalves (PSDB) disse que o governador tem a consciência de que não poderá pedir apoio aos parlamentares por entender o papel dos deputados.
Segundo ele, o fato de Marconi adotar uma postura e os parlamentares do PSDB adorarem outra não afeta o bom relacionamento existente entre Dilma e o governo de Goiás. “Acredito que não há risco do estado perder com isso. Marconi respeita os parlamentares. Na política é assim”, diz.
Afrêni defendeu o governador ao dizer que há época de oposição e há época de gestão. Agora, segundo ele, é hora do segundo momento. “Nós temos que nos preocupar é com a go­vernabilidade. Tem época de fa­zer oposição, nas eleições se faz oposição. Tem época de go­ver­nar, é agora, é época de gestão.

Impeachment
Até aqui o discurso dos parlamentares tucanos de Goiás tem sido uniforme. Ganha unidade maior quando o assunto tem a ver com o afastamento da presidente da República. O impeachment é defendido por todos os parlamentares do partido. Para eles, é necessário a saída da presidente para “que o Brasil volte ao eixo”.
Favoráveis ao fim do mandato de Dilma, eles pedem entretanto que, caso o afastamento venha mesmo acontecer, que seja com bases jurídicas. “Se for confirmado tudo que está sendo demonstrado eu sou a favor. Além da corrupção e da crise econômica, ela tem demonstrado que é incompetente”, disse Sousa.
O deputado federal Célio Silveira é um dos que defendem o impeachment da petista. Para ele, neste momento seria o melhor para o país. Ele acredita, no entanto, que Dilma não aguentará a pressão e sairá. “Tem que ver o que é melhor, menos desgastante e menos traumático. Acho que ela pode até renunciar”, prevê.
Deputado delegado Waldir é outro que tem criticado de forma contundente o governo federal, especialmente sobre os assuntos relacionados à Operação Lava Jato. Membro da CPI, o parlamentar tucano acredita que falta pouco para que a afastamento da presidente esteja consumado. “Acho que falta pouco para abertura do processo de impeachment, falta apenas o convencimento do presidente da Casa”, acredita.
Sufocado pela Câmara Federal. o governo perde força a cada dia na Casa. Na última semana, PDT e PTB anunciaram que não fazem mais parte da base da presidente Dilma Rousseff. As bancadas declaram que, a partir de então, serão blocos independentes. Goiás tem dois representantes desses partidos na Câmara Federal, o deputado Jovair Arantes (PTB), líder do partido na Casa, e a deputada Flávia Moraes (PDT).
Juntos, os dois partidos somam 44 parlamentares que através dos seus líderes reclamam de falta de prestígio junto ao governo. Além disso, expõem divergências entre eles e o governo. A ação dos dois partidos, talvez, confirme a frase do delegado Waldir que disse: “Ninguém quer afundar junto com a presidente”.

Divergências
A divisão de posturas não é exclusividade do PSDB goiano. No cenário nacional, o partido também está rachado. Há opiniões divergentes sobre um possível processo de impeachment da presidente Dilma. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) adota tom mais radical ao se posicionar favorável. Entretanto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin são mais moderados e conservadores neste sentido.
Mesmo assim, há quem não enxergue divergências internas. Para o deputado federal João Campos não há divisão dentro do partido. Ele acredita que as declarações de FHC não tem o objetivo de influenciar a bancada opositora, portanto não atrapalha. “Não há necessariamente uma divisão. São declarações mais amenas, mas não tem o intuito de exercer liderança”, interpreta.
Já para o deputado Dele­gado Waldir, há clara divisão interna no PSDB e isso atrapalha. Segundo ele, os tucanos deveriam remar em uma só direção, mas não há esse consenso dentro do cúpula. “Isso atrapalha com certeza. Enquanto alguns são mais ativistas, outros são mais moderados. Acho que se as opiniões fossem uniformes ajudaria”, observa.
O comportamento dos tucanos é claro e pode ser explicado pelo cargo que cada um ocupa. Os governadores temem represárias do governo e apoiam Dilma, pelo menos nos discursos. A meta é conseguir canalisar verbas federais para seus Estados, aumentando o leque de obras e serviços em um ano de dificuldades financeiras. Já os parlamentares se veem soltos para manter a oposição à presidente, com o comando do senador Aécio Neves. Fernando Henrique, que não tem cargo eletivo, mantém apoio como estadista, mas critica fortemente o ex-presidente Lula, que pode ser um futuro adversário de seu partido em 2018.


Tucanos goianos reforçam apoio a Eduardo Cunha

 

O presidente da Câmara Fe­deral Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conquistou os opositores da Casa. Cunha tem a apoio da bancada do PSDB na maioria das votações, após ter anunciado a saída da base da presidente Dilma Rousseff. Os tucanos o apoiam, principalmente, nas chamadas “pautas-bomba”, que pode fazer naufragar o ajuste fiscal do Planalto.
Na semana passada, Eduardo Cunha autorizou o congresso a julgar as contas dos ex-presidentes Itamar Franco (1992-1994), Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) e do ex-presidente Lula (2003-2010). Todas fora aprovadas pelo Congresso em menos de um dia. A medida, porém, abre caminho para o julgamento das contas da gestão de Dilma Rousseff.
Mesmo com o arsenal de Campos mirando o Palácio do Planalto, os tucanos aprovam a postura do peemedebista e não veem intenção de prejudicar o governo. O deputado João Campos diz não acreditar que as pautas da Casa tenham o objetivo de complicar o Executivo: “Acho que ele (Eduardo Cunha) vem tendo uma postura de equilíbrio. Não acredito em más intenções”.
Para o deputado Fábio Sousa seria injusto dizer que Cunha aposta em “pautas-bomba”. Segundo o parlamentar, ele vai votar aquilo que for positivo. “Vou votar aquilo que é melhor para o Brasil. Acho que é injusto dizer que as pautas do Eduardo tenham um viés de afronta”, opina.
O parlamentar Célio Sil­veira também defendeu Eduar­­do Cunha dizendo que as pautas já estão sendo discutidas há muito tempo e que agora apenas chegou o momento de apreciá-las. “Essas pautas que estão sendo votadas já está em discussão ha tempos. O que pode afetar mais a presidente é a questão da contas”, observa. (M.B.)

 

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