Uma lembrancinha aos pais

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Dia dos Pais. A data não é nem de longe a que mais movimenta o comércio durante o ano. Mediante o momento econômico, porém, os lojistas estão querendo que as vendas aumentem para aquecer o faturamento – senão o anual, pelo menos o do mês de agosto. Isso é o que expõe José Carlos Palma Ribei­ro, presidente do Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas-GO).
De acordo com o representante sindical, o ambiente econômico não permite expectativa mais elevada. “De maneira geral, não há uma expectativa de grande melhora. A gente sabe que é uma data e deve aquecer por conta disso, mas aquece em relação aos outros dias comuns”, opina. “A gente considera satisfatório se conseguir o mesmo volume de vendas do ano passado, mediante a situação atual”, argumenta Palma.
Keitty de Abreu Valadares, presidente da Associação das Donas de Casa, acredita que o aumento do movimento não vai trazer retorno significativo ao comércio. “O país está passando por uma crise e acredito que não serão presentes, mas lembrancinhas”, diz. “O poder de compra que os brasileiros tinham, não tem mais. A dona de casa, quando vai ao supermercado, não faz a mesma compra com a mesma quantia que gastou antes. Temos que ver o que é prioridade”, argumenta.
Nas ruas, a leitura é a mesma, mas o sentimento é otimista. O vendedor Sinésio Gonçalves Costa, 50 anos, vendedor de uma loja especializada em trajes formais para homens, espera que a data estimule as pessoas a irem às compras. “As expectativas são as melhores possíveis. A gente espera que o fluxo melhore no decorrer da se­mana. Está devagar ainda, mas eu acho que vai aumentar muito daqui até sábado”, declara.
Quando perguntado sobre a expectativa de presente para o Dia dos Pais, no entanto, Sinésio fica mais cauteloso, já que é um dos que, provavelmente, serão presenteados neste domingo. “Deixa ao critério deles escolher o que comprar. Mas, não está muito propício para a gente estar gastando muito, eu entendo, pelo mo­mento econômico, né?”, observa o vendedor. “Mas, o que vier será muito bem-vindo”, afirma.
Em uma loja de eletroeletrônicos, o gerente Rafael Henrique Leal Jansen, 30 anos, afirma que o volume de vendas cresceu com a proximidade da data, mas é realista. “Não vai vender o mesmo tanto do que o ano pas­sado, porque as dívidas au­mentaram. Só que as ofertas tam­bém estão adequadas de acordo com o que o pessoal tem”, defende. “Tenho que ser a pessoa mais otimista nessa si­tuação, porque dependo de ven­da para o meu resultado”, torce.
Jansen conta que é um daqueles que gastam muito no presente do Dia dos Pais, mas, para isso, foi necessário se programar. “Eu já tinha sondado há um tempo, então já me programei com antecedência”, explica. O gerente de vendas conta que o produto, que é da linha de informática, escolhido atende a uma necessidade do pai. “Foram mais ou menos uns três meses para investir em torno de R$ 1,5 mil”, relata.
Para o xará Rafael Rodri­gues da Silva Oliveira, 26 anos, gerente de uma loja especializada em produtos de informática, o momento é bom para quem tem estratégia. “O pessoal tem dinheiro, só que está com medo de gastar. Então, temos que atrair esse público”, afirma. De acordo com Oliveira, o objetivo é transformar o Dia dos Pais em um Dias das Mães. “A gente está apostando mesmo na data, para mudar esse cenário de fa­turamento e tudo mais”, conta.

Consumidores cautelosos
Se os lojistas estão animados com a possibilidade de aquecer o comércio, os consumidores parecem confirmar a tendência de cautela, apontada desde o início do ano por economistas. Outro fator que tem colaborado para este cenário é a inadimplência. Para a Superin­ten­dência de Proteção aos Direi­tos do Consumidor (Procon Goiás), que divulgou no final da semana a pesquisa e preços para o Dia dos Pais, o momento é de cautela e controle.
O órgão sugere que se evite a compra de produtos com valor elevado, além do parcelamento com juros a longo prazo, e orienta a avaliação de outras alternativas para a comemoração, tais como um passeio, um jantar ou um almoço em família. Durante as visitas dos técnicos aos estabelecimentos, foram encontradas variações grandes como, por exemplo, camisa oficial de time de futebol com variação de até 99%.
A psicóloga Regiany de Cassia Lopes Morais, 36 anos, é filha, casada e mãe de dois filhos, logo a conta aumenta quando a data chega, porque os presentes são multiplicados. “Todo ano eu costumo comprar, tanto para o meu marido, quanto para o meu pai”, explica. Geralmente, o marido, Weliton, acaba sendo privilegiado na hora da compra. Mas, neste ano, o investimento em presentes deve ser bem menor.
“Normalmente, eu compro um presente bom, mas esse ano não vai dar pra comprar presente bom pro Weliton, não. Então, vai ser uma lembrancinha, também”, expõe. De acordo com Regiany, o momento econômico do país teve impacto direto na sua casa. “A nossa receita mudou muito de pouco, mais de um ano para cá. Não afetou na qualidade de vida, mas é por questão de medo do que vem e do que vai acontecer”, comenta.
A psicóloga esclarece que a postura que adotaram em sua casa tem sido economizar com os gastos extras, para guardar o que tem. “Por isso, não vou comprar esse ano um presente tão bom assim para o meu marido, porque eu não sei o que vai vir pela frente”, justifica. Regiany, que já trabalhou com vendedora em uma grande rede de perfumaria, acredita que o Dia dos Pais movimente bem menos o comércio.
“Eu lembro que a segunda data do ano que mais vendia era o Dia das Mães. Vendia muito! Só perdia para o Natal”, lembra. “E eu sempre me perguntei o porquê de no Dia dos Pais não vender. Por que no Dia dos Pais o comércio é mais parado? E eu descobri uma coisa: os pais não são tão queridos como as mães”, alega a psicóloga. “Não sei porque… Talvez, hoje em dia, os pais não estejam presentes ou as pessoas não sintam que são amadas”, cogita.
Na casa da professora Iasmym Passos Bernardes, 26 anos, a aquisição do presente foi adiada por dois motivos. “Como ele está viajando a trabalho, eu decidi comprar quando ele voltar, que ficará mais perto da data, de quando ele chegar, e também porque ainda não recebi no meu trabalho”, revela. “Certamente, não será algo caro, porque tudo está mais caro e nós precisamos economizar. Meu pai, também, não é muito de se importar com essas datas”, revela.
Para Iasmym, a pesquisa de preços também é um fator que será considerado. “Sou do tipo de pessoa que pesquisa tudo, até mesmo preço de desodorante (risos). Acho que a gente tem que economizar nos mínimos detalhes, porque cada economia ajuda. No final do mês temos uma grande diferença”, observa. “Eu não vou comprar o presente do meu pai na primeira loja que eu ir, vou pesquisar pelo menos três, para ver se o preço está de acordo”, relata.


Pesquisa revela tendências

 

No final do mês de julho, como forma de previsão, o Sindilojas-GO realizou uma pesquisa por meio do Centro de Pesquisas Econômicas das Faculdades Alfa. O objetivo era coletar dados para oferecer aos lojistas um norte sobre o comportamento do consumidor. Os números apresentados mostram o tipo de presente, o valor pretendido para o gasto e, também, os locais de compras que deveriam receber a maior leva de consumidores.
A pesquisa foi realizada entre os dias 22 e 24 de julho, e divulgada no dia 30 do mesmo mês. A intenção é que os lojistas usassem a mesma como orientação para estabelecimento de estratégias de promoção e atração do cliente. O destaque entre a preferência dos consumidores continua a ser o vestuário, que foi apontado por 40,5% dos entrevistados como opção de presente no Dia dos Pais.
Para José Carlos Palma Ribeiro, presidente do Sindilo­jas-GO, a preferência dá-se devido à grande variedade de produtos no setor. “A pessoa tem desde a variedade de preços, à variedade de produtos”, esclarece. “É um ramo de atividade que é possível qualquer tipo de bolso adquirir. Quem não pode comprar um presente mais caro, pode dar uma meia. Quem pode, dá uma camisa”, exemplifica.
Outro dado que chama a atenção é a preferência por lojas de rua. Palma esclarece que, devido ao público-alvo serem os filhos, a distância é um fator relevante, por isso as lojas de bairro são priorizadas nessa hora. “O comércio de bairro é o que está mais próximo de casa, que é onde ele tem condição de comprar o presente mais facilmente”, esclarece. O fator pagamento também foi objeto de estudo da pesquisa.
De acordo com o levantamento, mais de 66% dos entrevistados pretendiam o pagar os presentes em dinheiro. O cartão de crédito ficou em segundo lugar, com 31,4%. Para Palma, o fato de a escolha, em geral, ser o comércio de bairro, as condições de pagamento não podem fugir dessa realidade. “Como é uma data voltada para filhos, não demanda muito de crediário, ou outras formas de pagamento, normalmente”, completa.


Menos consumo e mais afeto

 

Márcio Ferreira dos Santos, 36 anos, representante comercial, acredita que vale a pena comprar uma lembrancinha para presentear o pai. “Eu vou comprar algo simples, mesmo, algo barato. Acho que não tem necessidade de gastar o que não tem para comprar o que não precisa”, avalia. Quanto à dita crise, Márcio não muda de opinião. “Assusta um pouco, mas não influencia muito. Porque, com crise ou sem crise, compraria algo só como lembrança”, diz.
Da esposa Magda e da filha Barbarah, Márcio não diz estar preocupado se vai ganhar presente ou não. “Eu prefiro dar do que receber. Não tenho essa preocupação, não”, comenta. “Acho que vai depender de como a minha filha e a minha esposa vão analisar a data, a minha pessoa, e saber se eu mereço ou, não. Se eu ganhar, vou ficar muito feliz”, afirma sorrindo. Para ele, a valorização do pai deveria ser algo diário, e não relacionado a apenas um dia do ano.
“Eu acredito que Dia dos Pais, e não é um chavão, é todos os dias. A figura do pai é importante para todo filho. E não é apenas uma data em todo o ano que vá fazer a diferença, ou vá aumentar ou diminuir a importância do pai na vida de uma criança”, argumenta. “Acho que o maior presente que um pai almeja de um filho é respeito, obediência, e que ele dê certo na vida. Essa data é apenas uma questão comercial que foi criada”, reflete.
“Para aqueles que tem dificuldade de lembrar, é uma data que faz com as pessoas reflitam e, pelo menos dessa vez, nessa data, deem a devida importância que a figura do pai tem na vida de todos nós”, conclui. Iasmym é da mesma opinião. A professora acredita na importância da data como momento de apreciação da figura paterna, seja o pai biológico, o avô, o tio, ou qualquer outro ente que tenha participação da criação da pessoa.
“Acho que eles merecem, sim, ter uma data especial. E é importante passar essa data perto de quem foi este herói, essa pessoa especial para nós”, pontua. Iasmym defende ainda que o valor do presente não deve contar tanto, mas sim aquilo que representa para pai e filho. “É muito melhor, às vezes, você dar um abraço, um olhar de amor, e palavras que vão dar a este pai, este homem, um carinho especial”, pondera.
Para Keitty de Abreu Valadares, presidente da Associação das Donas de Casa, o momento econômico tem permitido essa maior reflexão sobre prioridades. “Tem que estar analisando o que é prioridade. Não vai perder o foco comercial, totalmente, mas vai perder um pouco sim”, analisa. Valadares explica que a maior parte das famílias sobrevive com rendas baixas e, por isso, a reflexão sobre o que é importante ou não tem se tornado mais presente.
Até mesmo José Carlos Palma, presidente do Sindilojas-GO, acredita que a data deve ser considerada além de seus fins comerciais. “A gente tem que ter consumidores que conheçam o tamanho do compromisso que podem”, expõe. “Ao consumir fora da sua realidade, ele acaba tendo problemas e deixa de consumir. O que a gente quer é que, mesmo que ele consuma um pouco menos, consuma sempre”, argumenta.
Sobre os presentes que deve receber neste domingo dos pais, Palma está curioso. “Tenho dois filhos, um neto e uma neta. Vamos ver como eles estão de bolso. Eu não sei”, diz rindo. “A vontade de presentear, até acredito que eles tenham, agora qual a condição de cada um a gente vai aguardar pra ver. O importante para mim é a presença deles e que a gente tenha um dia agradável juntos”, considera.

 

 

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