“As pessoas não têm o hábito da prática sustentável”

0
1609

E4 e E5 01O termo sustentabilidade ganhou muita força nos últimos anos, está cada vez mais presente na mídia, nas rodas de conversas, no imaginário coletivo. No entanto, as pessoas ainda têm muitas dificuldades em desenvolver hábitos e atitudes sustentáveis. Essa é a opinião da educadora Marilda Shuvartz, que possui doutorado em ciências ambientais e é professora na Universidade Federal de Goiás (UFG). Apesar de muito se falar sobre o assunto, a educadora acredita que a compreensão das pessoas sobre o tema ainda está muito aquém do ideal.

Na perspectiva da docente, é preciso que um conjunto de atitudes mudem para que a sustentabilidade seja melhor compreendida e haja reflexos práticos no cotidiano das pessoas. A começar, segundo ela, pelas abordagens sobre sustentabilidade nas escolas, que precisam ser revistas e reestruturadas para que façam mais sentido na vida dos estudantes. “Acredito que as escolas precisam mudar a forma de aplicar o conhecimento sobre sustentabilidade e prática sustentável, estamos um pouco longe de um conhecimento prático”, diz.

Professora, fale um pouco sobre o significado da paralvra sustentabilidade.
Sustentabilidade é um termo criado pelo homem quando ele desperta a sua relação entre ele e o meio ambiente. Com a revolução industrial, o homem passa a usar a natureza como benefício próprio, e a partir de então entra a percepção da perda de elementos próprios da natureza; a questão da poluição, a poluição do ar, que são os dois elementos que fazem a gente pensar em sustentabilidade como equilíbrio e as relações que o homem mantém entre elas. A palavra sustentabilidade tem sido muito usada no nosso vocabulário, mas poucos a compreendem. Ela está na mídia, as pessoas têm um conceito de sustentabilidade, reproduzem a palavra sustentabilidade, mas não compreendem e não têm ações na direção dela. O empresariado se apropria do termo, uma campanha política se apropria do termo; e até a própria mídia ajuda a divulgar isso, mas ela não ensina – ela está propagando, informando, mas não discute o tema.

E as pessoas continuam com pouco entendimento sobre o tema?
As pessoas acham que conhecem sobre sustentabilidade. Se fizermos uma pergunta para uma pessoa com o objetivo de saber se ela conhece sobre o tema, ela vai dizer que sim, que conhece, mas não é bem assim. Até já fiz uma pesquisa sobre esse assunto, questionei sobre onde elas ouviram falar do assunto, e algumas pessoas disseram que tinham o conhecimento através da televisão e jornais. Mas quando  perguntamos sobre um determinado dano ambiental, essa mesma pessoa que diz saber sobre sustentabilidade e se apropria da palavra, não corresponde ao conhecimento correto; ela não teria determinados valores, atitudes e compreensões dessa relação do homem e a natureza. São respostas contraditórias, ou seja, ela não aprendeu o que é sustentabilidade.

Nesse caso, as práticas sustentáveis ainda não estariam inseridas na vida das pessoas?
Em sua maioria, as pessoas não dominam e nem têm o hábito da prática sustentável. E eu estou falando sem diferenças de classes sociais, porque quanto menos acesso à educação e aos meios de comunicação, menor tende a ser a compreensão. A sociedade ainda não tomou conhecimento da prática sustentável. Vivemos em uma cadeia alimentar, alguém sempre vai estar caçando alguém. Até então o homem está no topo da cadeia alimentar. E temos que organizar essa convivência social entre o homem e a natureza para que possamos ter uma relação mais harmoniosa, sendo no campo ou na cidade. E nós tínhamos uma ideia de que quem conservava mais estava no campo e quem poluía mais estava na cidade, mas isso não é mais uma verdade. As pesquisas mostram que tanto o homem do campo quanto o homem da cidade continuam com a visão de que eles estão no centro de tudo; e o homem do campo também causa danos ambientais, ele também não entende de sustentabilidade como deveria, talvez ele tenha mais distância ainda de informações sobre o que é sustentabilidade.

Por que que ainda há esse distanciamento do assunto, já que a ideia de sustentabilidade está tão presente no nosso cotidiano?
Uma pessoa, principalmente um adulto, não teve convivência com a palavra sustentabilidade; ele não viu isso na escola. Hoje em dia isso já está na matriz curricular das escolas, no plano pedagógico, nas diretrizes curriculares. Um dos eixos da biologia é o tema sustentabilidade e biodiversidade. No livro didático tem que ter essas informações.

E a senhora avalia que esse tema está sendo trabalhado em sala de aula?
A existência do livro didático não é a garantia de que o professor está trabalhando o assunto. Geralmente, o que acontece é que os professores não estudaram o assunto, no ensino fundamental, no ensino médio; e nem na universidade, dependendo do curso que fizeram. Há professores que chegam à sala de aula sem formação para trabalhar com o tema. Então, se as informações estiverem no livro, muitos pedem para que os alunos realizem uma atividade sobre o tema, mas não é assim que deve acontecer. Esse assunto não é um tema único de biologia ou de ciências, é um tema que deve estar associado com todas as áreas do conhecimento. Há uma lei que determina que o assunto Educação Ambiental precisa ser trabalhado em todas as escolas de forma transversal. É um tema que tem que percorrer toda a matriz curricular. O conceito de saber usar os elementos da natureza para preservar, conservar para as futuras gerações, é falho porque nós temos que trabalhar isso pensando no hoje! E a maior dificuldade de trabalhar isso é com adulto.

O que pode ser feito para mudar essa situação?
Ninguém vai exercitar sustentabilidade sem conhecimento e sem entendimento. Então, precisamos fazer com que as pessoas se apropriem desse entendimento. Sem tirar a responsabilidade das políticas públicas, porque sozinhos não vamos construir prática sustentável, pois vivemos em grupo em uma cidade com mais de um milhão de habitantes. Precisamos de políticas públicas que nos ajudem a ser ambientalmente melhores. Não adianta eu separar o lixo se não tiver coleta seletiva. E porque eu estou falando do lixo? Porque é o tema mais trabalhado na educação ambiental no Brasil, as pesquisas mostram isso.
Como a senhora avalia a qualidade das campanhas de conscientização?
Se investe pouco em educação ambiental via mídia; e quando investe, geralmente colocam erros conceituais, estimulando a preservação da natureza para as futuras gerações, mas, na verdade, isso não é para o futuro, é para hoje.  Temos que pensar no tempo imediato, no agora.

A senhora pode dar algumas dicas sobre como esse tema pode ser tratado em sala de aula?
O tema sustentabilidade precisa ser trabalhado nas escolas de forma pontual. Precisa ser contínuo e permanente, só assim temos a garantia de estar atendendo o que esta na lei ambiental. Pode ser realizado um trabalho dentro da escola, mas não achando que esse aluno é um multiplicador dessa informação. Ele construiu um conhecimento que é dele e que vai gerar uma determinada atitude e valores que são dele, e que vai impactar em um grupo social, mas ele não ensina a mãe se ela não quiser aprender. E as famílias podem ser ensinadas por outros grupos. E isso é o que esta faltando: ONGs, instituições sociais.

De uma maneira geral, como a senhora percebe que as escolas estão trabalhando com o tema?
Eu percebi algo em pesquisas que realizei sobre o tema: que as escolas este ano não estão trabalhando tanto atividades de educação ambiental. Parece que tivemos momentos de grande mobilização, mas agora reduziu. E o que se trabalha dentro das escolas como educação ambiental está distante daquilo que deveria ser. A limitação dos alunos em sala de aula limita uma boa memorização. É preciso usar mais as praças, museus, ruas. A sustentabilidade precisa ser discutida na prática. Uma boa atitude é levar os alunos para a Avenida Goiás, comparar ela com a avenida Anhanguera. Dessa forma, o conhecimento se torna real e vai para além da sala de aula.

É preciso sair a campo…
Dentro da sala de aula não se constrói esse conhecimento. Os alunos precisam observar o verde, a poluição, sentir e ouvir o meio ambiente, pois ele é totalmente diferente quando a gente observa apenas por meio de um vídeo. Acredito que as escolas precisam mudar a forma de aplicar o conhecimento sobre sustentabilidade e prática sustentável, estamos um pouco longe de um conhecimento prático. E relembro que o papel da mídia nesse contexto é extremamente importante, mas temos que observar para que lado ela leva a distribuição da informação.

E de que forma as universidades podem contribuir com as escolas para que as abordagens educativas sobre sustentabilidade sejam aperfeiçoadas?
Tem quem estude os temas ambientais nas universidades, e essas pessoas precisam ter parceria com as Secretarias (de Educação) para montar projetos juntos, campanhas, exercícios de coleta seletiva… Precisamos educar as pessoas. Onde? Nas praças, nas ruas; através do rádio, que tem grande alcance; através de jornais, programas para toda a população. E o tema sustentabilidade precisa ser mais debatido, falado entre as pessoas. Precisamos nos fazer a seguinte pergunta: como eu sou sustentável? Esta pergunta precisa de ser fomentada, imaginada e colocada em prática.

Em nossa cidade, por exemplo, como a senhora avalia as discussões em torno do tema?
Nas universidades,por exemplo, se discute bastante sobre meio ambiente – isso é bom, não é ruim -, mas este conhecimento precisa ser migrado para a população. Temos que lembrar que a cultura é que reflete a relação social com o meio ambiente. É preciso introduzir novos conhecimentos e mostrar que certas práticas culturais estão erradas. Queimar folha seca no quintal da casa no fim da tarde, por exemplo, é uma cultura de Goiás vinculada com a cultura indígena. Temos que respeitar a cultura, mas isso polui o ar, as pessoas precisam saber disso. Queimar em uma situação temporal é aceitável, porém, não pode ser uma prática.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here