“O Fica foi ambiental, foi cinema, foi pedagógico”

0
1146

A5 02Tribuna do Planalto – Qual a avaliação geral do Fica 2015? As metas foram atingidas?

Raquel Teixeira – Foram. Na minha avaliação, foi extremamente positivo. O Fica nasceu há 17 anos, como um festival de cinema ambiental. Isso quer dizer que não é só um festival de cinema. Tem 130 festivais no Brasil. Gramado é muito mais importante. Então, o diferencial é a temática ambiental. Portanto, ele é um espaço criado para se discutir as questões ambientais através da imagem, através do cinema. E ele ficou forte, quando nasceu, exatamente pelo perfil. Nesta 17ª edição, ele se fortaleceu, novamente, como cinema ambiental, com repercussão nacional e, principalmente, internacional. É claro que há outras questões envolvidas. Então, alguém pode dizer que o público foi menor. Foi. Discutir meio ambiente, transgênicos, falta d’água, não atrai o mesmo público que o show da Rita Lee. E o Festival estava acostumado, nos últimos anos, a ter grandes shows nacionais. Eu não tenho nada contra esses shows e, talvez, a gente até retome um para finalizar o Fica no ano que vem. O que nós não vamos deixar acontecer mais – essa é a determinação do governador – que o show nacional se sobreponha ao festival de cinema. Se fosse assim, então vamos acabar com o Fica e fazer um Canto da Primavera em Pirenópolis.

Houve algumas questões, como o corte no orçamento e a mudança na data, que trouxeram um pouco de insegurança. Isso atrapalhou a realização do festival?
Outras questões, também, talvez possam ter “atrapalhado” – porque eu não acho que, realmente, atrapalhou. Mas, saíram da rotina, como a data. A data sempre foi junho, porque é o mês do meio ambiente. E será sempre em junho, a partir do ano que vem. Tivemos um problema de definição orçamentária que aconteceu em maio, ficando impossível fazer o evento em junho. Agosto é um mês difícil. As pessoas estão retornando das férias, e o pessoal daquela região vai todo para o Araguaia durante o mês de julho, então agosto é um mês de retomada. O Teatro São Joaquim entrou em reforma em julho. Ficou esperando a gente ter o Fica em julho, aí não dava para esperar mais. Portanto, não tivemos o principal local de exibição. Tivemos que usar o Cinemão, que sempre foi usado como apoio, mas que agora virou o local do evento principal. Mas, nem isso atrapalhou. As pessoas se envolveram, gostaram, aprenderam, se relacionaram. Aliás, tem um cineasta português, que veio representando a Green Network Films, que me disse que gosta muito mais do Cinemão, do que do Teatro São Joaquim. Há opiniões discordantes.

Qual o impacto econômico para a Cidade de Goiás?
Foram investidos R$ 800 mil, diretamente, e R$ 900 mil, indiretamente. Se você considerar que R$ 1,7 milhão em quatro dias é maior do que a arrecadação da Prefeitura da cidade em um mês, pode-se ter noção do impacto econômico. Houve 100% de ocupação dos hotéis no Centro Histórico, e 70% em toda a periferia.

Na sua opinião, o Fica é um evento que faz jus à sua temática, que é a ambiental?
O Fica teve algumas inovações interessantes. Nós desenvolvemos um aplicativo que transmitia a programação online, mas você também podia entrar fazer perguntas e acompanhar. Foi distribuído um squeeze para as pessoas usarem durante o festival, reduzindo o número de copos plásticos utilizados. O aplicativo reduziu o número de papéis impressos. A gente colocou 70 lixeirinhas novas, estimulando as pessoas a não jogar nem papel, nem lixo, nem nada na cidade. Então, eu acho que esse Fica expressou uma retomada do conceito original, mas um conceito novo de tentar essa ligação entre o que a gente pensa, fala e faz. Nesse sentido, foi muito bom. O Fica foi ambiental, foi cinema, foi pedagógico e consolidou o aspecto formativo.

Em que sentido ocorre essa formação?
Um dos filmes premiados, recebeu dois prêmios, foi o segundo melhor filme goiano, o “Maria Macaca” é fruto direto do Fica. O Lázaro (diretor) ao receber o prêmio estava muito emocionado e as pessoas também, porque ele contou que, desde o primeiro Fica, sempre assistiu a todas as oficinas, todos os seminários, todos os debates. Portanto, o que ele sabe de cinema, ele aprendeu com o Fica. Então, o festival já tem resultados concretos desse papel formativo, que é tão evidente que, hoje, estamos construindo uma indústria do cinema em Goiás. Não é só atrair gente que vá embora no dia seguinte, e não deixar legado, e não deixar uma ação marcada.

Caso o público aumente nos próximos anos, a Cidade de Goiás terá formas de comportá-lo?
Esse é um problema real que a Cidade de Goiás apresenta e que tem que ser resolvido por eles. Tem que resolver essa questão. Agora, eu não acho, que o número de público deva ser o termômetro para o sucesso do festival. O número de público nas salas de exibição, nos debates, nas mesas redondas, nos seminários, sim.

É neste sentido que falo. Um aumento do público que participa.
Claro, claro. Acho que temos condição de trazer mais ainda voltando para junho, que é a época tradicional. Pra você ver, nós tivemos o Fica na mesma semana do Festival de Gramado. Então, em junho já é um calendário nacional de cinema. Então, eu não tenho dúvida de que voltando para junho, tendo um orçamento maior, mas com foco de que esse orçamento jamais será para muitos shows.

São 17 anos, então o Fica se tornou um evento de visibilidade internacional, como a sra. mesma colocou. O que isso representa para Goiás, enquanto produtor cultural?
Representa muito. Por exemplo, o francês que tirou o primeiro lugar, com o filme sobre transgênicos, conversou longamente comigo, dizendo: “Secretária, isso aqui é uma preciosidade. Cuida bem do Fica! O que se debate aqui, o que se mostra aqui, vai influenciar o mundo”. Então, eu acho que isso mostra que a gente, agora, precisa ter um enraizamento nacional mais forte e uma projeção internacional, também, mais evidente. A gente tem essa projeção, mas ela ainda é pequena. O festival ainda é um evento goiano. Nesse sentido, está consolidado. Precisamos, agora, levar os filmes nacionalmente; fazer uma inserção mais sistematizada nas redes sociais; aprofundar esse aplicativo que foi desenvolvido para essa edição do Fica continuar ao longo do ano, inclusive, disponibilizando os filmes através da Internet. A nossa ambição e planejamento passa muito por essa consolidação nacional e internacional.

Em entrevista à Tribuna, o professor Lisandro Nogueira apontou que nós temos dificuldade com a distribuição de filmes goianos. O que o governo do Estado e a Seduce pretendem fazer para ampliar essa distribuição?
Essa problemática da distribuição não é nem só do cinema goiano, mas do cinema brasileiro, em geral. E, através do Fica, a gente tem um canal para fortalecer isso. Eu participei do debate com o Alfredo Manevy, que é da SP Cine (empresa de cinema e audiovisual de São Paulo), que alegou a mesma dificuldade. E ele foi além. Porque, afora do problema de distribuição, o cinema brasileiro feito em São Paulo tem problema de exibição. Então, a gente tem que ver mais: a distribuição, a tela. Por isso que eu falei que a gente tem que ampliar o número de telas em Goiás e nas outras cidades. Improvisar escolas como possíveis cinemas. Cinema ao ar livre. Usar esses mecanismos que outros lugares usam para uma ampla disseminação do cinema.

A internet, com a criação de uma plataforma para distribuir e exibir esses filmes, seria uma ferramenta interessante?
Claro. Eu falei isso no primeiro dia do festival e acabou que teve receptividade. E eu agora vou ser obrigada a trabalhar nessa direção (risos). Quem sabe começar a incluir formatos diferentes de filme? Por que não, filme para celular? Por que não, um videogame com temática ambiental? Por que não, outras formas de linguagem que existem no mundo, hoje? Tudo isso vai entrar na pauta do Fica.

Goiás produz muita cultura. Mas, às vezes, isso fica muito restrito ao próprio estado. Como que a sra. enxerga Goiás, hoje, com relação ao restante do país?
Acho que talvez falte divulgação, marketing. Goiás há muito tempo, na música clássica, já tem uma inserção nacional e internacional. Nas artes plásticas, a gente tem essa inserção nacional. É claro que, no sertanejo, nós somos hors concours. Somos campeões. O que é muito bom. Porque a música, a cultura é variada. Eu não gosto nem do termo “música goiana” e “cinema goiano”. A gente não fala o “cinema paulista”, a “música paulista”, a “música carioca”. É muito bom ser goiano, mas a gente quer ser nacional feito em Goiás. E é claro que isso me preocupa. Eu acho que, agora, com a sistematicidade dos Fundos de Cultura, a gente começa a ter uma ferramenta nova que vá permitindo essa inserção. A consolidação da Lei Goyazes e do Fundo de Cultura, instrumentos muito importantes para fortalecer a arte que é produzida no nosso Estado.

Recentemente, houve o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Uma das questões mais levantadas é um pouco da falta de investimento do governo do Estado nas culturas tradicionais. Como que o Governo pretende trabalhar para incentivar mais essas culturas tradicionais, que são a base cultural do Estado?
Nos oito anos em que fui deputada federal, fiz emenda parlamentar para esse evento. Então, sou alguém que conhece e admira esse festival. É admirável. O Juliano (idealizador e organizador) merece todos os troféus e prêmios, porque ele realmente carrega aquilo ali. Ele é uma pessoa excepcional. Este ano não haveria festival, porque eles sempre tiveram um patrocínio muito grande da Petrobras, o que não aconteceu esse ano. Não haveria nada se a Seduce não tivesse arranjado R$ 200 mil pra eles. O que ainda permitiu ter uma versão menor, foi esse recurso que nem estava previsto. A gente fez um esforço enorme para conseguir, exatamente porque conhecemos e acreditamos. Então, é um evento que é conhecido e eles sabem que faz parte do nosso propósito, para os próximos anos, ter um apoio como temos para o Fica, para o Canto. Alto Paraíso entra, sim, na nossa agenda.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here