“O racismo brasileiro é um crime perfeito”

0
25220
Professora Janira Sodré Miranda, responsável pelo Programa de Estudos e Extensão Afro-Brasileiro (Proafro) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás

Fabíola Rodrigues

A professora de História Janira Sodré Miranda, responsável pelo Programa de Estudos e Extensão Afro-Brasileiro (Proafro) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, é uma estudiosa do preconceito racial e os impactos que ele ainda pode causar na sociedade. Para ela, o racismo é “um sistema muito sólido” que permeia as relações sociais. Para enfrentar o problema latente, ela recomenda falar sobre o assunto, especialmente no Brasil, país de forte presença de afrodescendentes. Sobre o sistema de cotas, ela afirma que é apenas uma forma de furar o bloqueio que existe contra os negros. “Não estamos querendo algo que não é nosso, apenas estamos buscando nosso direito como cidadãos”, resume. Nascida no Maranhão, estado de forte presença de negros, Janira Sodré morou em Roraima, o que de certa forma contribuiu para sua consciência. “Minha infância e juventude transcorreram principalmente em um ambiente indígena e negro”, observa.

Como se define o racismo tecnicamente?
O racismo é visto como um sistema de hierarquização de pessoas e grupos, baseados em marcadores físicos. Um sistema que organiza o lugar onde as pessoas estão de acordo com sua classe etnicorracial. Por isso há estranhamento em estudantes ao ver professor negro na universidade, porque ele é esperado na construção civil, na limpeza pública, na agricultura de serviços pesados e não na atividade intelectual.

Além do racismo direto entre pessoas há também o racismo institucional?
Nós todos somos socializados em uma sociedade racista. As crianças estão vendo na novela que os negros têm uma representação, que nos programas jornalísticos os negros têm uma representação. O Brasil tem 51,1% de negros, mas quando verificamos no Ministério Público, entre 52 membros, existe uma promotora negra, uma só. E ninguém estranha. Em um estado onde 48% da população é negra e entre todos os promotores só tem uma negra… Não existe uma coisa dessa! Isso não chega para um brasileiro como racismo, e é racismo institucional. A representação da comunidade negra não chega nesse lugar de poder.

O racismo está entranhado nas estruturais sociais?
O racismo como sistema organiza os lugares sociais. Por um lado educa as mentalidades em uma visão de naturalizar a ausência dos negros no espaço natural. O racismo brasileiro é um crime perfeito, porque ele coloca os negros em situação de desvantagem e subalternização. O brasileiro é educado para acreditar que vivemos em um paraíso perfeito entre povos e culturas e o brasileiro não percebe o racismo posto nas relações sociais, explícito.

A exclusão ocorre também na escola?
As crianças, adolescentes e jovens negras do Brasil em maioria não cumpre o percurso escolar completo. No primeiro ano do ensino fundamental temos um número de crianças frequentando a escola e já no terceiro ano do ensino médio esse número é muito baixo, bem inferior ao esperado, comparado às crianças não negras. Só esse dado pode reproduzir um ciclo de pobreza social, a baixa escolarização. Isso acontece porque passa pelas relações interpessoais, a discriminação pelos colegas começa cedo e muitos não querem nem voltar para a escola.


“As vagas das universidades públicas são para todos; não só para ricos”

A escola contribui para o racismo?
O racismo passa pela cultura escolar do saber. Se pegarmos a história dos negros num livro didático veremos que qualquer criança inteligente vai dizer para os coleguinhas: vamos todos juntos fugir para as montanhas e levar comida para muito tempo. Porque nossa realidade ainda hoje inclusive é essa e estamos tentando mudar: o conteúdo do saber escolar não dá tratamento adequado à riqueza civilizacional do berço africano e dos seus descendentes ao redor do mundo. Ao contrário, transmite a ideia de um povo empobrecido, faminto, em guerra e que nada tem para oferecer à humanidade. Como se a contribuição africana e afrodescendente tivesse sido unicamente o trabalho escravo.

Os livros didáticos ainda reproduzem uma visão racista?
O Brasil é a segunda maior nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, e foi construído com o trabalho do negro. No livro de história o último capítulo que fala sobre a presença negra no Brasil é ilustrado com a figura de um negro sendo torturado em cima de um pau-de-arara. Agora você sendo uma criança negra recebendo todo um legado da história antiga da Grécia, de Roma, da Idade Média… recebe isso em referência ao povo negro. Ou seja, o descompasso é muito grande, o impacto na psique, a autoestima vai lá para baixo. Não ter vergonha de onde veio é muito importante.

O sistema de cotas para negros é justo?
Antes, temos que pensar sobre o acesso ao ensino superior. O Brasil infelizmente não tem a educação universalizada. As oportunidades já são pequenas, não tem 50% dos jovens nas universidades ainda, temos déficit de vagas, são oportunidades que são negadas para a juventude. Independentemente da cor, então a luta pela educação superior é de todos os grupos sociais. O que deu origem às cotas foram as pesquisas realizadas, pois 97% dos estudantes universitários eram brancos e somente 3% negros. Então o movimento negro junto com outros atores sociais provocou fazer um censo do perfil dos universitários brasileiro e observou que o espaço universitário não estava comportando todas as classes sociais. Não é que o negro precise de uma entrada separada na universidade. O que a comunidade negra precisa é furar o bloqueio dos mecanismos institucionais que deixa ela de fora dos espaços de acessos aos canais que vai dar possibilidade de futuro que ainda existe. As vagas das universidades federais são para todos; não somente para quem nasceu rico e pode estudar nos melhores colégios e pleitear uma vaga. O Brasil é país de metade negra, não podemos deixar para trás nossas origens. Nós da comunidade negra, acreditamos muito na educação como fator de constituição social. Nós negros sambemos que educação adiciona muito para nós, em todos os sentidos. Queremos pleitear vagas, sim. Vamos mostrar onde o país está errando para dar oportunidade à nossa raça brasileira. Queremos ampliar as oportunidades para todos, sem exceção.

É importante falar sobre racismo?
Tenho uma metáfora de comparar o racismo como um lixo. O que acontece com o lixo que a gente joga embaixo do tapete? Ele não vai desaparecer. Quando não se fala do racismo você não se dá conta dele, não percebe a necessidade de mudança, a coisa continua crescendo estratosfericamente em termos de desigualdades. Se ninguém disser que as instituições são racistas porque não há representatividade das outras comunidades historicamente discriminadas nelas, todas as pessoas vão acreditar que o racismo continua sendo algo natural e assim continua. O diálogo e fundamental não apenas para a comunidade negra, mas para que cada um de nós pense no lugar social que ocupa. A qualidade de vida de um negro é tão afetada que ele morre antes, chega ser até dez anos antes com relação à expectativa de vida de um brasileiro branco.

O que busca a comunidade negra organizada?
Nossa primeira luta é diminuir desigualdade e melhorar qualidade de vida dos setores que foram historicamente afetados pelo racismo. Muitos pensam que os negros vieram da escravidão. Não. Teve gente que chegou ao Brasil pior que nós e já estávamos aqui. Os imigrantes que chegaram da Europa eram piores que nós. Tinham fome, guerra, piolho, sujeira. Eram muito mais sofridos que nós e lhes foram dadas oportunidades, como terra e educação e aos negros isso foi negado. Percebemos que eles tiveram oportunidade e se o que foi feito com eles também tivesse sido feito com a comunidade negra, talvez a história do Brasil fosse outra. Nós podemos até ter uma história dura sobre a escravidão, mas não devemos ter vergonha disso, se tem alguém que deve ter vergonha da escravidão é quem escravizou e seus descendentes e não nós. E devemos falar sobre racismo, sim, para sanar essa desigualdade desleal.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here