“A escola militar forma para a vida”

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Coronel Ubiratan Reges de Jesus Júnior, diretor do Colégio da PM Hugo de Carvalho Ramos: escola deve ter uma participação abrangente na vida do aluno, a escola precisa transmitir valores

Fabíola Rodrigues

A militarização das escolas estaduais, que avançou consideravelmente em Goiás nos últimos anos, está longe de ser unanimidade. Em defesa dessa relação do poder público com o estudante, o comandante e diretor do Colégio da PM Hugo de Carvalho Ramos, Coronel Ubiratan Reges de Jesus Júnior, afirma que o processo educacional em uma escola militar é como o de qualquer outra, com algumas particularidades. “Visamos um ensino de qualidade, preparando o aluno para o exercício consciente do civismo e da cidadania, tornando-o cumpridor de seus deveres, amparado pelos seus direitos”. Criticada por ser muito severa e por usar métodos punitivos, a escola militar, segundo o coronel Ubiratan, tem como objetivo formar pessoas melhores. “Os alunos que passam pela escola militar sempre agradecem por terem sido formados para a vida e não somente para serem aprovados em um vestibular”.

Como o Sr. definiria o método de ensino na escola militar?
Buscamos a formação da pessoa. O colégio militar Hugo de Carvalho Ramos tem suas particularidades, mas priorizamos no processo educacional a transmissão de pequenos valores, como respeito, amor, ajuda ao próximo, valores que estão sendo esquecidos no tempo. Buscamos sempre mostrar que, não importa o que eles venham a ser, o mais importante é que sejam pessoas que pratiquem o bem, que seja um profissional honesto e digno. Então o Colégio da Polícia Militar Hugo de Carvalho busca uma educação voltada para a pessoa. A escola precisa marcar o aluno, não tão-somente levar o aluno para a faculdade através da matriz curricular, esquecendo-se muitas vezes da formação plena do aluno. Isso não é bom, porque a criança e o jovem estão em formação também sobre os conceitos da vida. Eu acho que a escola precisa contribuir na formação da educação do jovem como um todo, não apenas na parte pedagógica.

De que forma isso se dá?
Eu sempre digo que o ingresso do aluno na faculdade é uma consequência. Se por exemplo quando um aluno vai para a escola e, na base, começa a se trabalhar valores fundamentais como respeito, família, a participação da família do aluno e toda a comunidade escolar no processo educacional, não tenha dúvida que as demais coisas vão ser acrescentadas na vida dele naturalmente. E um dos fatores positivos é o ingresso na faculdade, depois no mercado de trabalho, na vida familiar. Então posso dizer que com tudo isso o aluno vai ser um cidadão pleno. Posso dizer que a escola teve uma participação abrangente na vida do aluno, a escola precisa transmitir valores.

A agressão física a professores é consequência de uma educação incompleta?
Hoje temos visto casos de alunos que estão partindo para agressão física aos professores, e por que ele faz isso? Porque às vezes lá na criação dele com a família não deram limites para a criança ou jovem e ele adquiriu um comportamento agressivo e sem limitação e isso vai estourar lá no professor. Aí a escola precisa entrar em ação, ela precisa ter regras e normas. O professor tem que ser professor. No colégio militar temos algumas particularidades, regras de como os alunos, em conjunto, devem cumprimentar o professor para ele começar a ministrar a aula. O que temos visto em muitos casos é que o professor é agredido e quando o aluno vai ser julgado geralmente ele não é penalizado. Então está acontecendo uma inversão de valores. Está faltando respeito. Os professores estão sendo desvalorizados. Por isso, têm muitos professores que estão buscando ajuda com psiquiatra devido a essa situação.


“Nossa escola não é quartel, temos qualidade
de ensino”

Como o Sr. recebe as críticas aos métodos usados nas escolas militares?
Expressar o que se pensa é um direito constitucional, cada um é livre. Agora falar com propriedade, com pesquisas, é diferente. Se a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás questiona alguns pontos referentes à militarização das escolas, eu também tenho alguns, porque o que eu entendo é que a educação precisa ser melhorada em um esforço conjunto. Se as críticas trazem benefícios, não vejo mal algum. Eu trabalho com os alunos e os pais. Podemos fazer pesquisas com os pais dos alunos para saber o que eles acham da forma de ensino da escola militar. O que não pode é criticar sem conhecer.

As críticas recaem principalmente sobre o excesso de regras a que o aluno está submetido.
Nós somos uma escola que tem liberdade, porém uma liberdade assistida. Aceitar baderna e violência, isso não vamos aceitar. Não podemos confundir ensino militar com gestão militar; nós gerenciamos o ensino; e os resultados estão aí: primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento na Educação Básica (Ideb) como escola pública, primeiro lugar nas olimpíadas do estado, primeiro lugar no esporte e, o principal, formação plena do indivíduo, do ser humano. Temos cumprido o papel como educadores e como escola, o papel de somar na vida da pessoa. Nossa escola não é um quartel, não educamos com a pistola na cabeça do aluno ou com uma farda, educamos com a qualidade do ensino, isso, sim, nós exigimos.

O direito à greve não existe na escola militar?
Sobre a greve, ela é constitucional, mas os professores entendem que, se houver uma paralisação, será mais prejudicial. Nós não interferimos na decisão dos professores entrar ou não de greve.
Por que exigir o uso da farda e outros detalhes?
O uso da farda, cabelos cortados e outras exigências são particularidades da escola militar. Não que isso vai influenciar positiva ou negativamente o ensino do aluno, assim como outras escola adotam o seu tipo de uniforme, como uma camiseta, ou o uniforme completo. Usar a farda é uma questão de tradição das escolas militares. Uma das intenções da exigência do uniforme é padronizar a igualdade entre todos. Por exemplo, não vai ter assim um tênis de marca, uma calça cara demais e outro aluno que não tem condição de comprar. O aluno aqui é tratado com igualdade, não existe desfile de moda, o uniforme iguala eles. Queremos ensinar o aluno que os maiores valores são o que ele é ou pode vir a ser e não o que ele tem. De todo modo, nosso maior desafio não são as regras a serem seguidas por uma escola, ou o estilo do uniforme, nosso maior prolema hoje é a qualidade da educação no nosso país. Algumas pessoas se posicionam contra a escola militar, mas podemos fazer uma pesquisa com os pais de alunos, vamos saber o que eles acham.


“Não compactuamos com baderna; isso não aceitamos”

A militarização das escolas é importante para os alunos?
Há às vezes uma interpretação errada de quem não conhece a escola militar e pensa que o colégio é uma ditadura, é militarização do ensino. Quem sou eu para militarizar o ensino? Quem sou eu para mudar a história que está nos livros? Nós não compactuamos é com baderna; isso não vamos aceitar jamais. Então quando se fala que estão militarizando as escolas, criando regime militar, é porque não conhece os métodos de ensino da escola militar Hugo de Carvalho Ramos. E digo mais, o percentual de escolas militares no país hoje é insignificante, é um número próximo de meio por cento. Se formos fazer um levantamento de quem está na universidade federal em altos cursos, como medicina, é a classe elitizada, e o colégio da Polícia Militar é um colégio público que tem levado pessoas pobres a estar inseridas nestes cursos.

A escola militar não significa a militarização da educação?
Uma coisa eu não entendo, não sei se é por questões de ciúme, vaidades ou interesses de alguém falar que o colégio militar é prejudicial. Não é! Não é uma filosofia obrigatória, estuda aqui aquele que quer, assim como tem as escolas católicas, evangélicas, espíritas, tem os institutos federais, tem a escola militar. A função primordial da Polícia Militar é preservar a ordem pública, mas isso não impede de contribuirmos com a educação do nosso país, e é isso que a PM está fazendo: somente contribuindo com a educação.

Diretor defende o uso da farda: “É uma questão de tradição”, resume
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