A Minha, nossa Nise da Silveira

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Jorge de Lima

Lembrei de sua imagem pequenina, franzina na primeira vez que a vi. Eu era ra um jovem acadêmico de psicologia, músico em minhas viagens pelo Rio de Janeiro. Eu moleque ela uma senhora já com seus 85 anos. Primeiro no grupo de estudos em seu apartamento, depois no hospital psiquiátrico. Como traduzir o que pude aprender com o pessoal do Museu de Imagens do inconsciente ou da Casa das Palmeiras? Instantes fazem celebrar uma vida inteira…
Lembro de uma pequena história quando no corredor do hospital encontramos com uma paciente que chorava compulsivamente, muito agoniada. Nise foi rapidamente em sua direção, a abraçou em um gesto maternal, e com a ponta dos dedos a acalmou em um longo abraço dizendo: “calma minha filha, vai passar, estamos aqui pra te ajudar, tudo isto vai passar”… Um abraço que durou vários minutos. Se Nise da Silveira era dura com seus estagiários, colegas, alunos, exigindo o máximo de cada umà sua volta, com os pacientes era puro acolhimento, suavidade, serenidade e atenção. Nise da Silveira psiquiatra foi a responsável pela humanização na saúde mental no Brasil criando um divisor de águas.
Nesta divisão dois lados distintos o dos “profissionais” que não se envolvem, frios, com “cara de nada”, que jamais se emocionam,  distantes, que tratam seus pacientes como objetos ou como patologias ambulantes. Infelizmente tais tipos fazem receitas instantâneas, antes de ouvir um relato, antes da certeza de um diagnóstico seguro. Estes representam as clínicas e hospitais descredenciados e falidos, as instituições problema que não conseguem prestar um serviço de qualidade para seus usuários com resultados claros e objetivos.
O modelo de humanização na área de saúde criado pelo psiquiatra suíço C. G. Jung e adotado no Brasil pela Nise da Silveira representa o outro lado. O de propor além das técnicas convencionais da medicação às técnicas expressivas para o tratamento trazendo a arte para os hospitais e clinicas. Modelo que mostrou ter resultados surpreendentes melhorando a identidade, a afetividade, reinserindo os pacientes à vida social, melhorando sua imunidade. Os pacientes de Nise tinham história, criatividade, identidade, cidadania, respeito e amor, muito amor. Pobre do mortal ou desavisado que maltratasse um paciente perto de Nise… ele iria conhecer uma onça! Nise como ninguém defendeu os direitos humanos dos pacientes psiquiátricos, atenta a fragilidade deste grupo social em constante risco. E tratou de forma humanizada milhares de pessoas oferecendo melhora, evidenciando resultados práticos e objetivos.
Os pacientes a amavam, e a defendiam e por isto ela é este mito que hoje ressurge nos cinemas com o filme “Nise – O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, com Glória Pires, Simone Mazzer, Julio Adrião e grande elenco. Aos interessados vale também conferir o documentário “Olhar de Nise”, de Jorge Oliveira e Pedro Zoca de 2014. Obrigado Dra. Nise da Silveira por reinserir na saúde brasileira a afetividade, o respeito aos pacientes, a dignidade humana!

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista e psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG

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