Marxismo e macumba

0
1162

 Jorge de Lima

Dias atrás encontrei um amigo professor da Universidade Federal outrora Marxista ligado ao materialismo dialético. Uma figura divertida outrora caricato que andava de boina, sandália franciscana, barba comprida, capanga, e afins um pouco diferente por causa dos banhos diários e do perfume francês. Este amigo veio me comunicar que estava frequentando um terreiro de Umbanda, que havia enfim aceito que existe uma espiritualidade. Questionei o fato e ele me disse que foi por causa da esposa que havia adoecido, e cansado de ir aos médicos resolveu dar uma chance para o lado de lá…
Um marxista macumbeiro?!!! Bem só na universidade que frequentei conheci uns 30. De dia sociologia, filiação partidária intensa, discussões sobre o poder do capital, mas a noite… na sexta feira, o sincretismo come solto e a busca pelo sagrado, ou a captação do espiritual tomam conta. A natureza do instinto religioso assume o poder e se faz presente em quem em discurso dizia não acreditar em nada.
Seja por uma patologia, pelo sofrimento, superstição, pela descrença no mundo, chifre, ou necessidade de acreditar em algo o outrora materialista, ateísta ou ateu acaba, nas horas de folga, na surdina, entregando se ao imaginário e ajoelhando. Inicialmente procurando as formas concretas da religiosidade, seja pelo dízimo, ou pelos rituais corporais, pelas crenças de sacrifício, um caminho inicial para quem não acredita em nada que pode no futuro servir a processos da religião mais subjetivos e menos concretos.
Trabalhei vários anos em hospitais e há duas décadas na clínica. E nesta prática profissional como analista e psicólogo clínico aprendi que o sofrimento é o melhor amigo de Deus. Pelo amor ou pela dor um dia você acaba buscando algo a mais. Na hora do sofrimento todo mundo aprende a rezar. E isto independe do dogma, da igreja constituída, ou do partido. A divisão entre o materialismo e a militância é engraçada, patética e estruturalmente apenas ilusória. Na teia da vida jamais a espiritualidade deixou de existir, independe de crença, raça, idade, partido político, militância. A fé hoje faz parte dos estudos científicos da medicina, física, psicologia e de boa parte das ciências que buscam a compreensão deste fenômeno humano que Jung postulou em sua teoria sobre o Instinto religioso.

Meu amigo professor universitário é apenas mais um dos milhares em sua busca de crescimento e evolução. Pediu pra não contar pra ninguém que tem feito isto e em sua homenagem escrevi este artigo que mandei para ele  antes de o publicar. Não há pelo que ter vergonha ou medo, pois a busca é de todos direta ou indiretamente. Este é o inconsciente se manifestando, seu imaginário gritando, a força da existência fazendo se presente.

P.S.- Meu amigo riu muito do artigo!

Jorge Antônio de Lima é  analista e psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here