Torre de babel

0
1282

Jorge de Lima

Os preceitos da inflação de ego e o fundamentalismo em nossa atualidade. Sistematicamente tenho recebido convites para falar em palestras e eventos sobre a constituição e necessidade do respeito a diversidade. Para tal empreita resgato o mitologema Hebreu e Sumério da Torre de Babel, um ponto esquecido por vários religiosos.
O símbolo da Torre por si já mereceria por nós um vasto tratado que acompanha toda a história da humanidade desde a antiguidade. Das pirâmides no Egito à toda construção gótica das catedrais na idade média, templos e palácios deveriam representar e espelhar a grandiosidade divina, estar ao alto por toda a parte, “tocar os pés de Deus”. Feitos da arquitetura e da engenharia reencenariam miticamente o totem, a montanha, a morada divina. O frenesi e a necessidade humana de chegar além, ao alto, a iluminar, para buscar sua individualização. Força do instinto religioso por muito apresentada na obra de C. G. Jung.
Todavia o mitologema da Torre de Babel descrito por Sumérios e Hebreus contém um ponto chave em sua cosmogonia. A inflação de ego, o dividir, separar, confundir, reencenar as disputas, comuns a existência Hebraica, transplantadas a nossa vivência Judaico-Cristã. A Torre de Babel representaria o feito divino humano de reproduzir os feitos maravilhosos, “não sabeis que sois deuses”, e a capacidade de desafio ao alto, a força da gravidade, o ir além, às vezes de sua própria capacidade… O Eu que era único foi transformado em milhares de versões, povos, idiomas… partes de um todo que se confunde.
Hoje em plena pós modernidade vivenciamos uma ampla bestialidade de teor fundamentalista. Propina e orações fazem parte do cenário político, templo virou dinheiro e vale tudo para o enriquecimento ilícito. Em todos os cenários da sociedade podemos observar ânimos exaltados, raiva, ausência de raciocínio crítico e lógico, seres humanos ladrando, evidenciando ausência total de consciência de seu papel no mundo, de paz, humildade, serenidade, cordialidade, educação, acolhimento e tolerância. O egoísmo toma conta do cenário na religião, política, vida social, na crise ecológica, nas políticas de estado. A persona consegue vislumbrar o alto mas despenca, enrijecida pela força instintiva da raiva, bélica distorce fatos e a realidade , reencena o fundamentalismo à semelhança do fascismo, nazismo e as línguas confundem-se no beijo da morte, como no ato de duas serpentes a copular… muita vaidade, ilusão, raiva, orgulho e onipotência. Muitos latidos e ninguém se entende.
A Torre de Babel é o elemento mítico de nossa atualidade na qual perdemos a capacidade de compreensão e de interesse pela diversidade, a noção de que somos um todo, da mesma espécie. A divisão clara por interesses de constituição de discursos que colocam e ressaltam as diferenças, extraindo deste outro seu status de pessoa, sua dignidade, cidadania. A queda é inevitável prepare- se…

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista e psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here