Transtorno de pânico e a sensibilidade

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Jorge de Lima

Pára tudo, tenta respirar e não consegue. Palpitações, o coração vem à boca cavalgando, o suor escorre qual um rio caudaloso. Na terra firme, as pernas bambeiam agitadas como em um terremoto. Delas a vertigem. O universo sacode. A dor no peito… Tudo roda e daí a náusea, reza pro intestino não soltar…  A tontura faz sentir como se fosse um expectador da própria vida, um fora de si preso ao corpo. Sobra o medo de perder o controle, ante tanta coisa involuntária. Da mente ao nó físico, a eternidade, tudo dura menos que minutos, mas é o suficiente para abalar a vida. E se morrer?  Loucura? Por que nem a mente, nem o corpo obedecem? Frio e calor se misturam. Na garganta o grito não sai…
“O grito de Pã” retorna da mítica à alma humana. Ligado ao cortejo do deus Dionísio, em seu ritual iniciático das bacantes. Pânico era a vivência sobreposta ao grito de Pã, capaz de estremecer de medo o universo. Mas na mítica, ele não era o único que retratava estados de medo, exemplo é a paralisia dos filhos de Ares o deus da guerra, Fobos e Deimos. Como estes, a Medusa o ser alado que com o seu olhar petrificava, com víboras nos cabelos. Tantas histórias fantásticas de medo. Pelas bandas de cá mula sem cabeça, saci, pai do mato,… chupa cabras e mensalões.
Os estados psicológicos do medo, da fobia e do pânico têm a mesma origem. Mudam apenas nuances e sua intensidade. Tal questão tem por base uma estrutura instintiva extremamente poderosa que, se aliada a um complexo, é patológica. Daí vem a crise irracional com a perda do controle.
Não é raro percebermos a doença apenas como um sintoma ignorando toda uma psicodinâmica. Poucos percebem que tanto as fobias, quanto o transtorno de pânico, denotam uma cognição elevada, mal trabalhada na qual o indivíduo inconscientemente volta-se contra si próprio. Esta sensibilidade o torna um ser altamente perceptivo e, com alto grau de só matização, em todos os sentidos. Assim, o potencial inato de um paciente é ignorado pela maior parte dos profissionais que o assistem. Tal sensibilidade não é trabalhada nem integrada, ao contrário a tendência dos tratamentos superficiais mecânicos ignora tal psicodinâmica o que leva a migração dos sintomas a outras patologias.
Quando não tratado este medo crônico, tende a migrar a outros processos patológicos como a hipocondria, depressão, mania, obsessão. O trabalho além de envolver a medicação, deve reestruturar a personalidade do paciente por meio de uma psicoterapia profunda. Isto para que tal estrutura de medo possa ser trabalhada no inconsciente do paciente. Técnicas de relaxamento e meditação são complementares fazendo da mesma forma um processo de auto controle. Todavia são patologias que encontram a cura nos tratamentos adequados.
Em geral, esta estrutura de personalidade envolve a insegurança, advinda tanto da criação, quanto por fatores traumáticos passados. O sintoma direto desta estrutura de personalidade é o estresse, a persecutoriedade, a necessidade de querer controlar tudo, a rigidez, o cansaço constante, o esgotamento físico, a tensão frequente. Tudo mesclando à alta percepção, com o medo em especial de passar mal ou de passar por uma adversidade. O pano de fundo sempre presente associa-se ao medo em especial de tudo que lhes fuja ao controle. A rigidez para a vida então ganha intensidade. Isto gera um desgaste psíquico intenso responsável pela maior parte das crises, virando um ciclo vicioso. Solução existe e os tratamentos levam cerca de um ano.

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista e psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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