Caixote

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Jorge de Lima

Lembro de um dia quando era menino lá pelos meus 10 anos. Estava na praia no litoral de São Paulo brincando com amigos. O mar revolto com a maré a subir. Depois do jogo de bola sentamos contemplando o mar e sua fúria. Quando três moças que beiravam seus 17 anos passaram por nós indo rumo ao mar. O Rui, o mais velho da turma com seus 14 anos, um caiçara esperto preocupado olha as mulheres e avisa: “Cuidado  não entrem no mar a onda é caixote”. Duas paralisam diante do aviso,  mas uma a mais topetuda vira se para nós com ar de sarcasmo, ri ironicamente, empina o nariz no mais profundo desprezo, vira o rosto rumo ao mar, levanta a bunda, nos dá as costas e segue a passos largos para o oceano enfurecido. The fool on the hill!
Qual a placa de aviso de curva perigosa na estrada, qual as nuvens que anunciam a tempestade… sempre me questionei por que várias pessoas desafiam o bom senso, as forças da natureza, os avisos que chegam por várias fontes. Orgulho, vaidade, tolice ou pura imbecilidade? De que é feito este ser humano que despreza, que empina seu nariz, que troça dos que por educação e caridade lhe prestam o auxilio?
Lembro claramente da jovem moça que nada tinha de exuberante, uma moça comum de nariz empinado, do feio biquíni fora de moda, mas que sabia manter seu olhar de desprezo diante da vida. Ela entrou no mar ficando com água até seus joelhos. Lembro da onda que crescia por traz dela, e de ver seus braços estendidos chamando suas amigas que na segurança da areia ficaram: “larguem de ser idiotas entrem”… foi sua última frase antes de ser pega pelo turbilhão nas ondas, antes da rasteira certeira do mar, antes de ser arrastada por mais de cinco metros, de ser rolada pela areia. Lembro da cena de a ver sem a parte de cima de seu biquíni, pobres peitos, era uma jovem mulher à milanesa, rolada de areia. Certo que no mínimo foram quatro dias para curar o ardido do esfregão na praia, e pelo menos dois dias para retirar toda areia do juízo, nariz empinado e esfolado. Um remédio amargo para uma mulher teimosa e topetuda? será que ela aprendeu?
Ainda lembro de Rui correndo pegando a parte de cima do biquíni da moça e lhe entregando, dela chorando em prantos,  e dos cabelos dela misturando o molhado com pelo menos dois quilos  de algas e areia. Jamais esqueci de seu ar de desprezo, do nariz empinado e da lição do que vira a vida com orgulho. Quantas marteladas no dedo são necessárias até que se aprenda? Quantos foras? Quanta teimosia? Quantas desilusões? Quantos amigos é necessário perder para aprender? Quanto tempo perdido no ego inflacionado? Quantas dívidas, quantas falências? Quantas portas fechadas na própria mão?  Quantos calotes tem a vida ?
Nunca mais vi a tal mulher mas seu nariz pomposo e sua imagem rolando pela areia nas ondas jamais esqueci. Ela me suscita a inquietação e a eterna pergunta: por que o orgulho não nos permite ouvir os avisos? De que é feito este ser que na ilusão não se apercebe do que lhe espera? Como lidar com este orgulho? De que é feito este ser que alucina, que se acha intocável?

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista e psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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