Goiás avança e diversifica cadeia produtiva

0
1870
Arthur Alves de Toledo, presidente da Agrodefesa

Manoel Messias e Marcione Barreira

Presidente da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), Arthur Alves de Toledo afirma, em entrevista exclusiva à Tribuna do Planalto, que Goiás está entre os primeiros estados em segurança alimentar no Brasil. Além disso, mantém o controle sanitário do rebanho bovino, estando há 20 anos sem o último foco de febre aftosa e há 15 anos com o título de reconhecimento de área livre de aftosa. Segundo ele, Goiás diversificou bastante a sua cadeia produtiva ao ponto de liderar ou estar entre os primeiros na produção de soja, carne bovina, tomate industrial, tomate de mesa, alho, ervilha, palmito, cana, etanol, algodão e melancia, milho, leite, açúcar, carne suína e de frango.  Arthur Alves fala ainda do Cartão Rural, que facilita o dia a dia do produtor rural.


A questão da segurança alimentar ou qualidade alimentar. Quem consome produtos de origem animal está seguro?

Olha, nós podemos dizer que estamos muito bem em função de vários indicadores. Nós estamos entre os estados do País com menor índice clandestino e isso é fundamental. Nós temos grandes números e eles dizem para nós o seguinte: nós estamos 20 anos sem o último foco de febre aftosa, 15 anos com o título de reconhecimento de área livre de aftosa. Isso são títulos que são dados, mas não dá garantia de continuidade. Se nós baixarmos a guarda e houver entrada daqui a pouco nós vamos ter que começar do zero. Segurança alimentar vai muito além da qualidade do alimento, passa por produzir em quantidade suficiente para abastecer os consumidores, passa por produzir a diversidade de alimentos que nós precisamos para nutrição, passa pela qualidade dos alimentos, por manter a sazonalidade. E outro indicador é o alimento barato e acessível para a população.

A gente nota uma diferença drástica de preço entre a carne frango e a carne bovina. A cadeia de carne bovina está monopolizada no Brasil?
É interessante porque apesar de nós não controlarmos a questão econômica, mas pelo menos o abate nós sabemos. Quando a carne bovina aumenta, a carne de frango aumenta na mesma proporção. Isso nós identificamos. Inclusive nós criamos a área de inteligência sanitária. Porque para fazer defesa agropecuária não basta você ser especialista em doença, manter sanidade de rebanho em lavoura. A questão do monopólio ela é estritamente comercial. O importante é que numa economia de livre mercado o contribuinte é o grande eo  que tem o poder desse processo. Ele vai escolher entre o preço com qualidade e compatível com sua economia.
O poder público tem um poder regulador, que é um ponto fundamental também neste aspecto porque muitas vezes há situações de cartéis né?
É. Nós temos o CADE no País que faz o controle disso para evitar os grandes cartéis. Mas não tem jeito desse pessoal assumir toda essa demanda. É bacana quando você vê esse movimento. Na Europa, por exemplo, quando o suco de laranja está caro eles tomam suco de maçã.

Quando se tem um mercado fornecedor compatível com o consumidor essa resposta me parece mais rápida. Agora, quando você utiliza produtos de uma grande empresa que é regulada pelo mercado internacional, muitas vezes essa empresa trabalha com parâmetros tão globalizados e ai o consumidor global fica….
Verdade. Eu falei da JBS que está em todo o mundo, mas tem outras aqui em Goiás. Quando eu estava na secretaria da Agricultura nós tivemos orientações importantíssimas. Uma delas é que nós estávamos preenchendo os vazios das cadeias produtivas. Nós não tínhamos em Goiás frigoríficos suficientes para abater aquele número de cabeças e ai  nós saímos em busca de investidores e nós conseguimos preencher esses vazios. Nos temos hoje 23 plantas que trabalham com serviço de inspeção federal, 58 plantas com serviço de inspeção estadual. Isso é importante dizer porque mesmo que aja alguma concentração, nós abatemos mais de R$ 4 milhões de cabeça de bovinos por ano em Goiás aproximadamente. Nós geramos 950 mil toneladas de carne.

Tem um número de empregos que essa cadeia gera?
Muita coisa. No Brasil esse setor representa 22% do nosso PIB. Empregos de 32% a 37%, sendo que agropecuária no Brasil é em torno de 5% do PIB, o que sai da fazenda. O que vira agronegócio são 22%. Ou seja, multiplicamos basicamente por três ou quatro. Em Goiás, a estimativa é que os produtores comercializarão R$ 34 bilhões. Sendo R$ 19,5 bilhões de produtos vegetais e R$ 14,5 bilhões de produtos pecuários.

O senhor falou num aspecto importante que é a questão da diversificação. Goiás está conseguindo se livrar daquele estigma de ser um grande fornecedor de monocultura?
Com certeza. Eu vou falar um dato importante para vocês. Goiás hoje é o maior produtor de soro, tomate industrial, tomate de mesa, alho e confinamento. Olha a diversidade. Isso é uma riqueza. As vezes a gente fala de soja, carne bovina e nós estamos liderando em outros seguimentos também. Nós estamos não só no primeiro lugar, mas muito longe do segundo. Entretanto, em frutas nós não alcançamos ainda o mínimo que Goiás pode alcançar. Hoje essa parte de hortifruti movimenta em torno de R$ 2 bilhões. Nós abastecemos cerca de seis estados e ainda não temos a importância econômica que tem uma cadeia de soja e tal. Olha, um dado interessante, nós somos o segundo maior em ervilha, palmito, cana e etanol. O terceiro em carne bovina, algodão e melancia. Quarto em soja, milho e leite e quinto em açúcar e sexto em carne suína e de frango. O Estado diversificou muito.
Com relação ao momento econômico nacional. A pasta se preparou para este momento, tem sofrido impactos, vocês trabalharam com alguma estratégia diferente para enfrentar este momento?
Um boa pergunta. Nós tivemos muita sorte de ter um governador que tomou medidas no tempo certo. Isso trouxe para nós novos desafios. A orientação do governador Marconi Perillo é como manter o nível da administração pública com menos, fazendo o mesmo ou mais. Fomos buscar convênios e fomos buscar parcerias. As nossas arrecadações ainda não caíram, mas as despesas subiram. Qual é a ideia? Nós precisamos manter as atividades mesmo que o mercado esteja diminuído. Então nós estamos mantendo e buscando fora do Estado as parcerias suficientes para manter o número de atividades. Os desafios são grandes, nós tivemos cortes de 50% em cargos comissionados assim como todas as outras pastas. O que nós fizemos imediatamente? Ampliamos o número de servidores a disposição das prefeituras com parceria com as prefeituras. Não é o tesouro que está pagando.

Essa crise que o país está passando que tem origem política, ela, para o campo; para a produção agropecuária, não é sentida de imediato?
Verdade. É algo diferente. No agronegócio a conta nem sempre fecha no caso dos produtores. Há um processo organizado pelos outros elos da cadeia. Mas o que é importante é o que nós mantemos de equilíbrio neste setor e o quanto nós representamos, por exemplo, na balança comercial. Vocês imaginam que nós tivemos no ano passado um saldo negativo de R$ 3,5 bilhões, mas o agronegócio trouxe saldo positivo de R$ 89 bilhões. Ou seja, o que está segurando a balança brasileira é esse ramo.

Neste sentido, o senhor falou de encontro com ex-ministro, em viagem com o vice-governador e secretario José Eliton ao exterior. Como é que o Estado de Goiás é visto lá fora?
A percepção do Brasil é uma percepção muito macro. Nós ainda representamos muito pouco no mercado internacional. O Brasil responde por 1% e alguma coisa da circulação de mercadoria do mundo. Eles não enxergam Goiás como sociedade. O que é que nós precisamos fazer? Conversar mais com essas pessoas. Levar Goiás para o exterior. Ha uma demanda muito grande e nós precisamos fazer com que essas pessoas nos conheçam.

Com relação as questões sanitárias, há um diálogo em torno disso lá fora?
Nós estamos conversando, obviamente. O quê que o presidente da Agrodefesa está fazendo lá? A grande dúvida é: como é que está a qualidade dos produtos. A gente fala: ‘olha, nós temos aqui todas as cadeias que estão sendo apresentadas num processo de equivalência sanitária exatamente igual a de vocês porque nós seguimos os protocolos e os procedimentos da organização internacional’.

Tem  alguma ameaça de estados vizinhos que precisa de maior atenção e também com relação ao trânsito de animais externos?
Olha, seis estados que circulam Goiás e Distrito Federal. No caso de aftosa todos são áreas livre já. Isso ajuda muito. Controlar trânsito de cargas vivas é um negócio complicado de fazer. Mas tem uma outra conquista que está vindo aí. Provavelmente em até julho do ano que vem com outro certificado internacional de peça suína clássica. Nós estamos conquistando isso.

Está em andamento o plano estadual de defesa agropecuária. Isso vai ser um marco regulatório ou vai depender ainda de legislação federal ou do plano nacional?
Goiás está tomando, mais uma vez, nesta perspectiva, uma ação proativa. Nós não precisamos ter um plano estadual a priori porque nós somos executores de uma política nacional e internacional. A Agrodefesa tem uma agenda a cumprir de controles oficiais. Esse é o plano da Agrodefesa. Nós cuidamos de ambientes tanto de insumos de produtos de origem animal e vegetal e de animais e plantações. Vou dar um número para vocês. Nós estamos em plena campanha da Aftosa e nós temos 99% do rebanho vacinado e nós vamos em busca do 1% que a grande maioria vacinou, mas não declarou. Esse é um número importante para dizer que em Goiás nós já temos a consciência e sabemos da importância de proteger essa economia e a vida das pessoas.

Na prática, esse plano vai ter reuniões, discussões…
Isso. Fizemos o lançamento dele no dia 16. Chamamos todas a entidades do Agronegócio e afins, estamos agora fazendo 12 encontros regionais e vamos depois voltar para as entidades e fechar uma proposta compartilhada. Nós já temos um balanço muito positivo do que nós já fizemos em oito meses como, por exemplo, o lançamento do Cartão Rural que foi um momento importantíssimo.

Fala sobre essa ideia do Cartão Rural?
O cartão veio num momento especial. O cartão nada mais é do que um documento simbólico da relação entre o estado e o produtor. Ele pega uma senha e a partir dali ele pode pagar o documento de arrecadação, ele pode emitir a sua guia da propriedade rural, do seu escritório, de onde ele quiser. O indivíduo precisava ir no escritório da Agrodefesa olhar o saldo de rebanho e a movimentação, hoje ele tira pela internet. E nós queremos trazer isso para o celular. Isso vai deixar o fiscal livre para fazer o que nós precisamos fazer que é ir a campo.

Só para fechar a questão do plano estadual. Ao final serão extraídas informações naturalmente e isso será transformado em projeto de lei ou não é necessário?
É possível que algumas ações se transformem. O plano é um pacto de compromisso e de cooperação. Nós temos o primeiro eixo que é modernização e desburocratização. O segundo é o marco regulatório. É a lei dos agrotóxicos que Goiás sai na frente com uma lei estadual. O terceiro eixo é a inteligência sanitária e área de suporte estratégico. O quarto são metas de qualidade, laboratórios e tudo. E fechamos com o fortalecimento dos programas e a sustentabilidade da defesa. O plano vai então jogar esses eixos para grandes diretrizes.

Tem alguma previsão de conclusão?
Nós queremos ver se até março.

Sempre quando o agronegócio avança de um modo geral, o pessoal do meio ambiente reclama pela questão de que muitas vezes avança em áreas de cerrado e também a questão do efeito estufa. Essa situação continua do mesmo jeito, é real mesmo, sempre vai ter uma perda do meio ambiente com o agronegócio, como está isso?
Difícil dizer porque nós temos estudos dos dois lados. Nós temos estudos, por exemplo, que são extremante contraditórios do que uma frente de pesquisadores, que também são importantes, de que a atividade humana não consegue impactar o clima do planeta, mas o clima local sim. Então, é muito contraditório, mas o que é certo é o seguinte: nós precisamos cuidar do lugar que a gente vive para viver bem e com qualidade.

A disparidade regional, quando a gente pega uma cidade do Sudoeste, Rio Verde, Jataí, onde tem um grande desenvolvimento agropecuário e vamos lá para o Nordeste, Campos Belos. Como que está?
Hoje nós reduzimos cerca de 80% de abates clandestinos, mas é ainda, das cinco maiores regiões de Goiás, a única que ainda tem um número maior do que as outras. Na região Sul, Sudoeste, Central está próximo de zero, mas ainda encontramos, é incrível como tem gente com a capacidade de vender carne para um cara que faz abate clandestino.

Há algo mais que o senhor queira dizer?
Sim. Primeiro eu queria agradecer a oportunidade. Eu fiz um pergunta quando cheguei à Agrodefesa, que é quanto vale a Agrodefesa? Eu perguntei: quanto vale o trabalho da defesa? E o pessoal me disse: ‘como assim Arthur?’ Eu falei: quando vale ser área livre de Sigatoka-negra: Eles disseram: ‘mas como assim?’ Quantos pomares eles deixaram de erradicar e quanto de exportação nós deixaríamos de fazer e quando de fungicida nós teríamos que usar se essa doença acometesse Goiás. ‘Isso é quanto vocês valem’. Então eu queria deixar essa mensagem de um realismo motivador de esperança de ter dentro de um segmento, que é a cara do goiano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here