Impeachment ainda sem apoio popular

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Especialistas observam diferenças entre o pedido de afastamento de Dilma e a cassação de Collor. A grande mídia ainda não é clara quanto ao apoio, observam

Marcione Barreira

Os analistas ouvidos pela reportagem da Tribuna do Planalto acreditam que o processo de impeachment que tramita no Congresso Nacional possui grandes diferenças do que ocorreu em 1992. Para eles, naquela ocasião em que Fernando Collor de Mello era o alvo tudo estava mais claro, tanto do ponto de vista jurídico e da opinião pública quanto do ponto de vista sobre o posicionamento da grande mídia.
O analista político Marcos Marinho, professor de Marketing  da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Goiás) e Membro da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), ressalta que neste momento não há clareza sobre a posição da mídia em termos de apoio ao processo. Para ele, esse é um dos motivos para a falta de mobilização da população nas ruas. “Em 1992 o posicionamento da mídia era mais claro. Hoje não dá para perceber ainda”, acredita Marinho.P 8 Pedro Célio Borges  Foto Arquivo
O cientista político Pedro Célio, doutor em sociologia pela Universidade Nacional de Brasília (UNB) e professor na Universidade Federal de Goiás (UFG), comparou os métodos sob o ponto de vista jurídico. Assim como Marcos Marinho, ele aponta uma distinção larga entre os dois. Maior semelhança, entretanto, está no fato da baixa popularidade de Dilma e Collor. “No plano do motivo para incriminação judicial ou legalidade na abertura do processo, contra Collor as evidências emendavam-se quase que semanalmente. Contra Dilma ainda nenhuma malversação está configurada para dar base judicial”, afirma Pedro Célio.
No que tange a possibilidade de afastamento da presidenta, há uma cautela. No entanto, os estudiosos ressaltam que quando se fala de política tudo pode acontecer e as mudanças podem sim levar a cassação do mando de Dilma Rousseff (PT). Para eles, os próximos momentos vão dar uma noção mais exata.
Marcos Marinho ressalta que a oposição é fraca e que os partidos pequenos podem vislumbrar a chance de chegar ao poder ao costurar apoio com o PT. Já o PMDB, dividido, dá mostras de que pode abandonar o governo. “Acho que tudo vai depender desses próximos dias. Tudo depende da articulação do governo internamente”, disse Marinho sobre a possibilidade de afastamento.
Já Pedro Célio observa que não vê um campo favorável para a saída da presidenta. Segundo ele, há a necessidade que haja a confluência entre a opinião pública favorável ao afastamento, jogo político e os termos jurídicos do processo. Em relação a jurisprudência do caso, ele não vê sustentação.
“O fato é que a perda de prestígio e comando da presidente deve-se à incompetência, à inépcia para governar e não por corrupção ou uso indevido de recurso público”, declara Pedro Célio. O cientista político também ratifica a opinião de Marinho e acredita que os capítulos que estão por vir devem dar maior clareza sobre o que vai acorrer.

PT
Em processos que chegaram e ser aceitos e outros em que houve apenas articulações, o PT esteve apoiando. Hoje, porém, o partido é alvo do processo de impeachment e o considera como sendo “golpe”. Essa é uma crítica que tem tomado a opinião pública e vem sendo usada com freqüência por opositores.
Diante disso, os dois cientistas políticos observam que é hábito de sempre o Partido dos Trabalhadores se passar como vítima. Marcos Marinho analisa que essa é uma estratégia do partido na tentativa de trazer para o seu lado a opinião pública. “É uma estratégia do PT. O que o partido tenta fazer é se transformar em vítima em uma tentativa de deixar uma pulga atrás da orelha”, conclui.
Pedro Célio corrobora que outros em momentos havia mais unanimidade em torno do processo de impeachment. Agora é apresentada muitas possibilidades que geram dúvidas e, por isso, o PT trata a possibilidade como “golpe”. “Naquele cenário (1992) havia praticamente a unanimidade das forças política e sociais endossando o processo de impeachment”, analisa ele.
Pedro Célio completa afirmando que agora há uma desconfiança de juristas, opinião pública e até de setores da oposição. “Hoje não é bem assim: colegiados de juristas condenam o golpismo e a mesquinhez visíveis nas motivações do impeachment. Até setores da oposição declaram-se não estar convencidos”, observa o analista.

PMDB
Com os últimos acontecimentos envolvendo o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP), o partido segue cada vez mais uma direção evidente. É o que observa Marcos Marinho. Segundo ele, o fato de Michel Temer ter enviado carta  com teor crítico para Dilma Rousseff deixa mais clara a vontade do PMDB de se afastar do governo.
Marinho observa que há uma percepção clara no que tange a ruptura das forças do PMDB. O fato que outrora envolvia Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Dilma, agora ganha outra silhueta. “Depois da carta eu acho que ficou claro que o PMDB resolveu sair da sombra. Evidencia um racha entre as forças que antes era entre dois, agora se amplia”, aponta.
Neste momento o processo está parado e aguarda a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a Comissão que vai avaliar o processo. A chapa foi eleita no último dia 8. O PC do B, partido governista, observou ilegalidade na eleição que elegeu membros pró-impeachment e protocolou ação no STF para invalidar o pleito. O ministro Luiz Edson Fachin acatou o pedido e suspendeu o processo até que haja julgamento dos magistrados marcado para a próxima quarta-feira, dia 16.
Para Pedro Célio ainda há incógnita sobre o que vai acontecer. Segundo ele, manifestações podem fazer com que o processo seja alterado a depender do jogo político. “Em princípio, a Câmara dos Deputados é sempre mais sensível às pressões das ruas do que o Senado. Imagino que as manifestações de rua devem penetrar com rapidez nas próximas definições da conjuntura”, disse Célio.

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