Militância Melancólica

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1906

Jorge de Lima

Neste tempo de fanáticos e fanatismos, na desconstrução da realidade diante dos delírios, no berço esplêndido da paranoia e da ilusão em que o Ipiranga é meio surdo e às margens plácidas se banham ao esgoto, a triste figura do ser militante ecoa sua melancolia. Não mora na filosofia e rima amor com dor – Caetaneando – em sua forma evasiva de não ser. Hoje o que é ser militante? Por acaso algum militante hoje lê a carta de fundação dos partidos que defende ou estuda para compreender o que representa uma ideologia?
Tenho observado nos últimos tempos dentro do contexto de nosso subdesenvolvimento, o fanatismo desembestado com um tom paranóico divertido e perigoso. Divertido por perceber o grau de ilusão de certos discursos que tentam defender o que não existe em pura psicose, em um cenário construído politicamente pela ilusão. Perigoso por que todo fanático é belicoso, destrutivo, ácido, agressivo. Mata quando contrariado seu amor, sua verdade, gritando quando questionado. Cenário psicológico que funde ilusão, raiva, e melancolia, na saudade de algo perdido, longínquo que não vai voltar, que talvez de forma incauta jamais tenha existido em parte alguma. O poeta nos dizia que a melancolia é a maneira romântica de ficar triste (Mario Quintana). Muito choro e tristeza, muito inimigo oculto pra raro sentido de vida.
E quantos não têm dedicado sua vida a causas, a um ideal pervertido diante do lucro com bancos, das empresas de telefonia, das grandes montadoras? Quantos não venderam sua alma para enriquecer com a corrupção? Quantos não foram às ruas pra pedir voto para melhorar a educação e foram traídos? É hora de chorar, de baixar a cabeça, respirar fundo e praguejar ou sorrir contente diante do desfeito de forma cínica no leilão dos interesses escusos da pátria amada idolatrada Salve salve.
Vejo vários perdidos em meu cotidiano outrora militantes que vivem como Sancho Pança após a morte de Dom Quixote. No que mesmo devemos acreditar? E na graça da ilusão pós moderna o iludido jamais acredita na própria alienação, em seu  senso comum, nos fatos que a vida esfrega diariamente em sua cara. Isto é o grande inimigo, a imprensa vendida, coisa dos “coxinhas”, capeta, poder do capital, ou algum outro ser imaterializado que justifique a continuidade de sua alienação. Por exemplo defende as políticas que criam programas sociais, desconstruídos em reformas ministeriais, ou no corte de verbas para alimentar o desvio astronômico da corrupção. Chora neném… chora… Victor Hugo já dizia: A melancolia é a felicidade de se ser triste…
Viver triste talvez seja a constituição dos Complexos e arquetípica da vivência desta militância. Uma forma de auto boicote que reelege quem vai o trair, vocação de corno. Rimar amor e dor pra sobreviver no subdesenvolvimento, pra sempre reclamar da ilusão construída com as próprias mãos. Pra se manter no pessimismo, derrotismo e continuar sem agir, sem cobrar, fingindo que nada ocorre. Pode gritar a vontade quem sabe sua própria consciência acorde!

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual, analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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