Superação através da escrita

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Professora Doraney: conseguir patrocínio para a impressão é um desafio para a mestre

Através da dedicação, professora da rede municipal de educação de Goiânia utiliza a leitura e produção de textos em sala de aula como motor do desenvolvimento intelectual

Fabiola Rodrigues

Ler e escrever sempre foram exercícios que trazem conhecimento para quem os pratica. Adolescentes, jovens, adultos e idosos embarcam nessas práticas através de projeto desenvolvido desde 2004 pela professora de língua portuguesa Doraney Carmo de Oliveira. Através da leitura e produção de textos em sala de aula, nas escolas municipais Professora Leonisia Naves de Almeida e Dalísia Elisabeth Martins Doles, ela ajuda alunos a escrever sem medo e apreender através dos erros.
A professora diz que a dedicação ao magistério “dá trabalho”, porém ver a coletânea pronta no final de cada ano com textos trabalhados pelos alunos durante o ano inteiro é uma grande recompensa que ela tem pelo esforço. Ao longo de mais de 10 anos, Doraney sempre se surpreende ao ver alunos do ensino fundamental e da Educação para Adolescentes, Jovens e Adultos (Eaja) se destacando no desenvolvimento da leitura e escrita.
Os textos produzidos são resultado de um trabalho realizado mês a mês até o final de cada ano. A professora leva para a sala de aula materiais para serem lidos e debatidos: textos, jornais, revistas, artigos, poesias e assuntos da atualidade. Depois de debaterem os assuntos em sala de aula, os alunos partem para a escrita.
“Dou liberdade para eles escreverem, vejo que alguns ficam com certo medo de participar do projeto, mas sempre digo para eles que sabem escrever, basta aprimorar; eu acredito nisso”, afirma Doraney.
Ajudar os alunos a desenvolver o desejo pela leitura e escrita, segundo a professora, é um trabalho que precisa ser feito com muita paciência e dedicação. Ela lembra que trabalhar com adolescentes, jovens, adultos e idosos em diferentes níveis de compreensão é uma aventura, porém observar cada um superando suas dificuldades faz valer a pena.
No Brasil práticas de projetos como de leitura e escrita ainda não são aprimoradas. Mais de 60% da população brasileira considera a leitura uma fonte de conhecimento para a vida. É o que diz a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 3”, realizada em 2011 pelo Instituto Pró-Livro (IPL). Porém, a mesma investigação chegou à conclusão de que o índice de penetração de leitores pelo País caiu 5% desde o último levantamento, em 2007. Além disso, dados do Ministério da Educação de dezembro de 2014 mostram que um em cada quatro estudantes das redes públicas estaduais e municipais se encontra no nível mais baixo de avaliação do português.
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse durante o Seminário Internacional sobre Política Pública do Livro realizada em junho deste ano em Brasília, que o Brasil não dá a importância necessária à leitura e que campanhas motivacionais precisam ser criadas. O ministro lembrou que um brasileiro lê em média dois livros por ano.
A professora acredita que o trabalho realizado em sala de aula contribui para uma aprendizagem além da teoria. As normas gramaticais da língua portuguesa requerem muito do aluno. Usá-las é um exercício que precisa ser treinado diariamente. Ensinar língua portuguesa para Doraney é exercitar a mente e as mãos através da escrita.
“Quando eu vejo os alunos com muitas dificuldades de usar a gramática da língua portuguesa nos textos, eu levo os erros para a sala de aula e trabalho esses erros. Assim fica muito mais fácil de ensinar, eles passam a apreender praticando. É um exercício de correção constante, porém aprendem”, observa professora.


“Escrevendoe reescrevendo,assim se aprende”

Resultado do projeto é transformado em uma coletânea e impressa anualmente
Resultado do projeto é transformado em uma coletânea e impressa anualmente

As didáticas de ensino que Doraney tem usado deixam os alunos motivados para estudar língua portuguesa com prazer. A coletânea impressa no final do ano é a resposta do trabalho realizado em sala de aula entre a professora e os alunos. Com mais de 100 textos de variados temas, a coletânea “Escrevinhando” é impressa e entregue para cada aluno que tem participação nessa jornada de trabalho e aprendizado.
O projeto de leitura e interpretação de texto nasce através do desejo de oferecer ensino de qualidade para os alunos da rede pública de ensino. Além de professora da língua portuguesa, Doraney é especializada em literatura e ela lembra que na rede particular de ensino os estudantes geralmente têm em média três professores para dar aulas de português: professores de gramática, literatura e interpretação de texto. Já os alunos da rede pública só têm um professor. Motivos como esses levaram ela a trabalhar com essa dinâmica de ensino.
“Acredito que a melhor forma de aprender é praticando, escrevendo e reescrevendo a partir das correções. Encontrei no projeto uma forma de englobar outras didáticas de ensino da língua portuguesa”, ressalta a professora.
Manter o projeto, segundo a professora, é um desejo permanente, porém ela encontra dificuldades na hora de imprimir as coletâneas para entregar aos alunos que produzem os textos. Por isso ela vai em busca de patrocínios para ter a coletânea “Escrevinhando” impressa, já que existe custo para produção.


Relato pessoal se torna motivação para escrever

Professora utiliza a técnica do relato pessoal para o aluno criar confiança na hora de escrever
Professora utiliza a técnica do relato pessoal para o aluno criar confiança na hora de escrever

Ajudar os alunos a escrever melhor tem sido uma das maiores missões da professora Doraney, há quase 26 anos. Ela já levou muitos alunos a ganharem concursos de redação em Goiânia. O concurso “Goiânia na Ponta do Lápis”, realizado pela Tribuna do Planalto, é um dos exemplos.
O projeto de leitura e produção de textos criado pela professora, além da superação pela escrita, faz com que certos alunos superem alguns traumas. São textos chamados de relato pessoal. É uma forma de o aluno ter liberdade maior ainda na hora de escrever. Eles podem contar, através dos textos, fatos marcantes, colocar no papel aquilo que estava guardado na mente.
“O relato pessoal é uma das formas do aluno criar confiança na hora de escrever. Percebi isso no decorrer dos anos. Tem aluno que usa o texto como desabafo, uns relatam problemas na família, outros sobre as confusões da adolescência e tantas outras histórias de problemas pessoais que são contadas em forma de texto”, diz a professora.
Uma adolescente foi abusada por um médico, lembra Doraney, e, quando ela foi escrever o texto sobre relato pessoal, o tema que ela escolheu abordar era o da própria história de vida. Ela encontrou nas palavras uma forma de desabafo.
“Meus alunos da Eaja, que estudam no período noturno na rede municipal de ensino, geralmente relatam histórias de vida difícil. Escrevendo os textos, eles aprendem minha matéria e também tratam de assuntos que talvez jamais fossem explorados. Vejo isso como um ensino para além da sala de aula”, comenta professora.

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