Da urgência

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Jorge de Lima

Há alguns artigos venho versandos obre o aspecto de como o cenário mundial foi redesenhado pelo fenômeno da transparência. Como por meio de redes sociais o fenômeno do controle social intenso se deflagrou gerando uma ilusão de onipresença na qual tudo e todos são visíveis. Nada mais é escondido, descrito em meu artigo sobre a transparência.

Associado a este fenômeno mundial a ideia de urgência a partir da década de 1970 toma conta da sociedade como uma marca registrada da pós modernidade. Tudo e todos são para ontem. O teor ansioso da forma de vida descrito por Raul Lopes Pedraza em ansiedade cultural, como uma forma titânica, o abissal arquetípico e o rompimento do cenário da noção de presente. O desdobramento da consciência, a dobra do tempo psíquico como cerne e alicerce de um mercado de consumo que se alastra a todas as situações que vão da religiosidade ao lazer. A tentativa ilusória da consciência pós moderna que se compraz na onipotência e onisciência tentando de forma vil e ineficaz controlar tudo e todos. Captar e devorar, todas as informações, livros, tendências, ritmos, lugares tudo ao alcance de dois toques em um aplicativo. tudo tão longe e tão perto… nas mãos o universo mas para onde mesmo é que se deve ir?

O vazio derivativo deste cenário da ansiedade cultural, nada mais é do que a força motriz do mercado de consumo, visto que um cliente satisfeito não consome e não movimenta o mercado. Insatisfação é o cenário que rege o marketing, as vendas, o consumo: do corpo, da moda; da religião; da segurança; dos imóveis; da tecnologia;… das ideologias políticas; o mercado das ilusões feitas de pseudo realidades, reencenadas na pseudo satisfação. Sorria e mostre se feliz, dentro de um status social que não lhe pertence, em uma vida que não é sua.

Um exemplo claro deste imponderável de nossa vida cotidiana atual esta na urgência programática de nossa política. De um lado uma psicose que em discurso fala de uma realidade de um país de primeiro mundo. O delírio da prosperidade, da marolinha, de bonança econômica… tudo depressa demais, sem planejamento, sem realidade, apenas discursos. Do outro lado a ansiedade, a urgência que chega atropelando tudo e todos… Cronos se manifesta e o rombo aparece gerando o tom de desespero dos últimos dias, o sentimento do pai que foi pra forca, de uma insanidade ideológica, na qual o besteirol é rearticulado discursivamente. Aliados viram inimigos de morte, e o grande capital do banco amigo vira o mote da luta que quer poder a qualquer custo. O fundador do partido o carrasco que pede sua cabeça:Helio Bicudo. O inimigo mora ao lado ou dorme consigo? Cuidado, tem veneno em seu prato de comida. Teu vizinho pode ser quem vai lhe empurrar precipício abaixo! Urgência infelizmente abre as portas da bestialidade, da falta de bom senso, da agressividade, da militância fanática que reproduz absurdos presa ao estado psicótico delineado: realidade para quem?  E esta é a marca de nossa pós modernidade. Sobreviver nestes tempos implica em temperança, prudência, planejamento, paciência senso de realidade e cautela… se quiser sobreviver neste caos instalado…

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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