Atacante goiano que desbancou Messi e teve o gol mais bonito do mundo tem trajetória de superação e chegou a trabalhar fazendo sanduíches após sofrer lesões

Por Fernando Vasconcelos
Goiânia

Wendell Lira surpreendeu o mundo. O brasileiro desconhecido que nasceu em Goiânia superou o argentino Messi e o italiano Florenzi e faturou nesta segunda-feira o Prêmio Puskás de 2015, que elege o gol mais bonito da temporada. Até ser indicado e entrar na eleição, ele só imaginava ver ídolos como Cristiano Ronaldo no videogame. A obra de arte do atacante de 27 anos foi feita no dia 11 de março do ano passado pelo Goianésia contra o Atlético-GO no Campeonato Goiano. Mas até protagonizar o lance que mudou sua vida, Wendell teve de superar muitas dificuldades.

início promissor

O início da carreira foi promissor. Lançado aos profissionais pelo técnico Geninho quando tinha apenas 16 anos em 2006, ele era a grande aposta das categorias de base do Goiás. Enquanto o time principal disputava a Libertadores, Wendell já mostrava talento em equipe alternativa montada para disputar o estadual. Tudo caminhava bem. Gradativamente o atacante recebia espaço na equipe e chamava atenção também fora do Goiás. Chegou a ser convocado para a seleção brasileira sub-20, onde conheceu, entre outros jogadores, Alexandre Pato.

Wendell Lira era promessa da base do Goiás (Foto: Cristiano Borges/O Popular)

Em 2007, fez sete gols em oito jogos e foi o artilheiro do Campeonato Brasileiro sub-20. Mas, na temporada seguinte, o drama de Wendell começou. Ele teve a primeira de duas sérias lesões no joelho e ficou 10 meses fora dos gramados. O retorno foi muito difícil. Wendell Lira não conseguiu pegar ritmo de jogo porque sofreu com lesões musculares. Em 2010, foi emprestado ao Fortaleza pouco antes de sofrer novo baque. Rompeu novamente os ligamentos do joelho e perdeu praticamente a temporada inteira.

“NÃO” AO MILAN

Em 2006, a vida de Wendell quase mudou completamente: o Milan teria feito uma proposta de R$ 6 milhões pelo atleta ao Goiás, que acabou recusando. O “não” goiano teria sido o incentivo do Milan para ir atrás de Alexandre Pato no ano seguinte. Wendell garante não ter qualquer mágoa da direta esmeraldina pela recusa da oferta do gigante italiano.

– Na ocasião, eu entendi a decisão do Goiás. Acharam que poderiam me vender mais caro depois. Além disso, eu tinha acabado de subir ao profissional e estava louco para jogar de qualquer jeito. Foi meu primeiro contrato. Então, acabei não ficando tão frustrado ou pelo menos tentei entender a atitude deles – contou.

TRABALHO EM LANCHONETE

O contrato com o Goiás se encerrou em 2012, e Wendell chegou a cogitar encerrar a carreira. Para ajudar a família, ele trabalhou em uma lanchonete com a mãe, Maria Edileuza. O apoio da família foi o alicerce que manteve o atacante no futebol. Desligado do Goiás, Wendell Lira começou a rodar no mundo do futebol. Atuou no interior de São Paulo e depois jogou em diversos clubes goianos, como Trindade, Anapolina e Goianésia.

Atacante trabalhou com a mãe em restaurante (Foto: Jefferson Rodrigues)
Atacante trabalhou com a mãe em restaurante (Foto: Jefferson Rodrigues)

As lesões perseguiam o jogador até mesmo em lances corriqueiros. Em 2013, durante a semifinal do Campeonato Goiano, já pelo Goianésia, Wendell fraturou o ombro após dividida com o goleiro Harlei, do Goiás. O nascimento da filha Marcela, atualmente com dois anos, também deu forças para que ele não desistisse da carreira. Embora tenha ficado novamente no departamento médico depois da lesão no ombro, Wendell já não sofria com graves problemas no joelho e nem musculares como no início da carreira.

GOIANÉSIA

No início do ano passado, após boas partidas no Campeonato Goiano pelo Goianésia, o atacante recebeu proposta de seu atual clube, o Vila Nova. Como o time colorado estava na segunda divisão estadual e a proposta financeira não era vantajosa, Wendell preferiu seguir em Goianésia. A decisão mudou o rumo de sua carreira. O jogador era o motor de uma equipe que contava com jogadores experientes e mais badalados, como o meia Romerito e o atacante Nonato.

O GOLAÇO

Nonato, aliás, é peça importante no lance consagrado nesta segunda-feira pela Fifa. No dia 11 de março, em partida do Campeonato Goiano, o atacante iniciou o lance do gol vencedor do Prêmio Puskás. Ele evitou saída de bola e passou para Da Matta. O meia ajeitou com categoria e, sem deixar a bola cair, lançou Wendell Lira por cima da defesa do Atlético-GO. Como estava à frente da linha da bola antes de finalizar, o atacante girou bonito e estufou as redes do Serra Dourada. Ele admitiu no dia seguinte que não conseguiu ver a finalização na hora do lance (veja o vídeo abaixo).

A vida de Wendell Lira não mudou da noite para o dia após marcar o golaço. Ele seguiu trabalhando firme e ajudou o Goianésia a ser semifinalista do estadual. Após o fim do Campeonato Goiano, transferiu-se para o Tombense, onde teve poucas oportunidades e foi dispensado na Série C do Brasileirão. No dia 6 de novembro, dia em que assinaria contrato com o Vila Nova, o telefone começou a tocar e não parou mais. Amigos e familiares deram a notícia de que ele estava entre os 10 finalistas do Prêmio Puskás ao lado de nomes como os argentinos Messi e Tevez.

VILA NOVA

A partir daí o humilde atacante goiano passou a ser conhecido no Brasil e também fora. Após refletir sobre seu futuro, Wendell Lira decidiu aceitar proposta do Vila Nova. Um dos motivos, além de o time ter conquistado o acesso para a Série B nacional, foi um fato que pode ser simples para a maioria dos atletas: Wendell teria um contrato até o fim do ano, algo incomum em sua carreira desde de que ele saiu do Goiás. Fã de videogames, ele passou a sonhar com o dia em que poderia conhecer ídolos como Neymar, Messi e, principalmente, Cristiano Ronaldo.

ESPOSA E O AVIÃO

Outra preocupação foi correr para providenciar o passaporte da esposa Ludymila Miranda, que o acompanhou na cerimônia da Fifa em Zurique. Ludymila nunca havia andado de avião até o último sábado, quando o casal embarcou para a Suíça. Wendell Lira sequer tinha terno e ganhou um de presente de uma loja de Goiânia para poder viajar. Mesmo com os compromissos e com a agenda cheia após a indicação para o Prêmio Puskás, ele continuou trabalhando para iniciar bem a temporada.

A BOA NOTÍCIA

No dia 30 de novembro, após sair de fisioterapia em um clube localizado na região central de Goiânia, Wendell Lira se assustou com um torcedor que o fechou no trânsito. Este foi o responsável por dar a notícia de que o atacante goiano estava na final com Messi e Florenzi. O atacante começou a acreditar que poderia vencer a disputa e passou a pedir votos por meio das redes sociais. Mesmo com o pensamento no Prêmio Puskás, Wendell Lira não se desligou dos treinamentos. Ele trabalhou com a equipe sub-20 do Vila Nova em dezembro e iniciou o ano em boas condições físicas. Se apresentou com o elenco profissional no dia 4 de janeiro e participou da primeira semana de treinamentos do Tigrão até embarcar no último sábado.

Wendell Lira chegou a defender a seleção brasileira sub-20 (Foto: Arquivo pessoal)
Wendell Lira chegou a defender a seleção brasileira sub-20 (Foto: Arquivo pessoal)

AUMENTO SALARIAL

Antes mesmo de vencer o Prêmio Puskas, a indicação para participar da festa da Fifa já havia melhorado um pouco a vida de Wendell. A chegada ao Vila Nova, impulsionada pelas manchetes sobre o golaço, renderam um aumento salarial ao atleta:

– Quando eu estava no Goianésia eu ganhava R$ 3 mil, R$ 4 mil por mês limpos… Hoje eu ganho um pouco acima, mas não é muito mais. Eu acho que dá para sobreviver e para dar uma vida melhor para a minha família.

FÃ DE CRISTIANO RONALDO

Na Festa de Gala da Fifa, Wendell realizou outro sonho. Além de bater Messi no Prêmio Puskas, o atacante conheceu seu ídolo Cristiano Ronaldo. Antes do evento, o brasileiro mostrava-se ansioso para encontrar o português e o lateral Marcelo, também do Real Madrid, em Zurique:

– Eu sou fã do Cristiano Ronaldo. Tem dois jogadores que eu gosto bastante: um é o Cristiano, que é o jogador mais completo do mundo; e o outro é Marcelo, lateral-esquerdo, que eu vou tentar tietar, porque ele é muito engraçado, nunca está triste, está sempre sorrindo e é um exemplo para mim.

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