Cinema abre as portas para um mundo novo

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Mais de 50 crianças prestigiaram a mostra especial no Crer. Foto: Eduardo Castro

Gabriela Louredo

Parece curioso, mas em uma sala de cinema o desafio proposto era atrair o olhar das crianças para a telona, para o filme que estava sendo exibido. Muitas corriam pra lá e pra cá, gritavam, choravam… Algumas resistiram a entrar e até queriam ir embora diante dos estímulos audiovisuais. Mas também teve quem ficou com os olhos atentos na história. Foi assim a primeira sessão experimental para crianças autistas que ocorreu no Centro de Reabilitação e Readaptação Henrique Santillo (Crer), uma iniciativa do Grupo de Pais Cinema Azul, que é a cor-símbolo da doença, e Instituto Suassuna.

O ambiente foi preparado especialmente para que os pequenos fixassem a atenção. Só uma parte das luzes foi apagada, o volume do som era mais baixo e, diferente do cinema comercial, nada de trailers. Na tela, um filme da Turma da Mônica. A escolha de um curta-metragem de 25 minutos não foi por acaso.

“Para mim foi uma surpresa. Ele assistiu e prestou atenção. Foi um pontapé inicial para novas experiências”, disse Tatiana Cardinale, mãe do Isaque, de 3 anos. A primeira e única vez que a dona de casa levou o filho ao cinema foi “traumática”, segundo ela, porque o barulho o incomodou e eles tiveram que ir embora. Ela considera que a experiência de agora foi fundamental para a criança que faz tratamento no Crer e já evoluiu muito, por isso ficou tranquila ao levá-la desta vez.

Marcos e a mãe, Neila, durante sessão do Cinema Azul. Foto: Eduardo Castro
Marcos e a mãe, Neila, durante sessão do Cinema Azul.
Foto: Eduardo Castro

Sem medo do escuro
Marcos de Almeida Filho, de 14 anos, tinha medo do escuro quando ia ao cinema. Graças às sessões de terapia e à ajuda da mãe, a psicóloga Neila Márcia Carlos Sobrinho, ele conseguiu vencer a fobia e a sétima arte se tornou divertida. O adolescente é portador da Síndrome de Williams, que possui características semelhantes ao autismo. No entanto, ele é sociável e comunicativo. “É tão legal ver o cinema e comer pipoca. Eu adoro”, diz.

Para Neila, o projeto Cinema Azul é uma oportunidade para promover a inclusão social das crianças e adolescentes que sofrem de deficiências intelectuais. “Acho que o projeto é muito importante. O Marcos Filho já se acostumou com o cinema, mas ele tem muitos colegas que não conseguem fazer isso porque têm muitas dificuldades e barreiras a enfrentar. Então, se a gente treina eles aqui dentro, vamos conseguir lá fora fazê-los interagir com o público e incluí-los realmente na sociedade”, avalia. Atualmente, Marcos participa de sessões de terapia ocupacional e está sendo alfabetizado no Crer.

cinemaInclusão social
O autismo é um distúrbio neurológico que causa o comprometimento da interação social, comunicação verbal e não-verbal, além de comportamento restrito e repetitivo. Os pais costumam notar sinais nos dois primeiros anos de vida da criança. A diretora multiprofissional de Reabilitação do Crer, Sônia Helena Adorno de Paiva, afirma que o Cinema Azul é importante para propiciar a socialização dos portadores do autismo.

“A nossa intenção é fazer um diagnóstico do que esse ambiente diferente vai causar na criança, na pessoa com autismo, para que a gente possa trabalhar isso terapeuticamente para que depois ela tenha condições de ir a um cinema convencional. Para o Crer e para os pais dessas crianças a sessão é um desafio. Hoje teremos um curta de 25 minutos. Se conseguirmos primeiro que ela entre e depois que permaneça aqui por oito minutos já é uma vitória porque tem a questão do som, as cadeiras enfileiradas, um ambiente completamente diferente que provoca uma desorganização muito grande nessas crianças”, pondera.

Referência
O Crer foi o primeiro hospital do País a receber, em maio de 2013, o título de Centro Especializado em Reabilitação (CER 4), conferido pelo Ministério da Saúde que credencia a unidade a atender pacientes portadores de todos os quatro tipos de deficiências: física, visual, auditiva e intelectual. Entre os métodos utilizados por uma equipe multiprofissional para o tratamento do autismo estão o balé terapêutico, musicoterapia, terapia ocupacional e  equoterapia.

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