Roubado

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Jorge de Lima

Esta semana tive furtado um laptop de dentro de meu consultório. Saí para fazer um lanche entre atendimentos em um intervalo entre pacientes e quando retornei… em menos de 40 minutos. Com ele os dados de um novo livro que escrevia, alguns roteiros que produzia, vários trabalhos de música incompletos, duas dúzias de artigos que redigia, e material de trabalho. Fiquei bem chateado porque para os outros pode parecer pouco, pra quem depende da tecnologia, muito. Quem foi ninguém sabe, ninguém viu… o velho amigo do alheio…
É muito ruim a sensação que depois paira no ar em nossa cabeça remontando as cenas, tentando relembrar os fatos, indagando aos colegas e as pessoas se alguém viu algo. A falta de respeito ao trabalho, propriedade privada, a ausência de consciência, a capacidade de percepção entre certo e errado, e o velho hábito de querer levar vantagem em tudo mostram claramente o velho retrato que conheci quando fui chefe de um serviço de desintoxicação de dependentes químicos dentro de uma penitenciária. Lembrei as milhares de histórias que ouvi dos presos e de como eles não tinham a percepção do respeito ao próximo, a não ser pela violência, fruto de uma  distorção da socialização primária.
Foi mais uma história de um roubo, de alguém que invade uma casa, um estabelecimento comercial, que se infiltra entre muitos não com o intuito de receber ajuda, ou de ali estar como toda a gente, um alguém que tem outros intentos, que em seu lado calado e dissimulado, finge de santo, disfarça, se amoita, visando tentar tirar proveito de qualquer vacilo ou brecha. Infelizmente neste caso e em muitos a ligação direta é com a dependência química. Igual a um cão que rói osso e briga por seus restos, assim de lixo vive este tipo que subsiste de restos de droga, que mente com naturalidade dizendo não saber de nada… “você desconfia de mim por que”?… mentindo, burlando, negando mas enterrado até o fundo da alma em um processo auto destrutivo que além do vício parte para o furto e provavelmente na sequência ao assalto a mão armada, para ter seus miseráveis dois minutos de prazer com sua droga. Eram os casos mais comuns que conheci quando coordenava um serviço de psicologia dentro de uma penitenciaria. Indivíduos jovens que pela droga matam e se matam, os casos mais comuns de nossa sociedade ligados a violência urbana retratados diariamente na imprensa. Os que são presos ou morrem cedo… matando mais alguns…
Eu como mais uma das milhares de vítimas de nossa violência urbana, como mais um agredido não consigo me calar mais diante do fato de ver claramente de um lado a apologia para a liberação das drogas e a omissão do governo e de outro notar o aumento da violência urbana associada às drogas. É notório perceber nas ruas viciados que roubam e matam para manter seu vício, retroalimentando um sistema social violentíssimo. Basta ver os noticiários policiais cinco minutos que lá esta mais um caso… de alguém que mata, rouba por que está enterrado na dependência de narcóticos como a cocaína, crack, merla e outras drogas químicas pesadas.
Uma situação que explode a violência social em crescimento vertiginoso e que vai aumentar diante da omissão do estado nas esferas municipal, estadual e federal nesta política cínica que finge que faz algo. Mas como temos políticos bandidos é natural que um criminoso proteja o outro e nada faça… Políticos que sabem aumentar impostos para ter de onde  roubar são a mesma corja. Somos roubados nos impostos, nos serviços mal feitos prestados pelo estado, na sobrecarga de taxas, no desvio de verbas. Vivemos entre ladrões que querem se dar bem em um cenário de puro egoísmo. Infelizmente, te cuida! E se encontrar meu laptop por aí me avisa.

Jorge Antônio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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