Crônica de mais um alagamento anunciado

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Secom/goiânia

Fortes chuvas mostraram que a Capital não está preparada para situações emergenciais. Enchente atingiu nove bairros e moradores tiveram de ser resgatados de canoa durante a madrugada

Manoel Messias

Alagamentos em Goiânia não são novidade. Quem mora na cidade há mais de 30 anos sabe que desde a década de 1980 os moradores de regiões ribeirinhas, como a Vila Roriz, na parte baixa do Setor Urias Magalhães, sofrem constantemente com as enchentes. E esse problema se estende a praticamente todas as regiões próximas aos cursos d’água da capital, como o Rio Meia Ponte, o Ribeirão Anicuns, córregos Botafogo, Cascavel, Capim Puba. Portanto, informação aos órgãos públicos não falta.
Apesar de todas as evidências, sentidas na pele pelos moradores, há estudos sobre os alagamentos e inundações em Goiânia. Esses transtornos ocorrem geralmente entre os meses de outubro a março, com chuvas rápidas e intensas, o que favorece o aumento do volume das águas nos córregos e rios que cortam a malha urbana
“Além disso, a impermeabilização das vias públicas implica no escoamento superficial das águas pluviais e a falta de planejamento da infraestrutura – que considere as características das chuvas e do relevo da cidade – facilitam a ocorrência de alagamentos em diversos pontos de Goiânia”, revela pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Climatologia (Climageo) do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Os pesquisadores do Climageo analisaram a relação dos eventos pluviométricos com as áreas mais propensas a ocorrência de alagamentos e inundações na capital goiana. A partir de registros da Defesa Civil entre os anos de 2008 e 2012 e dados de chuvas, fornecidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Sistema de Meteorologia e Hidrologia do Estado de Goiás (Simehgo), a pesquisa demonstrou que a região Central da cidade é local propício a identificação de alagamentos.
A explicação da coordenadora da pesquisa, Gislaine Cristina Luiz, é que, na região, a estrutura de drenagem não capta de forma eficiente o volume do escoamento superficial e ainda há áreas próximas aos córregos que, em função do relevo, declividade e rampas longas, tendem a acelerar o fluxo das águas em direção aos canais de drenagem, o que tem contribuído para causar transtornos em alguns pontos da cidade, como nas imediações da Marginal Botafogo.
A pesquisa, de acordo com a Assessoria de Comunicação da UFG, mostra ainda que as áreas próximas à planície do Rio Meia Ponte, onde deságuam alguns dos córregos da cidade, também são locais onde se evidenciam os alagamentos, pois têm capacidade de infiltração afetada pela impermeabilização e canalização de drenagem. Esses fatores, associados às chuvas rápidas e intensas, favorecem também o aumento do volume das águas dos córregos e, consequentemente, a eclosão de inundações e alagamentos das várzeas.
“A cidade de Goiânia já sente os efeitos das chuvas em se tratando de alagamentos, mesmo mediante episódios de baixa intensidade, com consequências cada vez maiores para a população”, esclarece a pesquisadora.
As áreas próximas ao Ribeirão Anicuns também foram identificadas como locais com propensão maior a alagamentos e inundações, em função dos mesmos fatores. A pesquisa considera que altitudes mais elevadas na jusante dos canais de drenagem, juntamente a vertentes de baixa declividade, mas com rampas de longo comprimento, resulta no escoamento rápido e concentrado da chuva no sentido desses córregos e promove a rápida elevação da vazão dos mesmos.
A graduanda do curso de Geografia da UFG Rosane Borges, integrante do Climageo, que participou da pesquisa, alega que “medidas paliativas não resolverão os problemas, mas podem amenizá-los”. Para a pesquisadora Gislaine Cristina Luiz, é possível amenizar esses processos, com a construção de estruturas para captar o fluxo superficial da água da chuva, com o intuito de retirá-la da superfície e redistribuí-la na bacia hidrográfica, de forma que atinja os canais de drenagem mais lentamente, diminuindo o tempo de pico da vazão. Medidas mais simples também são recomendadas, como o aumento de áreas permeabilizadas, tanto nas calçadas quanto nos canteiros centrais das vias públicas.


A solução existe, mas não sai do papel

Todos esses transtornos trazidos pelas fortes chuvas poderiam ter sido evitados caso a Prefeitura de Goiânia tivesse executado o Programa Urbano Ambiental Macambira Anicuns. O projeto abrange a construção do Parque Macambira Anicuns, unidade de conservação de 25 hectares na nascente do Córrego Macambira, no Setor Faiçalville, além dos trechos do Parque Linear Macambira–Anicuns, que deve ter 24 km de extensão, conforme consta no projeto inicial.
Contará com 46 espaços comunitários, entre quadras poliesportivas, pistas para caminhada, praças, orquidário, aquário, lagos, auditório, centros culturais, além de um parque linear. Tudo isso ao longo de fundos de vales, beiras de córregos, justamente o local afetado pelo alagamento da semana passada.
Estimado em quase R$ 122 milhões, valor financiado e com dinheiro liberado, o projeto deve beneficiar cerca de 350 mil pessoas com obras de infraestrutura urbana e social nos 131 bairros localizados nas proximidades do Córrego Macambira e do Ribeirão Anicuns.
Esse é o lado bonito do projeto. Agora, um dado estarrecedor: criado em 2003 pelo então prefeito Pedro Wilson, o projeto já deveria ter sido executado e os benefícios entregues à população, mas, como o poder público é um péssimo gestor, quase nada saiu do papel.


700 pessoas ficaram desalojadas

Segundo o Corpo de Bombeiros e pela Defesa Civil Municipal, o grande e intenso volume de chuva que atingiu Goiânia terça e quarta-feira passada deixou 700 pessoas desalojadas. O Córrego Cascavel, o Ribeirão Anicuns  e o rio Meia-Ponte transbordaram e alagaram imóveis de 13 bairros. Moradores da Vila Santa Helena, na região Oeste, precisaram ser resgatados de canoa pelos bombeiros. Em algumas casas, o nível da água atingiu 1,8 metro de altura.
Os desalojados se deslocaram para casa de amigos, parentes e igrejas. A situação mais grave ocorreu no Setor São José/Vila São Paulo, onde 350 pessoas ficaram desalojadas, de acordo com a Defesa Civil. Na Vila Roriz, o número chegou a 320. O setor Gentil Meireles foi o terceiro mais atingido e 30 pessoas tiveram de deixar suas casas, segundo a Prefeitura de Goiânia.
Quem sofreu com os alagamentos contabilizou prejuízos, enquanto fazia a limpeza de ruas e residências. O Corpo de Bombeiros informou, porém, que as construções têm de ser vistoriadas antes que os moradores retornem.
Segundo a agente da Defesa Civil, Sidicley Santana, das 15h50 de terça-feira (19) até 12h30 desta quarta-feira (20) choveu o dobro do esperado para o mês de janeiro. “A orientação é que as pessoas não se prendam aos bens materiais. Deixem os bens e procurem um lugar seguro em caso de alagamento”, recomendou.
Segundo o o Instituto Nacional de Meteorologia, nos 19 primeiros dias do ano Goiânia registrou 302.4 milímetro (mm), 13% a mais do que esperado para todo o mês de janeiro, que é de 266.8mm, segundo a chefe da seção de previsão de tempo do Inmet de Goiás, Marna Mesquita. A previsão é que as precipitações, constantes há mais de duas semanas, durem pelo menos até o fim do mês.

El Niño
A pesquisadora Gislaine Cristina Luiz, do Climageo/UFG, ressalta que o ano de 2015 está sob o efeito do fenômeno El Niño e que o comportamento das chuvas apresenta variações.
“Sob esta influência, as chuvas da nossa região apresentarão tendência de ocorrer de forma mais intensa, mas em curtos períodos. O El Niño não traz variações no total das chuvas, mas sim modifica a distribuição das chuvas na nossa região, assim chove-se mais intensamente, porém em número menor de dias”, explica.

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