“O Lago dos Tigres corre risco de secar”

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Luziano de Carvalho, da Delegacia do Meio Ambiente: “Levantamos as nascentes do João Leite; umas estão boas, outas em situação irreversível. A maior parte das matas ciliares foi suprimida”

Ronaldo Coelho, Manoel Messias e Fabiola Rodrigues
24 horas por dia é pouco tempo para os problemas que o delegado do Meio Ambiente tem que administrar em Goiás. Comandando a Delegacia do Meio Ambiente (Dema) há mais de 17 anos, Luziano de Carvalho sabe bem da importância de Goiás para o abastecimento de água do País. “Aqui é o berço das águas do Brasil. O dia em que acabar a água aqui em Goiás, acaba no Brasil. Somos a caixa-d’água mesmo, daqui vai água pro Tocantins, pro Amazonas, pro Pará. Se não adotarmos providências urgentíssimas, vamos acabar com a água aqui, vamos antecipar uma tragédia nacional”, diz, com o tom enfático que lhe é peculiar. Na entrevista, ele fala sobre a recuperação do Araguaia e as bacias do Meia Ponte e do Ribeirão João Leite, berçários das águas goianas castigados pelas criações de boi principalmente, que pisoteiam e secam as nascentes. Comenta ainda a enchente que alagou a parte baixa da Vila São José, em Goiânia, no início de janeiro. Uma página é pouco para entrevistar Luziano.


Há alguns dias, a Dema concluiu vários inquéritos sobre degradação ambiental na região do Lago dos Tigres, em Britânia e região. O que foi apurado?
Primeiro, quero dizer que a questão ambiental é eminentemente preventiva. Quando não se previne, temos danos e crimes podem ser irreversíveis. Isso é que é grave demais e está acontecendo no Brasil. Tivemos danos terríveis na nascente principal do Rio Araguaia, que era uma pocilga; hoje, está totalmente recuperada; as mais de 20 grandes erosões, que se transformaram em voçorocas, no alto Araguaia, próximo das nascentes, hoje estão estabilizadas. Pegamos um Rio Araguaia praticamente na UTI e começamos pelas nascentes, que, hoje, estão melhores do que as encontramos. Mas os grandes rios dependem essencialmente dos rios menores que o abastecem. E o Rio Araguaia depende dos rios que nascem na região de Britânia, Aruanã, Jussara, Nova Crixás, Mozarlândia; ali está o coração, o pulmão do Araguaia. E os lagos ali são muito importantes. Os lagos são áreas de preservação permanente. Esses lagos são berçários dos peixes e antes estavam ali protegidos por grandes matas.

E o que ocorreu?
Aí houve o desmatamento.
Desmatou para cometer crime? Não. Pra criar boi. Mas de repente veio o boi, pisoteou o lago, compactou; quando vem a chuva, sem a cobertura, enche normalmente, mas a água evapora rapidamente, já não tem mais a vida, o ambiente do peixe, hoje onde tinha água tem capim, onde tinha peixe, tem boi. E o Lago dos Tigres é o lago mais belo, mais importante que temos na América do Sul, e ele corre risco real de secar. Temos muitos outros lagos, não daquele tamanho, que secaram. Mas vejam que o Rio Vermelho não mais abastece o lago, ele desviou, está a cinco quilômetros do lago e precisa retornar. Por isso estamos fazendo estudos técnicos, porque não temos o direito de errar.

As nascentes na região estão comprometidas?
As nascentes que abastecem o Lago dos Tigres, a maioria já está secando. As nascentes principais do Água Limpa, que é o principal abastecedor do lago, estão em Jussara e foi pra lá que fomos, buscamos os fazendeiros, falamos: olha, você cerca essa nascente. Aqueles que tinham construções, represamento, edificações, empreendimentos potencialmente poluidores, tivemos que encaminhar todos para o Poder Judiciário, principalmente aqueles que usam as nascentes para criação de gado. Isso é muito comum, mas ninguém pode se omitir. É por isso que a Polícia Civil de Goiás está buscando a integração principalmente com o produtor rural, para que ele se conscientize e, no mínimo, cerque as nascentes. A solução é simples, mas não é fácil.

Foram dois anos de apuração. Ao final, quantos fazendeiros e proprietários rurais foram indiciados?
No município de Jussara, que estão as nascentes de Britânia, foram onze indiciamentos. Agora o que me deixa feliz e abre a esperança é que muitos não foram necessários indiciar. O foco nosso não é a punição. Na área ambiental, acima de tudo, temos é que conscientizar, é chamar para a reflexão. O produtor não quer ser criminoso, quer produzir, grãos, carnes. Então tem que conscientizá-lo de que se deixar o gado na Área de Preservação Permanente, na nascente, na beirada de rio, na beira de lagos, isso é crime. Quando a polícia chega e explica o que essas condutas causam, as consequências dessas ações para o meio ambiente, muitos chegam e dizem: olha, delegado, o que eu preciso fazer? E tecnicamente a gente mostra pra ele que basta fazer uma cerca em volta da nascente, o que é muito simples. E quando o fazendeiro faz isso, ele não está dificultando, ele está participando.


“A saída é tratar as partes vitais
do meio ambiente, as nascentes”

O Araguaia está na UTI ainda?
Está. E em estado grave. Em vários pontos, se atravessa o rio a pé, sem nadar, pisando. Eventualmente isso já era possível no passado, mas isso se tornou muito recorrente, todo ano o nível do rio abaixa cada vez mais. Hoje, água de chuva não para, vai embora.

No caso do Araguaia, quais são as causas?
No Araguaia, a cobertura vegetal de vários lagos foi desmatada, há pivôs centrais pra todo lado. Um pivô central com desperdício abastece em média uma cidade de 15 mil habitantes. Uma fazenda que eu fui abastece um quarto da população de Goiânia. Ter pivô central na bacia do Meia Ponte é um absurdo, é uma agressão. Eu vejo que o caminho é tratar as partes vitais do meio ambiente, o cérebro, o coração, que são as nascentes. A nascente principal do Meia Ponte está recuperada, do João Leite, também, mas tem muito ainda por se fazer.

Em relação ao Araguaia, o turismo também degrada?
Uma coisa que evoluiu muito no Araguaia foi o turista, se comparado com mais de dez anos atrás. Antes, era lixo para todo lado. O nível do turista que vai ao Araguaia também contribui, porque sem educação não tem salvação. Muitos, porém, dizem: Eu amo o Araguaia! Quando? Em julho. Outros tantos vão pra lá, levam sua cerveja, o som lá nas alturas, o que é uma violência com o Araguaia. Termina, deixam os ranchos tudo ali… Mas eu vi que já melhorou. Não faz mais o rancho com mata ciliar, não corta as matas das margens, o cimentado está diminuindo, mas temos outras coisas graves no Araguaia.

Com todos os recursos tecnológicos hoje disponíveis, a estrutura e o aparato do poder público, ainda assim não é possível evitar que as agressões ao meio ambiente sejam evitadas quando começam?
Não podemos é perder o controle. Essas ferramentas que temos hoje à disposição, como o próprio Google Earth, ajudam demais. Quanto tempo eu gastei pra encontrar a nascente principal do Rio Meia Ponte? Foi uma loucura! Ninguém sabia. Hoje, você pesquisa e de imediato encontra. Só não podemos assistir as agressões via satélite, mesmo porque tem certos detalhes que só se percebe in loco.


“O grande problema do

Meia Ponte se chama esgoto”

Como está a bacia do Rio Meia Ponte?
Fizemos um trabalho ao longo do tempo em relação ao Meia Ponte. As nascentes principais, que estão em Itauçu, foram recuperadas, quilômetros de matas ciliares. Por último estamos trabalhando com a bacia do João Leite, que abastece o reservatório de água da grande Goiânia e cujas nascentes principais estão em Ouro Verde, recuperadas. Muitas nascentes estão na zona urbana de Anápolis e infelizmente temos ali danos irreversíveis, porque tem uma nascente, mina água ali, mas está cheia de casas, construções em área não edificável. Por isso a prevenção é fundamental. Não podemos ser hipócritas, temos de cuidar do paciente que tem chance de sobreviver. Por isso eu vou insistir, cerquem as nascentes. Em qualquer ponto de Goiás.

O Meia Ponte continua sendo poluído com dejetos?
O rio faz parte de nossa vida. Os nossos rios são rios ou são esgotos a céu aberto? Temos de interceptar, captar todo o esgoto que chega ao rio. E tem esgoto clandestino e também oficial. O grande problema do Meia Ponte se chama esgoto.

E a Estação de Tratamento de Esgoto de Goiânia…
Ajudou e está ajudando. Melhorou muito, mas está longe do ideal. É preciso que todo esgoto de Goiânia seja devidamente tratado.

Por que o Sr. diz que tem muita preocupação com o reservatório de água do João Leite?
Levantamos as nascentes do João Leite; umas estão boas, outras em situação irreversível. A maior parte das matas ciliares foi suprimida. Precisamos de recuperar as nascentes e as matas ciliares. Temos pivôs centrais, temos lixões, temos efluentes lançados por indústrias sem o devido tratamento. Temos inúmeros empreendimentos potencialmente poluidores, como postos de combustíveis, até órgãos oficiais, esgotos residenciais não tratados, presença grande de fertilizantes, agrotóxicos para cultivo de hortaliças, erosões, voçoroca em Goianápolis, ocupações de áreas nas imediações, pressão imobiliária por loteamentos… Então a preocupação é com tudo isso. Se a gente não firmar um compromisso de proteção, de recuperação de toda a bacia envolvendo os fazendeiros, em torno do reservatório de abastecimento público da grande Goiânia, nós não teremos sucesso. Se pensar em utilização múltipla, será um fracasso.


“O rompimento do dique foi benéfico pra população”

O que o Sr. já apurou sobre as causas e as responsabilidades do alagamento ocorrido em Goiânia na região da Vila São José?
Ali tem construções irregulares. No fundo do córrego Anicuns, construiu-se casas na área de preservação permanente, tem a declividade acentuada… Toda aquela água de chuva vai para o Anicuns principalmente. Eu fui lá, vistoriei in loco com a Defesa Civil, Secretaria de Infraestrutura. Tem casa a seis metros do manancial. Então a Polícia Civil instaurou inquérito porque tinha a notícia de que rompeu um dique e esse rompimento teria causado o alagamento. Isso foi o que ouvimos da população afetada. Na segunda-feira bem cedo eu percorri toda a extensão do encontro do rio Cascavel com o Anicuns até a Rua Mato Grosso, cerca de 700 metros e verifiquei que perto da rua Mato Grosso teve um transbordamento do Anicuns. A água saiu dali, começou a inundar e veio a água da chuva que desce do setor, juntou tudo ali e aí alagou.

E o dique…
O dique foi feito no leito do Cascavel e do Anicuns aproveitando toda a terra retirada durante a limpeza do curso d’água, um monte de terra de dois, quatro metros de altura, erguido às margens do rio. Foi feito esse dique em volta do rio pra evitar que quando o rio enchesse não transbordasse. É uma barreira feita com terra, que não deixa de ser uma agressão ao rio. Com essa barreira, a água do rio não transborda, mas e a água da chuva que desce do setor? Ela não vai pro rio por causa do dique. A intenção foi muito boa, mas não funcionou, porque o dique impediu a chegada da água da chuva, de descer até o rio. Aí represou e alagou a região ribeirinha. E a água de repente abaixou, porque rompeu o dique no Cascavel devido ao acúmulo de águas da chuva que desceram do setor.

Então o rompimento do dique não foi o causador do alagamento…
Tenho certeza absoluta que o rompimento daquele dique foi benéfico para a população. Então podemos falar que o município teve culpa quanto ao rompimento do dique, pelo contrário, foi até bom para os moradores. Se não tivesse feito o dique, ali teria alagado tudo… De qualquer forma, ali não é lugar do povo morar. Mas grande problema ocorreu com moradores mais abaixo do ponto do alagamento, porque com o rompimento criou-se uma tromba d’água e causou danos rio abaixo, na Vila Roriz… Uma pessoa estava armazenando irregularmente grande quantidade de óleo combustível e a água levou. Esse talvez seja o dano ambiental mais grave e o inquérito está apurando as responsabilidades. Vamos responsabilizar algumas pessoas criminalmente, porque vimos na Vila São José construções de alto padrão edificadas em área de preservação permanente.

E agora, como fica, as chuvas continuam…
Diante dessa situação, vou apresentar uma solução paliativa no meu relatório. Lá em cima, onde o rio transbordou, sobe o nível do dique, para a água do rio não passar. Lá em baixo tem uma curva, pode ser melhorado pra água fluir melhor durante as chuvas fortes. Essa são medidas paliativas. Agora o que tem que ser feito para o bem do meio ambiente e dos moradores é retirá-los daquele local. Todos aqueles que moram na última rua que faz divisa com o Anicuns devem ser retirados dali, porque não tem outra solução, a água da chuva vai alagar tudo de novo.

Luziano de Carvalho foi entrevistado pelos jornalistas Fabiola Rodrigues, Ronaldo Coelho e Manoel Messias
Luziano de Carvalho foi entrevistado pelos jornalistas Fabiola Rodrigues, Ronaldo Coelho e Manoel Messias

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