Colonizados

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Jorge de Lima

De que é feita nossa tradição de curtir sofrimento, de rimar amor com dor? Estes dias refazia um velho estudo de música popular brasileira revisitando o tradicional e o clássico nos boleros, da musica romântica dos anos 60, no samba e pagode, no pop, no sertanejo, no rock nacional… não é raro depararmos com o lamento existencial, com a dor de corno, a fossa, o canto do desespero. A dor de amor, o sofrimento cantado é cult… por estas bandas não é raro que se monte um altar para o sofrimento em verso e proza… “não tenho casa, não tenho carro”; “vou botar placa de venda nesta casa”; “Lá vai ele com a cabeça enfeitada”…
Nosso cancioneiro popular em todos os estilos evidencia que o chamado povo alegre e festeiro adota o sofrimento e o chifre como estilo de vida, e a dor de cotovelo como processo existencial. O ser subjugado, que leva chicotada, que é apático, que aceita tudo, que pode ser humilhado, roubado, espezinhado e que após ser violentado vai cantarolar sua dor existencial em uma melodia, em vários estilos. Curtir sofrer!
Todo subdesenvolvimento cultural, de nossa educação, saúde programado em agenda política de estado, neste cenário pervertido de valores e ideais é ainda parte de nossa mentalidade de seres colonizados, feitos a escravidão que amam seu senhor e o chicote que estala, ardido nas costas. sobem todos os impostos, cai a qualidade de vida, saúde e educação pioram, desmandos e mais desmandos políticos, conquistas seculares são extirpadas e o povo contente vai as ruas pedir para que se mantenha a corrupção e a péssima gestão da máquina pública, feliz por ter hoje mais de 50% do que ganha destinado a um governo corrupto. Feliz por ter de voltar a viver com uma inflação que esta em disparada. Isto é a tradição de gostar de apanhar na mentalidade de colonizado. Uma persona sombria que virou tradição no Brasil.
Ser este que se apaga, que perde sua identidade, que omite sua opinião, que finge que tudo que ocorre, que isto não é com ele. Todavia mensalmente as contas dobram, o custo de vida com a inflação aumenta muito, mas fazer o que? Logo reelegemos os mesmos bandidos que tem ficha suja, envolvidos em escândalos e muita corrupção para depois continuar cantarolando a tristeza como estilo de vida. Casar com a rapariga, pra depois ter assunto quando se leva o chifre. Amar o sofrer que vira sentido de vida.
Hoje isto se reflete em nossa saúde, no judiciário, no serviço público em geral, nas mentiras de promessas de campanha, na loucura dos nossos gestores, e principalmente na população que acaba rindo e fazendo chacota constante da anarquia existente que faz da falta de lei, ou da legislação que aceita a corrupção um hábito, tradição que advém desde o Brasil colônia, em uma terra que se acostumou a ser explorada, devassada, regrada ao chicote, um hábito pernicioso conivente e silencioso. O masoquismo de curtir sofrer, de achar bom virar manchete de jornal internacional diante do maior escândalo de corrupção do planeta terra, e como Geni e o capitão do Zepelim, no final ainda deitar e sorrir… mais uma enrabada certeira, no meio de tanta sujeira, e todo mundo caladinho, aceitando feliz até o próximo escândalo que promete ser maior que o primeiro… E você curte apanhar deste tanto caladinho?

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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