Assaltos aterrorizam usuários de ônibus

0
1656
Tarifa alta, veículos sucateados, frota reduzida e, agora, uma onda crescente de violência dificultam a vida da população que utiliza o transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia

Sem alternativa, população se vê refém da violência crescente nos veículos lotados, terminais e paradas de espera

Daniela Martins

Andar de ônibus em Goiânia nunca foi tarefa fácil, mas de uns tempos para cá a insegurança no transporte coletivo tem feito vítimas em números alarmantes e espalhado pânico entre os que dependem do sistema para ir e vir. Para se ter uma ideia, nos últimos dois anos, o índice de furtos e roubos dentro dos terminais e ônibus da região metropolitana de Goiânia teve um aumento de 94%, passando de 3.680 casos notificados em 2013 para 7.133, no ano passado.
Os dados são da Secretaria da Segurança Pública do Estado de Goiás (SSPGO) e certamente estão aquém da realidade, já que muitas vítimas não procuram as delegacias para registrar boletins de ocorrência. E há ainda os casos de pessoas assaltadas enquanto esperam em pontos de ônibus, que não entram nessas estatísticas. Esses casos podem ser registrados genericamente como roubo a transeunte, tipo de crime que, em 2015, alcançou espantosos 19.401 registros apenas em Goiânia e Aparecida.
Usuária do transporte coletivo, a jornalista Alana Sales já foi assaltada cinco vezes ano passado, duas delas enquanto aguardava na parada de ônibus. Experiências que instalaram o medo e afetaram sua rotina.
“Deixei de sair à noite, nos primeiros dias. Fiquei mais atenta para evitar estar sozinha em pontos de ônibus… mas como dependo unicamente do transporte coletivo, não tenho muita escolha a não ser voltar a usar o serviço”, relata.
A rotina de quem precisa acordar cedo e esperar pelo ônibus em pontos mais isoladas tem sido de medo, insegurança e permeada de agressividade. O início do ano letivo foi marcado por pânico para a família da recepcionista Oscarine Sousa de Almeida Leandro. Ela, sua filha de 11 anos e a mãe foram ameaçadas por um motoqueiro, às 6h30 da manhã, enquanto aguardavam o coletivo no Jardim Mont Serrat, em Aparecida de Goiânia.
“Entreguei minha bolsa, e ele repetia que queria o celular. Eu falava que estava dentro da bolsa, mas ele continuava ameaçando bater na cabeça da minha filha com um pedaço de pau. Ao final, levou até a mochila dela com o material escolar”, conta.
No trabalho, Oscarine passou o dia atônita. Sobraram as contas do celular e dos livros escolares para pagar, além do trauma da filha para lidar. Com medo, a criança não queria ir para a escola na manhã seguinte. Ao orçamento familiar já apertado, foi preciso acrescentar o pagamento de um serviço particular de transporte escolar. Já Oscarine passou a ir trabalhar de bicicleta.


Má qualidade do sistema é combustível para a violência

Longas esperas em paradas de ônibus e veículos lotados deixam usuários ainda mais vulneráveis à violência
Longas esperas em paradas de ônibus e veículos lotados deixam usuários ainda mais vulneráveis à violência

Às vésperas do feriado de Carnaval, a Companhia Metropolitana do Tansporte Coletivo (CMTC) anunciou o aumento da tarifa do transporte na região metropolitana de Goiânia de R$ 3,30 para R$ 3,70. A notícia nada agradável ao usuário do serviço veio acompanhada da declaração taxativa do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte (Set), Décio Caetano, de que “não há nenhuma perspectiva no momento de poder fazer investimentos e melhoria no sistema”.
A crescente violência em Goiânia é um problema social complexo, do qual o transporte coletivo é uma das facetas. Porém, analisando de forma pontual, a situação da violência contra o usuário se agrava pela falta de qualidade do sistema como um todo. Sem investimentos significativos em melhorias do transporte coletivo, a violência tende a crescer. É o que apontam os especialistas na área.
“Casos de arrastões, furtos e roubos dentro dos coletivos começam a ser uma preocupação para a sociedade”, relatam os coordenadores do grupo “Vem pra Rua Goiás”, movimento que surgiu há pouco mais de um ano no Estado e que busca, pelas redes sociais, aglutinar pessoas para lutar pela melhoria do transporte coletivo. O grupo está organizando um novo protesto nas próximas semanas em Goiânia.
Segundo o grupo, a insegurança no transporte é intensificada pela péssima qualidade do sistema. Submeter o usuário a longas esperas nas paradas de ônibus, por exemplo, é deixá-lo vulnerável a ação de bandidos.
“Deveriam investir em novas linhas, aumento da frota, pois colocando mais ônibus rodando, diminuiria o tempo de espera nos pontos, evitando possíveis assaltos”, pontua.
O sociólogo Nildo Viana, doutor em sociologia pela Universidade de Brasília e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), também considera que os casos de violência têm sido facilitados pelas más condições do transporte coletivo.
“Os ônibus superlotados, em si, já são uma forma de violência, pois o usuário paga por um serviço de péssima qualidade e que ainda o expõe a outras formas de violência”, avalia.


Monitoramento não garante segurança

Nildo Viana defende reforma geral com participação popular
Nildo Viana defende reforma geral com participação popular

Para tentar conter a crescente violência, o Consórcio da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (Consórcio RMTC), que gerencia o sistema, diz estar investindo em monitoramento eletrônico e vigilantes. Segundo sua assessoria de Comunicação, 230 ônibus já contam com os dispositivos e, no total, 1.312 câmeras estão instaladas nos terminais, veículos, pontos de apoio e garagens, áreas onde a segurança é de responsabilidade da CMTC.
“Dezenas de controladores de segurança trabalham analisando as imagem em tempo real, 24 horas por dia, sete dias por semana”, destaca a nota da assessoria. Estes terminais, continua o texto, são controlados pela Central de Segurança de Transporte do Consórcio, diretamente ligada ao Centro Integrado de Inteligência Controle e Comando da Secretaria da Segurança Pública (CIIC-SSPGO).
Assim, toda vez que há uma denúncia do usuário, feita por meio de whatsapp, os controladores avaliam a situação através da Central e do CIIC e, se necessário, acionam o Comando de Operações da Polícia Militar (Copom), que envia a viatura mais próxima do local da ocorrência. O número de whatsapp para denúncias é 8591-8952.

INEFICAZ
Na opinião do sociólogo Nildo Viana, o monitoramento por câmeras de vigilância é uma ação muito limitada, que não garante a segurança do usuário.
“E o mais interessante disso é que esse monitoramento significa despesa, que, por sua vez, poderia ter sido investida em ações mais eficazes, como a própria melhoria do transporte coletivo”, critica.
“Uma ampla reforma do sistema de transporte coletivo em Goiânia e nas demais cidades é fundamental, com a participação popular na organização do sistema”, enfatiza especialista.
Todavia, assinala o professor, o grande obstáculo é a falta de interesse dos empresários e dos governantes em resolver a questão quando a resolução atenta contra seu lucro e outros interesses.
Defender seus próprios interesses tem sido uma constante para o Sindicato das Empresas de Transporte e a CMTC. Tanto que, enquanto os usuários sofrem com a falta de segurança, o Sindicato defende que não há dinheiro para aplicar em melhorias, mas investe em campanhas para combater fraudes no transporte coletivo, como o uso do Cartão Fácil por pessoas que não são suas beneficiárias.
“Milhares de usuários reclamaram dessa campanha e destacaram que, ao invés de investir nesse tipo de ação, era preciso priorizar a segurança, a capacitação dos motoristas e colocar mais linhas de ônibus nas ruas”, salientam os coordenadores do grupo “Vem Pra Rua Goiás”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here