A morte de Nathalia escancara nossa doença

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Manoel Messias Editor Executivo

Há temas caros demais a determinadas pessoas, ainda que não estejam cumprindo mais do que uma obrigação funcional. Como escrever sobre a morte de uma estudante de 18 anos, com sonhos, futuro, tudo pela frente, mas que é brutal, estupida e inexplicavelmente assassinada? A única força capaz de mover alguém tão destruído, como deve estar o pai de Nathalia Araújo Zucatelli, é a possibilidade de usar essa terrível tragédia para que, de alguma forma, sirva para que outros crimes tais não se repitam, nunca, jamais.
Afinal, a ninguém deve ser colocado sobre os ombros um fardo tão insuportável como aquele que recai sobre o pai que tem de caminhar pesados passos carregando o caixão em que jaz sua filha. É com a força do pai de Nathalia que tento encontrar palavras para seguir este texto. Também tenho uma filha de 18 anos de idade, estudante, com sonhos, uma vida inteira pela frente. E imaginar perdê-la me deixa embargado, sufoca meu ser.
O que podemos aprender com a tragédia da família Zucatelli?
A sociedade em que vivemos está doente. Este talvez seja o diagnóstico primordial. E é uma doença severa, crônica e aguda ao mesmo tempo. Mas o diagnóstico é enganoso, porque não aponta as causas da doença. O que podemos dizer é que os sintomas são violência, criminalidade, banalização da vida e do ser humano.
As causas da doença que acomete nossa sociedade são conhecidas, mas são tantas que se torna inócuo conhecê-las assim. Precisamos separar das infinitas causas aquelas que são as principais, para podermos atacá-las, erradicá-las, enfrentá-las. Um inimigo espalhado por todo canto é imbatível, por isso é preciso cristalizá-lo, dar-lhe forma, revelando-o, para que possamos atingi-lo mortalmente, extirpá-lo.
No aspecto amplo, global, podemos nomear as desigualdades sociais como pano de fundo de locais onde a violência impera, onde a vida humana perde valor, não é respeitada. Aqui me amparo nas considerações do doutor em sociologia e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Nildo Viana, estudioso do fenômeno da violência e da delinquência.
“A violência nas grandes cidades vem crescendo no mundo inteiro. No caso específico de Goiânia, segundo os últimos dados disponibilizados, cresceu mais proporcionalmente. As maiores vítimas da violência são geralmente os mais pobres, os jovens e os negros. A população mais empobrecida é a maior vítima da violência não por carência de dinheiro para investir em segurança particular, embora isso também ocorra, e sim por algumas características como as próprias condições precárias de vida, aliado a locais de moradia em lugares com maior risco, violência policial (que atinge mais os jovens e, principalmente, os jovens negros), entre outras determinações”, observa Viana, em recente entrevista à jornalista Daniela Martins.
O estudioso observa que o Estado, nesse caso, tem um papel fundamental, pois no plano da segurança não prioriza os mais atingidos, além de não atacar a raiz do problema (condições precárias de vida) e ainda tem o agravante de ser ele o agente da violência contra essa população, tanto através da violência policial quanto da violência estatal contra os movimentos populares.
“O estado não consegue conter a onda de violência crescente pelo simples motivo de que ele é o principal responsável por tal aumento. As políticas estatais no Brasil, que já eram limitadas e paliativas, se tornam ainda mais precárias e ineficazes, o que tende a se agravar com a crise financeira e político-institucional atual”, diz Nildo Viana.
Para conter o aumento da violência – sugere o especialista – seria necessário mais investimento estatal nas áreas sociais (emprego, educação, saúde, cultura, lazer, habitação, espaço urbano em geral), reforma do sistema policial (coibindo os abusos e violência policial, organizando melhor o serviço policial, controle e fiscalização popular sobre o sistema policial, abolição da polícia militar etc.), entre outras medidas complementares.
“Contudo, o Estado, por um lado, diminui as políticas sociais e, por outro, organiza o sistema policial de forma precária, ineficaz, e com graves problemas que o tornam uma parte do problema ao invés de ser parte da solução”, conclui o Viana.
Desalentador? Sim. A solução não vem fácil. O remédio é amargo. Mas podemos dizer que o dado positivo é que cada um de nós é parte do estado, é parte da sociedade e traz em si o poder de mudar direções, apontar caminhos. Ainda que inicialmente pareça não ter influência coletiva tais mudanças, quando tomadas por cada indivíduo isoladamente acabam se conectando e, por fim, podem se transformar na revolução que tanto precisamos, que afinal nos trará paz.

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