Dois dias que abalaram a República

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Esta foi uma semana histórica no Brasil e que marcará o início de uma nova etapa na vida política nacional. Nunca antes neste país fatos políticos de tal relevância ocorreram com tanta intensidade em um espaço tão curto de tempo. Foram talvez a quarta e quinta-feira mais alucinadas no campo político brasileiro de todos os tempos.
Após a ação da Polícia Federal e Ministério Público Federal de busca e apreensão de documentos tendo como alvo o ex-presidente Lula, seus familiares e pessoas e empresas a ele envolvidas, no dia 4 de março, dava-se como certa a decretação e prisão de Lula a qualquer momento, conhecida a rigidez do juiz Sérgio Moro, que investiga, no âmbito da operação Lava Jato, desvio de bilhões de reais da Petrobrás.
Diante dessa situação, tomou mais corpo no Palácio do Planalto a ideia de levar o ex-presidente para o Ministério da presidente Dilma Rousseff, para, evidentemente, blindá-lo da ação de Moro, já que, uma vez ministro, Lula passaria a responder a qualquer procedimento criminal no Supremo Tribunal Federal, pois todos que ocupam tal cargo possuem esse foro privilegiado. E assim, na terça-feira já se dava como certa a nomeação de Lula ministro; o anúncio dependia apenas de acertos, acomodações políticas.
Então, na manhã de quarta-feira já se anunciava extraoficialmente a nomeação de Lula, o que foi confirmado por volta de meio-dia pela presidente Dilma. O que se viu a partir de então foram fatos políticos em rapidez inimaginável. A população saiu à rua em protesto contra a medida da presidente, especialmente porque, no domingo anterior, dia 13, o país recebera a maior manifestação popular de sua história contra a corrupção, a favor do impeachment de Dilma e a favor da operação Lava Jato.
Diante da confirmação da saída de Lula de seu radar, o juiz Sérgio Moro retirou o sigilo sobre as investigações contra o ex-presidente e divulgou interceptações telefônicas que abalaram o país, estarreceram políticos, inclusive aliados, e membros do Ministério Público e do Judiciário. Numa ligação de 1 minuto e 35 segundos, realizada na quarta-feira, às 13h32, Dilma diz que enviaria um “termo de posse” para Lula por meio de Jorge Messias, subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil, “para ser usado em caso de necessidade”.
Além dessa, foram divulgadas várias outras interceptações de escutas telefônicas, todas autorizadas judicialmente no âmbito da Lava Jato, em que Lula fala coisas impublicáveis e que o deixaram em maus lençóis. Além do linguajar chulo, Lula nas gravações aparece falando do Supremo, a quem chama de uma Corte “acovardada”, cita o procurador-geral da República Rodrigo Janot, a quem insinua que não retribui favores por ter sido escolhido para o cargo, além de outras conversas com políticos as quais expõem sem maquiagem as entranhas do poder. Diante dessa situação, os ânimos se acirraram nas ruas, com a população pedindo a prisão de Lula.
Na quinta-feira a Justiça Federal, após a posse de Lula, pela manhã, suspendeu à tarde a nomeação do ex-presidente para o cargo de ministro da Casa Civil.
No meio disso tudo, a presidente Dilma, além de explicar suas declarações que foram reveladas pela Lava Jato, teve de enfrentar a abertura do processo de impeachment, ainda na quinta-feira, pela Câmara dos Deputados.
O que temos, até o fechamento desta edição, é um clima de total incerteza quanto ao futuro imediato do país. Não se sabe se Lula continuará ministro, já que as liminares que suspenderam sua posse foram cassadas. Se não puder assumir, seu processo retorna para o juiz Sérgio Moro e fica Lula sob a ameaça de prisão a qualquer momento. A presidente Dilma deve ser investigada por eventual crime de responsabilidade, por tentar obstruir a Justiça, além de ter que lidar com o processo de impeachment no Congresso.
Fora isso, Lula, mesmo permanecendo ministro, corre o sério risco de não conseguir nenhuma vitória política pro governo, pois terá que se preocupar com a própria pele, uma vez que terá de responder por seus atos no Supremo Tribunal Federal. Se não bastasse, as suas conversas divulgadas praticamente liquidam com seu cacife político.

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