Em busca do tempo perdido

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O desejo de se realizar pessoalmente e conseguir um melhor emprego faz as pessoas voltarem a estudar. E boa parte daqueles que conseguem o diploma do ensino médio passa a sonhar com uma faculdade

Fabiola Rodrigues e Manoel Messias

Há décadas quem não concluiu o ensino formal tem a chance de conseguir o sonhado diploma, seja do ensino fundamental ou ensino médio. Nos últimos anos, a educação voltada para jovens e adultos que abandonaram os estudos tem passado por transformações e atraído cada vez mais alunos. Para se ter ideia da procura, neste primeiro semestre de 2016 mais de 44 mil pessoas se matricularam nessa modalidade de educação na rede estadual de ensino. Esse número é quase o dobro das matrículas realizadas no segundo semestre do ano passado, pouco mais de 27 mil matriculados.
Atualmente em todo o estado de Goiás, mais de 260 unidades escolares da rede estadual disponibilizam a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que oferece uma maneira mais rápida de aprender e concluir os estudos. O desejo de se realizar pessoalmente e conseguir um melhor emprego faz as pessoas voltarem a estudar. E boa parte daqueles que conseguem o diploma do ensino médio passa a sonhar com uma faculdade.
“Devido às exigências do mercado de trabalho, o aluno hoje sonha mais alto, quer concluir o ensino superior”, observa Fabíola Correia, Gerente de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Estadual de Educação, Esporte e Cultura.
Como ensinam pessoas de idades variadas, os professores que lecionam para jovens e adultos precisam de uma dedicação especial, já que trabalham com turmas muito heterogêneas, ao contrário das turmas do ensino tradicional. Não é raro alunos de 15, 18 anos de idade estudando na mesma sala com pessoas com mais de 50 anos de idade.
Nos últimos anos tem mudado o perfil de quem busca a educação de jovens e adultos em Goiás. E antes a faixa etária acima de 25 anos era majoritária, no ano passado estudantes entre 16 e 20 anos fizeram mais matrículas. Para Fabíola Correia, isso é sinal de que até os mais jovens estão percebendo que, se não voltarem logo para a sala de aula, não terão espaço no mercado de trabalho, por mais simples que seja o emprego.
Enquanto na educação tradicional o ensino fundamental dura 9 anos, na Educação de Jovens e Adultos esse diploma pode ser conseguido em três anos. E o ensino médio, que dura três anos normalmente, é concluído em dois anos. Os certificados e diplomas do EJA são exatamente iguais àqueles do sistema tradicional de ensino.
“O certificado do aluno que conclui os estudos pelo EJA é um documento que comprova a conclusão do ensino fundamental e médio como qualquer outro certificado do aluno que conclui os estudos em uma escola no período regular”, enfatiza Fabíola Correia.


 

Matrícula pode ser feita em qualquer momento

Fabíola Correia, responsavél do ensino EJA: “É muito importante não parar os estudos. Os desafios são superados”
Fabíola Correia, responsavél do ensino EJA: “É muito importante não parar os estudos. Os desafios são superados”

Quem deseja começar a estudar pela modalidade EJA não precisa esperar fechar algum semestre, a matrícula é aberta durante o ano inteiro. Caso o aluno tenha dúvidas de qual escola oferece o EJA, deve ligar na Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) e se informar.
“O interessado não precisa passar por nenhum processo seletivo para fazer matrícula. Precisa ter idade igual ou maior que 15 anos, para se matricular no ensino fundamental e ter 18 ou mais anos para fazer a matrícula no ensino médio”, lembra Fabíola Correia.
A gerente de EJA diz que é muito importante não parar os estudos. Os desafios para os alunos que voltam a estudar são grandes, mas transponíveis. Por isso é preciso determinação e foco para alcançar os objetivos.
“Nós tivemos alunos com 70 anos que estudaram nessa modalidade de ensino para tirar a carteira de motorista. Isso é exemplo de vida. Também dou aula para os alunos do EJA e considero isso um privilégio”, conta Fabíola Correia.


“Quero fazer um curso superior”

Tatiane Aparecida: “Os professores me deram força para seguir. É o que estou fazendo”
Tatiane Aparecida: “Os professores me deram força para seguir. É o que estou fazendo”

Já Adriane Pereira, de 33 anos, parou de estudar durante 13 anos. Ao engravidar e casar, ela precisou deixar os estudos e passou a cuidar do filho e dos serviços de casa. O marido também não aceitava ela ir à escola, mas depois de anos ela separou do esposo e resolveu voltar aos estudos. Terminou o ensino médio pelo EJA no final do ano passado e diz que não pretende parar.
“Quero fazer um curso superior, agora estou sempre buscando melhoras. Vou continuar estudando, porque quero um emprego melhor”, diz Adriane.
Existem muitos alunos que ao voltar a estudar encontram dificuldades, porém não podem desistir. É o caso da Aluna Tatiane Aparecida, de 34 anos, que estuda em uma escola EJA no Jardim Novo Mundo, em Goiânia, diz que terminou o ensino fundamental o ano passado e vai continuar estudando.
“Vou continuar meus estudos. Tinha 15 anos que eu não pisava em uma sala de aula e quando voltei me senti insegura, quase parei novamente. Os professores me deram força para seguir. É o que estou fazendo”, diz.


 

Eles conseguiram dar a volta por cima

Cleydson Ferreira: “Quando eu terminei o ensino médio, as portas se abriam pra mim”
Cleydson Ferreira: “Quando eu terminei o ensino médio, as portas se abriam pra mim”

Muitas pessoas deixam os estudos para cuidar da família, casa e filhos. Com isso, o ambiente escolar deixa de ser prioridade. Na maioria dos casos quem para de estudar o faz obrigado por alguma situação da vida. Mas há muitas histórias de recomeço e superação.
Hoje com 47 anos, Cleydson Ferreira ficou fora da escola durante 14 anos. Assim que ele voltou a estudar terminou o antigo segundo grau no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) e prestou vestibular. Foi aprovado para o curso de Matemática na Universidade Federal de Goiás e na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
Ele se tornou professor de Matemática no Ceja do Setor Leste Universitário, em Goiânia, onde estudava. Após alguns anos, se tornou diretor do Ceja e dirigiu a escola por seis anos.
“Eu me sinto realizado de todas as formas. Quando eu terminei o ensino médio, as portas se abriam pra mim. Algumas pessoas diziam que eu não conseguiria chegar onde cheguei, mas venci”, diz Cleydson Ferreira.
Hoje aos 47 anos, o ex-aluno diz que quando era diretor do Ceja usou a experiência de vida para motivar muitos estudantes. Sempre os lembrava que todos podem ir mais longe do que imaginam. Ele saiu da direção da escola, mas continua trabalhando com alunos do EJA como assistente técnico do Pronatec.

 

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