O Brasil mergulhado no caos

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Divulgação

Com ou sem o afastamento da presidenta Dilma Rousseff (PT) através do impeachment,
o Brasil deve continuar sofrendo. Essa é a opinião de especialistas que falaram à Tribuna do Planalto esta semana sobre o panorama atual da crise política brasileira

Marcione Barreira, repórter de Política

A crise jamais tinha atingido estágio tão alto na história recente da política brasileira. Perturbações no alto escalão do Congresso Nacional acertaram em cheio o Executivo nacional. O fato ajudou no andamento do processo de impeachment da presidenta Dilma Rosseff (PT) que, somado a isso, tem ainda as chamadas pedaladas fiscais que assombram o governo.
Diante desse cenário, a Tribuna do Planalto conversou com analistas políticos que fizeram uma leitura do momento vivido pelo País. Para eles, o fato de o PMDB ter se afastado do governo revela um oportunismo do partido que sempre esteve ao lado do poder. Por outro lado, a continuidade do governo não dará folga a crise nacional.
Com o pedido de impeachment em trâmite, os analistas observam que o impedimento deve ocorrer, entretanto, na política tudo pode mudar. A analise é de que o governo vai fazer o possível para barrá-lo na Câmara Federal e, caso chegue ao Senado, será muito difícil de ser aprovado. A possibilidade fica crítica ao governo caso os movimentos populares se aflorem, dizem.
Os analistas foram indagados sobre a possibilidade de melhora do Brasil com o PMDB no governo. As opiniões seguem numa mesma direção. Para eles, antes disso, é preciso que a Operação Lava Jato continue e, por outro lado, para que haja uma melhora, é necessário que seja feito um projeto de médio e logo prazos.
A seguir você confere as opiniões sobre os mesmos tópicos de três dos analistas consultados pela reportagem: o professor Itami Campos, cientista político e pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da UniEvangélica, Marcos Marinho, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e analista político e Pedro Célio, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e cientista político.


MARCOS MARINHO

Professor Marcos Marinho, analista política e professor da PUC-Goiás
Professor Marcos Marinho, analista política e professor da PUC-Goiás

O que o senhor achou da decisão do PMDB de se afastar do governo federal e do municipal?
O PMDB é um partido que não nega sua forma de atuação já há vários anos. Afeito ao poder, mas incapaz de assumi-lo diretamente, se faz presente em quase todos os governos. Sua debandada do governo Dilma foi apenas mais uma mostra disto. Provavelmente após contabilizarem lucros e prejuízos perceberam que valia a pena receber a pecha de traidores, se junto viesse a faixa presidencial. Penso no PMDB como um eterno aliado situacional dos partidos com potencial de assumir o poder, mas nunca como um escudeiro fiel em qualquer situação que lhes possa afastar do lado vitorioso.

O processo do impeachment deve passar pela Câmara e pelo Senado?
Sim, se aprovada a denúncia pela Câmara ela será julgada no Senado, sob a presidência do ministro que preside o STF. A questão a se observar é sobre o quórum necessário nas duas casas para que o governo seja impedido, o que torna a missão da oposição, mesmo com o apoio do PMDB, ainda complicada.

Caso o governo permaneça, a gestão tem condições de se recuperar? Como?
Para além do julgamento dos motivos do pedido de impeachment, percebo que o atual governo atingiu um nível de beligerância com os demais partidos, e descrédito junto à sociedade que dificilmente lhe daria a governabilidade suficiente para reverter a crise atual. Mesmo que Dilma não seja impedida de governar, não creio que contará com o apoio do Congresso para reconstruir sua imagem de gestora e assim dar continuidade ao projeto do PT.

Com o PMDB no comando, qual deve ser o futuro do Brasil?
Caso Temer realmente assuma a Presidência da República, a situação do PMDB continua tensa, pois Renan e Cunha devem ser julgados na Operação Lava Jato, o que ajudará a manter as turbulências no Planalto. Se tentarem, por estarem de fato no poder, abafar a operação, terão que lidar com a revolta popular, certamente insuflada pelos petistas que vão querer levar todos para o chão. Para governar, Temer deverá estabelecer parceria com o PSDB e demais partidos da oposição, fazendo sombra a qualquer levante dos partidos apoiadores de Dilma. Mas afirmo que também deve se manter alerta, pois não imagino que o PSDB aceite ser um coadjuvante em 2018, e, portanto, poderemos perceber a veracidade da máxima: “um dia traidor, no outro traído”. Não vejo possibilidades de melhora do País, sem um projeto de médio e longo prazos, fato que não coaduna com um processo de assunção do poder da maneira como estamos vendo. A situação, a meu ver, é crítica, pois, não dá para continuar da forma que está, mas o que parece vir pela frente também não nos inspira confiança.


PEDRO CÉLIO

Pedro Célio: PMDB revela oportunismo inconsequente
Pedro Célio: PMDB revela oportunismo inconsequente

O que o senhor achou da decisão do PMDB de se afastar do governo federal e do municipal?
Os dois rompimentos do PMDB ocorreram conforme anunciados e vinham se arrastando há algum tempo. Em Goiânia o fato vai fazer avançar os alinhamentos para as próximas eleições. Este eixo político agora vai parecer rachado em duas candidaturas, o que diminui as chances das duas e favorece os adversários vinculados ao bloco do governador Marconi Perillo (PSDB). Outro aspecto está na virulência verbal demonstrada pelo prefeito, na forma de reagir ao rompimento. Afinal, a convivência com os ex-aliados durou muito tempo para ele só ver estes defeitos agora. Curioso é que os processos, federal e municipal, nada têm em comum, apesar da simultaneidade com que ocorrem. O caso do PMDB federal revela o mais genuíno oportunismo inconsequente e irresponsável, pois joga lenha na fogueira do golpe, em nome de conquistar o poder para uma coalizão que não terá passado pelas urnas.

O processo do impeachment deve passar pela Câmara e pelo Senado?
Esse é o rito. A formalidade exige tais procedimentos, e sempre com dois terços de votos em cada etapa. Isso deve ser completado com apreciação do STF. Sobra a lamentar que as duas casas vivem terríveis déficits de suporte moral, dado que vários de seus membros são acusados de corrupção e respondem a processos, alguns já fartamente comprovados e documentos.
Caso o governo permaneça, a gestão tem condições de se recuperar? Como?
Eu vejo que, do ponto de vista político, o governo Dilma já foi derrotado, mesmo que sobreviva formalmente ao impeachment. Sua eventual continuidade já está comprometida. Não sei que cenário pode prevalecer nesta hipótese de tamanho isolamento da presidente e seu governo.

Com o PMDB no comando, qual deve ser o futuro do Brasil?
Minha primeira indagação é: a Lava Jato vai continuar ou será substituída por um arranjo de elites. A questão seria apenas tirar o PT e seu governo democraticamente constituído? Os hipotéticos futuros governantes em grande maioria são “ficha-suja”, também envolvidos nas investigações. Ao que parece as ruas deverão continuar vigilantes contra encenações para evitar a continuidade da depuração e podem não engolir um golpe assim. Se assim for, o clima de radicalização pode se tornar perigoso.


ITAMI CAMPOS

Itami Campos: Corrupção deu peso à crise política
Itami Campos: Corrupção deu peso à crise política

O que o senhor achou da decisão do PMDB de se afastar do governo federal e do municipal?
Acho que é um movimento de saída. O governo tem se notado inviável de mostrar que tem condições de reverter a situação do Brasil. Não tem demonstrado que tem condições de encontrar uma saída. A crise política e econômica tem afetado muito os brasileiros. Dilma praticamente esgotou sua possibilidade de sair da crise. Ela fica igual touro, rondando em volta do tronco. Mostrando um projeto sem alternativa. Com isso o PMDB, visto que, os movimentos de rua pediram, se afastou do governo. Os movimentos sociais apontam a saída do governo.

O processo do impeachment deve passar pela Câmara e pelo Senado?
Eu acho que passa. Principalmente se os movimentos sociais participarem. A saída melhor seria fechar o Congresso e convocar novas eleições. Estaria descaracterizando os que chamam de golpe porque passaria para as mãos do povo uma nova escolha.

Caso o governo permaneça, a gestão tem condições de se recuperar? Como?
Acho que não. Dilma mostrou que não tem capacidade para se recuperar. Ela e o PT pagam pelo erros que cometeu ao longo dos anos. A corrupção cada vez maior em seus governos deram peso muito grande na crise. Ela não ouve ninguém e fez muita coisa errada na condução da economia.

Com o PMDB no comando, qual deve ser o futuro do Brasil?
Uma eleição nacional seria melhor. Teria uma alternativa de gerar um debate. Há um certo oportunismo do PMDB, mas é uma condição de saída para o País. De fato o Brasil precisa de uma saída e como está não tem possibilidade. O PMDB tem que ser um governo que deve tentar uma conciliação nacional. Tem que se pensar num governo que corrija o que está aí. Não acho que seja o governo ideal, mas é a alternativa que tem.

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