O mito do fim do mundo e a transparência

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Jorge de Lima

Em um  de meus  artigos anteriores versei sobre como a temática da transparência afeta diretamente as vivências sociais da pós-modernidade. Ter tudo e todos evidentes diante do espelhamento da vida pelo emprego das tecnologias. Nada mais é escondido. As máscaras caíram e o “Rei esta nu”… Em outro ponto da vida do pós-moderno vivenciamos a ideia do desespero, da urgência, do tudo e todos são para ontem. O dilema existencial exibicionista afobado.
Diante deste cenário da transparência um fato psicológico de teor arquetípico e sombrio se demarca: a paranoia coletiva. Reencenando o fim dos tempos, o apocalipse, a tragédia, o sacrifício, ideia mítica advinda do imaginário. A belicosidade intensa dos dias atuais com a perda sistemática do bom senso, da razão, das ideologias, de planejamento, tem mostrado o lado caótico dos nossos dias com o evidente sofrimento pontual constante.
Mais que cenário de filmes de tragédia fantástico a vivência do fim que está próximo hoje é discurso partidário, plausível de manifestações de rua seja pela manutenção de uma governabilidade imaginada como eterna, seja por uma tola oposição que cria inimigos imaginários temendo um golpe de estado por comunistas ou alienígenas, evidenciando um surto eminente. Paranoia, delírios, mania de grandeza,falta de limites, mentiras e fantasia, medo, muito medo são o cenário comum dos dias atuais, cenário este que fundamenta políticas de estado, fraudes fiscais e contábeis, aumento de impostos e dissolução de um projeto econômico que poderia ser mais tranquilo ao povo brasileiro. Um cenário que nos remete as vivências da sombra à proporção que existe uma ampla negação dos problemas existentes pontuados à terceira pessoa. Nós que viramos eles…
Por sua vez este cenário de desespero acentua na persona o vitimísmo eterno, a mania dos colonizados e escravizados destas terras que ressoa na apatia, na fuga da realidade, no deixa para lá, no apanhar calado, no aceitar coniventemente a manipulação como uma boa vítima. Dá até pra sorrir após a surra em reconhecimento e gratidão para com nosso algoz. Apatia e massificação com muita alienação são ingredientes a farta neste fim dos tempos…
Mas o que seria da sociedade atual sem o medo e sem a paranoia para justificar o mal do grande inimigo que vai impor o fim do mundo? Esta força mítica vem crescendo assustadoramente povoando a cabeça de presidentes, fanáticos partidários, fundamentalistas religiosos, legisladores, o judiciário, parte dos meios de comunicação, chegando até nossos agressores de pijama que reclamam o dia todo que o mundo esta perdido e que o grande mal vai tomar conta de tudo… Estes casos só com muita oração, caridade e terapia! Realmente o mundo feito de corrupção, de impunidade, da belicosidade sem limites tem seus dias contados. Tudo que é feito está evidente e não há como fugir ou se esconder… é o seu fim…

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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