Sem empregos, goianos se viram como podem

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Desempregada desde novembro, Cleuza Brum investiu seu FGTS na máquina de sorvetes: “Emprego só por milagre”

Face mais perversa da crise, a dificuldade de encontrar espaço no mercado de trabalho tem prejudicado a vida de muitas famílias. Para sobreviver, muitos ingressam na informalidade, fazendo bicos e vendas de produtos como ambulantes

Daniela Martins

Depois de seis anos de dedicação ao seu último emprego, a costureira Cleuza Brum Lemes, de 47 anos, se viu, do dia para a noite, desempregada na companhia de outros 21 colegas de trabalho. Todos foram dispensados sem aviso prévio e sem acertos trabalhistas, depois que o dono da empresa simplesmente comunicou que não teria como manter as portas abertas. Era a crise econômica atingindo mais algumas dezenas de famílias goianas.
A demissão em massa aconteceu em novembro de 2015 e até hoje, quase cinco meses depois, a maioria dos 22 funcionários dispensados não conquistou uma nova vaga no mercado de trabalho formal. Fazem parte da estatística de 9,6 milhões de brasileiros que estão desempregados, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), divulgado no dia 24 de março.
Trata-se da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Contínua (Pnad Contínua), que apontou uma taxa de desemprego de 9,5% da população economicamente ativa do Brasil, no período compreendido entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. Novo recorde na taxa de desocupação desde que a Pnad Contínua começou a ser realizada, em 2012.
Professor da PUC/GO e da Faculdade Senac, o economista Paulo Borges Campos Júnior não se surpreende com os números negativos tão elevados. Antes, ressalta que já eram esperados, e são reflexos da grave situação econômica que o país atravessa. “Situação que é expressa numa queda brutal do nível de atividade econômica. Se a atividade está em queda, é natural que isso reflita diretamente no nível de emprego e, consequentemente, no nível de renda da pessoas”, aponta.
Em tempos de crise, encontrar um emprego passou a ser visto como um verdadeiro milagre. “Tentei buscar algo na área, mas até agora nada, as empresas falam que não estão admitindo porque não estão vendendo. Estou à espera de um milagre!”, resume a costureira Cleuza Brum.
O trabalhador está sentindo a crise econômica tão alardeada pelo empresariado. “Talvez esse seja o lado mais perverso da crise, muita mais que inflação elevada, a queda do número de empregos atinge diretamente o dia a dia das das famílias. Inflação é um problema grave, mas perder o emprego é uma situação mais drástica ainda”, argumenta o economista Paulo Borges.


Sem saída, trabalhador investe na informalidade

Vender produtos para pitdogs e lanchonetes foi saída para a família do motorista Lindomar
Vender produtos para pitdogs e lanchonetes foi saída para a família do motorista Lindomar

Como a vida não para nem as contas esperam, depois de não conseguir novo emprego, Cleuza Brum deu logo um jeito de arranjar um meio de levantar dinheiro para arcar com as despesas do dia a dia. Conseguiu receber parte do seu FGTS e investiu numa máquina de sorvete americano. Diariamente, monta a máquina na porta de casa e vende a guloseima para a garotada. “Tem dia que consigo  20, 40, às vezes só 12 reais… é juntar, e saber usar no final do mês”, resume.
O casal Lindomar Machado e Maria Glória Borges da Silva, ele motorista, ela professora, vive um drama parecido. Pais de dois filhos pequenos: o mais velho de dois anos, a caçula com nove meses; os dois estavam desempregados até um mês atrás. Ela conseguiu emprego. Lindomar permanece na busca.
Motorista desempregado, Lindomar saiu do seu último trabalho formal em outubro de 2015. De lá pra cá não conseguiu mais nada. “Já fui em várias empresas, dizem que vão analisar, que vão ligar e nada. Agora já tem gente que nem está pegando mais currículo, de tanto currículos que já receberam”, destaca.
“As necessidades das crianças não esperam”, enfatiza Lindomar. O jeito, então, foi buscar outra alternativa. Um amigo falou da área de vendas de embalagens, como autônomo. Lindomar foi à luta. Passou a comprar embalagens e produtos usados em pitdogs, padarias e lanchonetes e sair, de porta em porta, oferecendo. “Estou dando as minhas cassetadas e vou sobrevivendo”, ele conta.

Momento requer cautela
Enquanto a economia continuar num processo de profunda retração, haverá consequências negativas tanto na renda quanto no nível de empregos para os brasileiros. É o que alerta o economista Paulo Borges Campos Junior. Segundo o professor universitário, essa questão só será resolvida quando o país retomar o nível de crescimento e de sua atividade econômica.
Por hora, a crise econômica continua a reforçar a crise no mercado de trabalho e não poupa ninguém. “Atinge indistintamente as pess-oas, porém, evidentemente que quem tem uma qualificação melhor, embora também seja atingida, é em proporção menor. A empregabilidade dele é mais elevada”, avalia.
Sobre as alternativas encontradas para a crise do mercado de trabalho formal, o economista destaca a característica empreendedora do brasileiro.
Paulo Campos explica que o Brasil é um dos países campeões de empreendedorismo. “Aqui é onde as pessoas mais empreendem, e elas empreendem exatamente por falta de opção. As pessoas perdem o emprego e evidentemente elas precisam de uma fonte de renda. E uma das alternativas são as atividades empreendedoras”, observa.
O importante é que as pessoas busquem conhecer o mercado em que elas vão atuar, se preparem tecnicamente para abrir os seus negócios. “O empreendedorismos não pode ser uma aventura”, alerta.
“O empreendedorismo é uma atividade importante, uma alternativa para milhões de brasileiros que perderam o emprego, mas que precisa vir acompanhado de cuidado, estudos e critérios técnicos para não se transformar num pesadelo”, orienta Paulo Borges.
Nesse sentido caminha Inácio Camilo Macedo, 37 anos. Ele trabalhava com costura e há um ano deixou o emprego. A baixa produção na empresa em que trabalhava reduziu também seu salário e ele resolveu investir em um negócio próprio. Passou a comprar e revender produtos do segmento de cosméticos e perfumes.
Investiu seu tempo no conhecimento do produto e do mercado, ganhou espaço e já trouxe a esposa para trabalhar com ele. Rosania Mendes Viana Macedo, antes empregada em um salão de beleza, hoje faz atendimentos a domícilio como cabeleireira e já começou a revender os produtos com o marido. Assim, o casal mantém em alta a renda da família e cuida dos dois filhos.
Para quem acaba de perder o emprego, o economista Paulo Borges dá dois conselhos importantes para atravessar esse momento de aperto: controle orçamentário e qualificação profissional. “Estou absolutamente convencido que a melhor coisa a fazer é procurar se qualificar, procurar ser cuidadoso com o seu orçamento, evitando dívidas, evitando gastar além daquilo que ele recebe, sendo rígido em seu orçamento”, finaliza.

Paulo Campos, economista: queda do nível de atividade econômica atinge diretamente o dia a dia das famílias
Paulo Campos, economista: queda do nível de atividade econômica atinge diretamente o dia a dia das famílias

 

10 passos para organizar as finanças

Confira as orientações de Reinaldo Domingos, educador financeiro, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e autor de obras na áreas.

Pagar dívidas imediatamente? – Caso perca o emprego e esteja endividado, por mais que pareça correto quitar as dívidas com o fundo de garantia, isso pode ser um erro, pois se usar muito deste dinheiro estará sob o risco de ficar sem receitas para cobrir gastos à frente. Planeje-se melhor em relação a esses valores antes de qualquer medida.

Crie uma reserva emergencial – É preciso ter dinheiro guardado para as despesas, mas também para investir num curso e retomar a carreira. A primeira medida a ser tomada é reter os valores ganhos de fundo de garantia, seguro desemprego e férias vencidas. Esse dinheiro só deverá ser mexido após ser estabelecida uma estratégia.

Analise sua realidade – É fundamental que tenha total domínio de seus números nesse momento, portanto, se deve saber o valor que possui guardado e somar com o que será ganho. Faça um levantamento de todos os gastos mensais, desde cafezinho até parcela da casa própria.

Congele ferramentas de crédito – Cartões de crédito, cheque especial, cartão de lojas e outras ferramentas de crédito fácil devem ser prioritariamente esquecidas de sua vida; evite mesmo em caso de emergência, pois, caso não consiga pagar esses valores, os juros serão exorbitantes, criando um caminho de difícil volta.

Faça uma faxina financeira – O que realmente é prioridade para a sua vida? Pense muito bem nessa questão, pois chegou a hora de cortar muitos gastos que não agregam à vida. Priorize o que é realmente é fundamental nesse período.

Mude seu padrão de vida – Sei que pode parecer difícil, pois já se acostumou com um monte de regalias, mas é hora de reestruturação, e não de manter a pose. Nos momentos de dificuldade, a humildade é um diferencial. Então, o primeiro passo para mudar sua realidade é aceitar que seu padrão de vida mudou, e não viver de aparências.

Negocie as dívidas – ainda falando de humildade, chegou a hora de buscar os credores e ser o mais franco possível, mostrar que não quer se tornar inadimplente, mas que também não possui condições de pagamento, buscando assim diminuir os juros e esticar os débitos. Lembrando sempre de priorizar dívidas com juros mais altos e com bens de valor como garantia.

Fuja dos exploradores – infelizmente, por mais que seu momento seja de desespero, existem pessoas mal-intencionadas prontas para se aproveitarem dos seus temores. Não permita abusos; muitos tentarão tirar proveito de sua fraqueza para tentar obter vantagens. Evite promessas e garantias descabidas. Às vezes, é melhor estar com o nome sujo do que ser explorado pelas pessoas.

Busque fazer bicos – por mais que não seja em sua área de atuação, busque fontes alternativas de ganhos. Chegou a hora de deixar o orgulho de lado e buscar garantir um mínimo de renda, por mais que não seja em sua área de atuação.

Levanta e sacode a poeira – agora é hora de buscar o mais rápido possível a recolocação profissional. Use seu network, se posicione como alguém que está à espera de oportunidades no mercado. Lembre-se, as oportunidades geralmente aparecem para quem está atrás dela. Esqueça o desânimo, levante a cabeça e olhe para o futuro.

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