A pílula da discórdia

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Familiares e pacientes goianos comemoram a liberação da pílula: clamor social venceu queda de braço com a ciência. foto: paulo josé

Tema complexo e extremamente debatido nas redes sociais, o uso da fosfoetanolamina no tratamento de câncer terminal foi liberado na semana passada. Pressão social venceu resistência científica

Daniela Martins

Em tempos de discursos inflamados e polarizados, que dividem o país ganhando fôlego pelas redes sociais, a saída para o debate sobre a fosfoetanolamina sintética, a chamada pílula do câncer, foi um meio termo que atende ao clamor imediatista da população mas reforça a preocupação de médicos e especialistas na área de saúde.
A substância não é considerada medicação, porque não passou pelo crivo da Agência Nacional de Saúde (Anvisa), no entanto poderá ser utilizada, seguindo alguns critérios, por pacientes de câncer em fase terminal. É o que determina a lei 13.269, de 13 de abril último, que não deixa muito claro como se dará o processo de financiamento, produção e distribuição da pílula. E mais, quem quiser ter acesso, deverá assinar um termo de responsabilidade.
O clamor social venceu a queda de braço com a ciência, ao menos por hora. Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica – Regional Goiás (SBOC-GO), o médico oncologista Augusto Ribeiro Gabriel tem larga experiência clínica e demonstra ser contra a aprovação. “Ao passar na marra, sem aval da Vigilância Sanitária, estão jogando fora uma entidade que já é conhecida, constituída para esse fim. Pode, no futuro, trazer uma série de problemas”, critica.
O médico, que é também supervisor da Residência de Oncologia Clínica no Hospital das Clínicas, conta que há vários produtos que aparecem, ficam um tempo em voga e depois somem. “Sempre vão haver pacientes que estão em situações de uma doença terminal com muito sofrimento, que não vêem recursos na medicina, que vão buscar alguma coisa, e sempre vai haver alguma coisa para ir atrás. O que é importante? Fazer o procedimento certo. Esperar passar por todas as etapas”, reforça o médico oncologista.
Já quem sofre com a doença em fase terminal argumenta que não é contra a realização dos testes pela Anvisa, mas, por outro lado, não tem tempo pra esperar. “Não tem como, a gente não pode esperar concluir os testes clínicos, que demoram mais ou menos oito anos. Não vai dar tempo, não pode. Queríamos que liberassem agora, até que se concluam os testes ”, argumenta o coordenador do Movimento Fosfoetanolamina Sintética Goiás, Reginaldo Ferreira Barbosa.
Ele próprio tem pressa. Sua esposa sofre de câncer e a família quer ter acesso à pílula. Já tem, inclusive, liminar favorável conquistada na Justiça . “A liberação da fosfo (como a pílula também é conhecida) foi o melhor caminho. Temos que lutar com todas as armas que temos”, aponta, reforçando que, apesar de lutar pela liberação imediata, o Movimento quer a comprovação da eficácia da fosfoetanolamina pela Anvisa.
A professora aposentada Janice Brandão, 45 anos, está em tratamento contra câncer há dois anos, não precisa nem pretende fazer uso da fosfoetanolamina, mas também ficou satisfeita com a aprovação da lei. “Meu tratamento está dando certo, estou numa fase mais tranquila. Porém, durante esse tempo vi pessoas morrerem, e pessoas sendo curadas, então gostei muito de ter sido sancionada essa lei. Vai ajudar muita gente, muita gente que está desenganada por aí”, avaliou.
Essa esperança não seria segura, segundo os especialistas. “A gente não sabe nem a segurança nem a eficácia”, reitera o médico Augusto Ribeiro, que destaca um dos principais receios da comunidade médica com relação à fosfo: o abandono do tratamento convencional na busca pela pílula tida como a ‘última esperança’.
Mesmo nestes casos, o médico insiste na segurança do tratamento tradicional. “Temos tratamentos chamados de suporte, mesmo quando não há mais chance de cura. Então, porque vou dar uma pílula que a gente não conhece, sendo que tenho tratamentos que são aprovados? Vou abandonar esse tratamento e dar pílula que, como dizem, seria “milagrosa”. E, como a gente sabe, não tem remédio milagroso”.

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