Estudantes estão cada vez mais ansiosos

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A ansiedade na vida dos estudates nos últimos anos tomou uma proporção exacerbada. Especialistas recomendam atenção para evitar que as pressões da vida adulta atrapalhem o rendimento escolar

Fabiola Rodrigues

As cobranças excessivas feitas pelos pais, familiares e sociedade para que o aluno obtenha boas notas e se prepare de forma exaustiva para provas e seleções estão levando crianças e adolescentes a apresentarem graus elevados de ansiedade, refletindo negativamente inclusive no processo do aprendizado. Os sinais de ansiedade aparecem principalmente no dia de fazer uma prova, quando muitos alunos ficam tensos ou apreensivos acima do normal.
A psicóloga clínica Laís Moreira diz que os estudantes precisam ficar atentos e não deixar que as pressões da vida adulta atrapalhem o bom rendimento escolar. Ao atender diariamente somente crianças e adolescentes, que são alunos em processo de formação, ela afirma que a criança não está sendo tratada como criança. E nem adolescente sendo tratado como tal. Eles são cada vez mais vistos como as pessoas que vão mudar para melhor futuro e se esquecem de que eles precisam viver a idade que eles têm hoje.
“A criança tem brincado menos. E a brincadeira é fundamental para o desenvolvimento cognitivo dos alunos. Ela ajuda a desenvolver partes do cérebro que nenhuma matéria em sala de aula conseguiria desenvolver. O adolescente, além de se concentrar nos estudos, precisa de mais entretenimento. Quando a mente está tranquila ela automaticamente se abre para o conhecimento”, diz a psicóloga.
Basta as avaliações escolares se aproximarem para muitos alunos entrarem em pânico. Eles sentem um misto de sentimentos como medo, frustração e preocupação. Ele estudam muito mas na hora da prova dá o famoso “branco”. Isso ocorre principalmente porque eles se concentram apenas no resultado.
A cobrança feita pelos pais ou até mesmo pelo próprio estudante acabam causando uma carga emocional muito pesada, tornando um teste ou seleção mais difícil. A ansiedade na vida do aluno nos últimos anos tomou uma proporção exacerbada – diz Lais Moreira. Isso se deve às cobranças dos pais, professores e mercado de trabalho, que está cada vez mais exigente.
A ansiedade tem levado crianças e adolescentes a apresentarem sintomas de depressão. Quando ele se esforça para aprender uma matéria ou se sair bem em uma prova e não consegue, a baixa estima se manifesta no comportamento do aluno. Uma das manifestações desse problema é agressividade, seja contra colegas ou contra o próprio aluno. O estudante pode também ficar agressivo até mesmo com o professor ou cria traumas – explica a psicóloga.
“A ansiedade tomou conta das crianças e adolescentes. Muitas fazem exames e não descobrem, nada porque é uma doença emocional”, lembra Laís Moreira.
Para a psicóloga um dos problemas que causam tensão nos alunos são as formas como as provas, vestibulares e seleções como o Exame Nacional do Ensino médio (Enem) vêm sendo apresentados. Dá a entender que os alunos precisam ficar somente estudando. E assim não funciona. Cada aluno tem um limite de concentração, porém todos conseguem aprender da sua maneira.
“Os alunos precisam se sentir menos pressionados. Sabemos que hoje uma família vive com o tempo escasso para dedicar tempo para o lazer ou entretenimento, porém isso é necessário. Não vai adiantar ter dentro de uma família um grande estudioso, porém doente e frustrado”, observa.


 

A força da família pode ajudar o aluno

Psicopedagoga Jordana Balduino: família deve ajudar o aluno a superar a ansiedade no ambiente escolar
Psicopedagoga Jordana Balduino: família deve ajudar o aluno a superar a ansiedade no ambiente escolar

A ansiedade do estudante hoje é um reflexo do que a sociedade está vivendo. Isso tem chegado no ambiente escolar de uma forma negativa e marcante. O aluno é cada vez mais pressionado a se adequar em modelos econômicos e sociais que dizem que quanto antes ele aprender mais ele estará pronto para o mercado de trabalho.
Para a psicopedagoga Jordana Balduino, o papel da família em ajudar o aluno a superar a ansiedade no ambiente escolar é fundamental. Quando o estudante não se sentir capaz de fazer uma prova ou não desenvolver bem uma matéria, os pais precisam ajudá-los e não recriminá-los, como vem acontecendo.
A psicopedagoga trabalha com um projeto escolar em Goiânia chamado “Criança em questão”, orientando pais, familiares e comunidade em geral a deixar os estudantes mais à vontade e não pressioná-los para serem melhores sempre. Ela alerta aos pais que uma boa conversa com os filhos pode ser um bom caminho.
“A força da família é fundamental para ajudar o estudante sentir menos ansiedade no ambiente escolar. As cobranças precisam ser feitas por etapas para eles se desenvolverem gradativamente”, diz a psicopedagoga.
Quando o aluno passa a observar que a escola é um ambiente de aprendizado e faz parte do processo da formação humana, ele passa a querer tirar boas notas e ser um bom aluno de forma natural. Esse caminho é o mais correto para ensinar os estudantes a serem bons alunos. E os professores podem ajudar nesse processo.
“O professor deve reconhecer bem o seu papel, trabalhar da melhor forma ao ensinar o conteúdo. O processo de aprendizado também é de ensino”, lembra Jordana Balduino.


Histórias de pânico e tormento em sala de aula

A estudante Juliana Canedo, de 16 anos, sofre com ansiedade em sala de aula. O pânico dela é aprender a matéria de História. Por mais que se esforce, as notas sempre chegam baixas em casa. E ela já sabe que a mãe dela vai brigar e a deixará de castigo.
“Eu não sei por que não consigo me concentrar. Já fiz muitas coisas para tentar, mas não tem dado certo. E quando penso que no meu boletim e que na nota vai vir baixa, fico nervosa. Minha mãe me cobra melhor desempenho. E choro por isso, não sei mais o que faço”, diz a estudante.
Juliana conta que, além da pequena concentração em sala de aula para aprender a matéria, fica pensando na mãe. Ela diz que aquilo que parece ser complicado na cabeça dela vira um “monstro” maior ainda, por imaginar na repreensão que vai receber dentro de casa.
A estudante também está decidindo o curso que deseja para prestar vestibular: psicologia ou medicina. A mãe prefere medicina. E ela se sente pressionada por isso.
Outra estudante que vem sofrendo com ansiedade é Emilly Araújo, 13 anos. Ela tem problemas com a matéria de português. Cada aula para ela é como se fosse um tormento. Ela alega que a professora não ajuda na hora de repassar o conhecimento e, como ela já tem dificuldade em aprender, fica mais complicado.
“Eu acho português muito difícil. Na hora da prova eu fico nervosa e me dá branco de mais. Travo mesmo e passo mal”, diz Emilly.
Entre um dia e outro em sala de aula, a estudante conta que vai tentando aprender a matéria, mas a família em casa fica sempre acompanhando para saber se ela vai conseguir ou não melhores notas. Emilly lembra que não se sente bem com a pressão que sente e que isso só prejudica o aprendizado.

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