Elas estão no comando

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Pricila Machado (em pé) comanda sozinha, há dois anos, a Toca do Dino, bar noturno e restaurante durante o dia: “mulher tem mais garra, a sociedade exigiu isso”

Negócios tradicionalmente liderados por homens, muitos bares da Capital já são comandados por mulheres. De coadjuvantes na cozinha, elas passaram aos postos de donas

Daniela Martins

Há dois anos, quando o marido avisou que ia vender o bar que mantinha em sociedade com uma irmã dele “porque estava cansado”, Pricila não pestanejou. Convocou sua irmã para sócia e adquiriu o negócio, ingressando em um mundo totalmente novo e dando início a um ritmo de trabalho frenético.
“Pensei: ‘Mas gente, por quê?’. Eu era cliente aqui, o movimento era muito bom, o bar bombava… Por que vão abrir mão do bar?”, se questionava Pricila. Sem respostas, ela comprou o Toca do Dino, bar que fica no Setor Goiânia 2. “Foi muito difícil tudo, porque trabalhar com alguma coisa que você nunca trabalhou é um desafio. No começo, você apanha muito, mas vai se adaptando, um dia após o outro”, resume.
De lá pra cá, muita coisa mudou. A hoje empresária Pricila Alves Machado, de 41 anos, separou-se. Sua irmã logo deixou a sociedade e ela, sozinha, tocou o barco. Da sacoleira que comprava mercadorias no exterior para vender pelo Brasil afora, passou a dona de bar, responsável por gerenciar absolutamente tudo, desde as compras diárias de alimentos, consertos inesperados, contratação de funcionários, receber com um sorriso no rosto a clientela e até cuidar do caixa.
Não satisfeita em ter um bar, Pricila transformou o Toca do Dino em restaurante por quilo durante o dia. Assim, sua rotina começa diariamente às 8 horas da manhã, de segunda a segunda. É quando ela sai de casa para ir às compras, parando de supermercado em supermercado, açougues, Ceasa, atacados, na corrida em busca de promoções.
Chega ao Toca do Dino por volta das 10h da manhã, acompanha tudo, conversa com fornecedores, espera finalizar o atendimento do almoço ali, por volta das 3 da tarde, e corre pra rua de novo. “Vou em casa tomar banho para depois retornar, e aí tenho de passar em um monte de lugares… de novo”. E sempre tem uma questão inesperada pra resolver, um freezer que estraga, a balança que quebra. “Todo dia surge alguma coisa”.
E Pricila vai tirando de letra. Inclusive, aprendeu a lidar com “uns probleminhas de mão de obra” quando precisa consertar algum eletrodoméstico ou fazer pequenas reformas. “Nesse tipo de mão de obra, sinto dificuldade. Eles pensam que você não entende, e que podem cobrar o que preço que querem. E aí você tem que fazer pesquisa com um monte de gente pra ver que aquele valor não é real”, presume.
O trabalho no Toca só termina por volta de 1h da manhã. E, com tudo isso, como fica a vida pessoal? “Eu dou um jeito”, conta aos risos. “Tenho um pique muito bom, meus amigos ficam até encabulados. Consigo sair daqui e ir para um barzinho, me divertir, depois ir pra casa, dormir duas ou três horas e no outro dia trabalhar cedo”, revela.
Descanso mesmo só nas noites de domingo e de segunda, após as 5h da tarde, que é quando o Toca não abre. “Aí eu tô de boa, só pra curtir e lavar forro (de mesa, do bar)”. É quando Pricila cuida, também sozinha, da sua casa. Foram dois casamentos, dois divórcios, e ela optou, já na primeira união, por não ter filhos. “Criança vai tomar muito meu tempo e eu prefiro viajar, trabalhar, cuidar da minha vida, do que cuidar de outra vida”, diz.
Toda essa rotina extenuante não tira de Pricila nem a alegria nem a vaidade. A todo momento, ela é só sorrisos para qualquer um que chega mais perto, seja um cliente, amigo, funcionário… Simpática e muito bem arrumada, conta que não abre mão de se cuidar. Mesmo cansada faz questão de escovar o cabelo e de se maquiar, todo dia, antes de partir para as noites no Toca do Dino.
Para finalizar, uma perguntar: mulher tem mais garra, Pricila? “Eu acho, a gente precisa ter. A sociedade exigiu isso”.


Casal de empreendedoras

Adriana Junqueira e Kamylla Moreira, companheiras e sócias na Cervejaria Mandala
Adriana Junqueira e Kamylla Moreira, companheiras e sócias na Cervejaria Mandala

Mais que vender cervejas e petiscos, as sócias Adriana Junqueira, 28 anos, e Kamylla Moreira, 27, “valorizam a experiência das pessoas” que frequentam o Mandala Cervejaria, o charmoso bar rodeado por árvores, próximo ao Campus II da Universidade Federal, no Setor Itatiaia.
Além de sócias, as duas são companheiras. “Somos casadas, pode colocar aí”, deixa claro Kamylla. As duas se conheceram trabalhando em outros bares. Adriana já tinha mais experiência na área, muitas ideias na cabeça, só que sempre se via limitada na hora de colocar seus projetos em prática nas empresas em que era apenas funcionária.
Resolveu trocar de lado. Sem dinheiro, e cheias de coragem e companheirismo, as duas decidiram arriscar. Há um ano e três meses, Adriana e Kamylla abriram as portas do Mandala. “Quando o primeiro cliente entrou, a gente estava chegando com as compras de comida, limpando aqui, e ele nos ajudou a terminar de limpar, colocou a mesa e disse que queria tomar uma cerveja”, recordam.
Foram elas que cuidaram de tudo. Desde a reforma e decoração do local, escolha do cardápio, da comida e bebidas, até a definição da montagem dos pratos. Tudo feito com muita atenção a cada detalhe e capricho, facilmente percebido no resultado final. O lugar é um charme. “Na época da reforma, as pessoas passavam, viam a gente com lixadeira na mão, e arregalavam os olhos…”, lembra Kamylla.
Jovens e mulheres, elas avalaiam que houve, sim, um certo preconceito. Muitos fornecedores não deram tanto crédito às duas, não facilitaram as coisas, tanto quanto teriam feito caso fossem homens empreendendo. Elas contam que ainda hoje observam alguns olhares preconceitusos. “Se chegam lá dentro e atrás do balcão estamos nós duas e tem um homem, o cliente se reporta a ele, como se ele fosse o dono. Aliás, sempre perguntam pelo ‘dono'”, observa Adriana.
E ela complementa que há também toda a simplicidade das duas, o que contribuiu, de certa forma, para o preconceito. “Fazemos o que é preciso, estamos na cozinha, lavando o banheiro. Nas multinacionais, é comum isso, o dono tem que passar em todas as etapas do negócio para saber administrar”, explica.
“Meu sonho é viver num mundo onde ninguém se assuste com a mulher no comando, num mundo igualitário”, salienta Kamylla.
No começo da Mandala Cervejaria havia somente mulheres trabalhando. Hoje, dos 11 funcionários, seis são homens. “Meu sonho era que todos fossem mulheres, mas tem certos serviços que são mais complicados, pegar peso, por exemplo”, completa Adriana.
“Nós nos tornamos empresárias da noite para o dia, sem capital, e a gente soube tirar tudo de letra. É preciso ter força de vontade, garra e criatividade”, resumem as duas, que finalizam: “Estamos prontas pra qualquer coisa”.


O quinteto fantástico

Maria, Edna, Jéssica, Irani e Helia: luta, companheirismo e simpatia no Wisquinão Bar
Maria, Edna, Jéssica, Irani e Helia: luta, companheirismo e simpatia no Wisquinão Bar

Quando os pais das irmãs Maria Teodoro, 67, Helia Teodoro, 64, Edna das Graças, 57, e Irani Maria, 53, deixaram a cidade de Nova Veneza para se instalar em Goiânia, não imaginavam a história de cumplicidade que suas filhas construíriam por aqui. Com as economias, o pai comprou um lote no setor Marechal Rondon e, para agradar as filhas, construiu uma mercearia de tábuas com intuito de vender frutas, verduras e alguma bebida. O cômodo era pequeno e o comércio, tímido. Não deu muito certo.
Cada filha tomou seu rumo. Maria Teodoro por mais de duas décadas trabalhou na área de cobrança. “Ela era brava”, recorda a irmã Helia. Lá pelos idos de 1991, a idade já estava preocupando, e Maria decidiu dar uma reviravolta na vida. Pediu as contas e pretendia montar uma lanchonete. “Só que fiquei longe da avenida e lanchonete não ia pegar, passei pra bar”, sintetiza.
Para tocar o negócio, vendeu um apartamento que tinha em Aparecida de Goiânia, pegou metade do dinheiro e investiu. Nascia ali o Wisquinão Bar. “Sobrou um pouco do dinheiro e eu guardei, depois construímos um sobrado, e todo mundo mora aí (as quatro irmãs). Tudo tirado daqui”.
Na sequência, Helia Teodora, que era funcionária pública, se aposentou e foi trabalhar com a irmã. A mais nova, Irani Maria, depois de se casar, ter a filha Jéssica, se separou, e se juntou às duas na labuta do bar. Por último, Edna, que trabalhava num escritório, seguiu o mesmo caminho, hoje é a responsável pela cozinha.
A partir daí se passaram 24 anos. Jéssica cresceu, formou-se em arquitetura e, agora, trabalha durante o dia fora e, à noite, ajuda na empresa da família. “Todo mundo admira a nossa coragem, porque o único homem que nós temos é esse”, revela Maria, apotando para o garçom, que chega à casa, por volta das 6 da tarde.
A essa hora, tudo já tem de estar pronto. E é Maria Teodoro quem sai para as compras. Ela e Jéssica são as únicas motoristas da turma, e como a sobrinha fica fora durante o dia, é Maria quem enfrenta o vai-e-vem.
Enquanto isso, as outras três irmãs preparam o bar, tem a arrumação do espaço, e a confecção dos temperos, no tradicional pilão de madeira. “É o dia todo batendo tempero no pilão”, aponta Helia, a menorzinha da turma.
Na vizinhança, todos gostam das irmãs. “Somos muito respeitadas”, adianta Maria. “Fazemos nosso trabalho, e aos domingos vamos cuidar das nossas obrigações em casa, descansar ou não… E continuamos a vida assim”.
“Tem pessoas que vimos nascer, vimos a mãe grávida, e hoje estão casadas. Elas chegam aqui e a gente vê, pensa, ‘uau, não pode, já passou isso tudo?’”, conta Helia.
As três irmãs mais velhas não se casaram nem tiveram filhos. A caçula presenteou a todas com a sobrinha Jéssica. E é quem deve receber, futuramente, a tarefa de tocar o negócio da família e perpetuar essa história. Uma história de tamanho companheirismo que, certamente, encheria de orgulho os pais dessas lindas senhoras detrás do balcão.


 

Em Goiânia, 60% da clientela é formada por mulheres

A história da origem dos bares, ou a história da cerveja que nos leva aos bares, remonta ao Egito Antigo, quando surgiram as tabernas, locais onde se produzia cerveja. Segundo historiadores, eram nas tabernas que as pessoas se reuniam para tomar bebidas alcoólicas e provar comidas locais. O mais interessante é que, à época de seu surgimento, as responsáveis pelas tabernas eram as mulheres.
Tantos anos se passaram. A taberna virou bar, boteco, bar do copo sujo, pubs… e elas continuam por lá. Levantamento promovido pelos organizadores do concurso Comida di Buteco, com base no público que visitou os bares brasileiros em 2015,  aponta que 53% dos frequentadores de botecos são mulheres.
“No caso de Goiânia, é mais de 60% e isso se reflete atrás do balcão. Elas começam a ter uma voz mais ativa no negócio. Em Goiânia, a gente tem bastante botecos que são tocados por mulheres”, avalia o coordenador regional do Comida di Buteco 2016, Elmo Santos.
“Enxergamos muito bem essa mudança no rumo dos negócios dos botecos, que são tocados por mulheres. É muito gratificante porque elas acabam tendo uma preocupação muito alta em todos os quesitos. A mulher por si só é mais zelosa e isso reflete nos negócios”, explica.

CONCURSO
Concurso nacional, com participação de 20 cidades brasileiras, o Comida di Buteco 2016 vai até 15 de maio. Em Goiânia, 31 bares disputam o título de melhor boteco, entre eles o Toca do Dino, com o petisco “Tilápia da Toca”, e o Wisquinão Bar, com o petisco “Kibitos”.

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