Belicosidade

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Jorge de Lima

Dia Internacional da Mulher estou na fila do caixa do supermercado aguardando minha vez para ser atendido. Uma jovem mulher na minha frente paga suas compras. A caixa do supermercado lhe dá o troco e agradece. Porém, entre o inferno e o céu existe um imenso purgatório. A mulher a minha frente começa inusitadamente a soltar toda sorte de palavrões, impropérios, vórtices, decassílabos, e espernear dizendo que a caixa era desonesta, burra, imbecil, que não sabia dar troco, que ela não iria pagar de santa levando calote…O gerente do supermercado se aproxima vendo a confusão e questiona o que está ocorrendo e a caixa pede a senhora que confira o troco. A mulher então confere o troco e vê que cometeu um equivoco, não tendo prestado atenção no dinheiro que recebeu.
Adorei quando o gerente pede a senhora que se retrate na frente de todos por que a senhora havia humilhado desnecessariamente a caixa do supermercado e que isto poderia até se transformar em uma ação judicial… pra que tanta agressividade e tanta raiva? Você sai de casa querendo brigar ou descontar nos outros sua frustração? Sua vida está tão ruim assim? Fico admirado de como hoje em dia autoridades jogam partes da população uma contra as outras acirrando a animosidade.
Hoje, diariamente, vejo em nossa sociedade, nas ruas, nas redes sociais, pessoas destemperadas, vivenciando a mais pura belicosidade, raiva, agressividade, o instinto entre ataque e fuga, o lado animalesco do ser que ladra e morde, sempre que sente se ameaçado ou fora de si. Vivemos uma ampla violência urbana que inicia com pessoas destemperadas, no mais puro desequilíbrio, transformando a fofoca em fato histórico, distorcendo a realidade, em paranoia, terminando tudo em violência.
Tudo hoje é  pautado pela violência, nosso lazer, política, a existência dos inimigos imaginários, o monstro do grande capital que vai devorar tudo e todos…
Hoje é cena comum encontrarmos pessoas em desequilíbrio, irritadas, com raiva,  no trânsito, no supermercado, na igreja, na fila do banco, no estacionamento, em praticamente todos os lugares. São os que  estão certos, os que sempre tem razão, os que se acham injustiçados, os que usam do vitimísmo para ter como álibi e válvula de escape sua agressividade. Estes mesmos indivíduos são reflexo do egoísmo, da apatia, muitos ditos ateus descrentes de tudo e todos, pessoas com vida vazia e que tentam por sentido em sua existência brigando. Em sua dinâmica psíquica são seres solitários  que por sua belicosidade e destemperança atacam gerando animosidade na sequencia são atracados ou perseguidos por provocarem a situação, o que negam voltando se ao papel de vítima. Um ciclo vicioso neurótico, Complexo e Sombrio no qual a Persona de vítima é reforçada: “é perseguição política, ideológica eu não fiz nada estão inventando tudo”…
Se queremos sobreviver neste caos e selva devemos não retroalimentar este processo, que hoje em dia facilmente volta se contra quem o incita. Mais que nunca diante da crise ideológica, moral, ética, econômica necessitamos manter o equilíbrio. Evitar entrar em confusão desnecessária sobre a pena de perder a paz e as chances de crescimento. Nada justifica a agressividade e a violência e por isto cautela é uma boa reflexão! Especialmente quando em todos os cenários sociais a violência é instigada de forma irresponsável…

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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