Cidade cheia de obstáculos

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Sem fiscalização, calçadas de Goiânia permanecem mal cuidadas e cheias de obstáculos para os portadores de deficiência

É preciso mais conscientização da sociedade e fiscalização do poder público para fazer valer os direitos de acessibilidade e inclusão dos portadores de deficiência

Daniela Martins

Débora era uma adolescente típica, cheia de energia, praticava esportes, dança, estudava. Começou a sentir dores nas costas, e não deu muita importância. Uma noite dormiu bem, acordou no dia seguinte com o corpo imóvel. “Só me mexia do pescoço pra cima. Foi um susto, um trauma muito grande”, recorda. Ela tinha 16 anos. Os médicos não souberam explicar muito bem a causa, mas Débora sofreu uma inflamação na medula que atingiu a coluna e resultou na paralisia.
Hoje, 15 anos depois, Débora Fontenele Carvalho está reabilitada. Recuperou os movimentos dos braços e teve de reaprender tudo, a começar por escovar os dentes sozinha. Porém, não voltou a andar. “É uma nova vida, com novos desafios, uma nova realidade”, resume. Todo dia, a vida lhe desafia, sobretudo na hora de fazer valer um direito básico, o de ir e vir.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que Goiás possui uma população de 376 mil pessoas com deficiência motora. Gente que, assim como Débora, tem seu direito desrespeitado pelo poder público e pela sociedade diariamente. Se de um lado falta fiscalização mais eficiente; de outro sobram descaso e indiferença.
“Para uma pessoa com cadeiras de rodas, Goiânia é uma cidade intrafegável”, sentencia Maria de Fátima Carvalho, conhecida como Clara. Há 21 anos, ela abraçou a bandeira de luta dos portadores de deficiência, esteve à frente da Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás (Adfego) e atualmente é Secretária Executiva estadual da Pessoa com Deficiência da Secretaria Cidadã.
Ciente dos desafios, Clara enumera os entraves que atrapalham a acessibilidade e dificultam a inclusão das pessoas portadoras de deficiências. “São obstáculos demais. Os comerciantes usam muito as calçadas, motoristas estacionam em frente às rampas, há buracos nos passeios públicos, toda dificuldade que você imaginar, a gente enfrenta muito”, desabafa.
Apesar de ser proibido por lei, é rotineiro ver os comerciantes goianienses invadirem as calçadas com mesas de bar e exposição de mercadorias para venda. Nas ruas de Campinas, na região da 44, no Centro da Capital, onde é intenso o fluxo de pessoas,  é comum o comércio dificultar ou mesmo impedindo o trânsito de pedestres e cadeirantes. “As calçadas têm muito o que melhorar, é um total desrespeito, a fiscalização é falha. Eu não ando no Centro fácil, por conta da buraqueira”, relata a aposentada Márcia Serrano, de 46 anos, voluntária da Adfego.

Márcia, Clara e Débora: falta consciência à população que não vivencia essa realidade
Márcia, Clara e Débora: falta consciência à população que não vivencia essa realidade

As rampas da rua 10, no setor Universitário, uma conquista recente são outra decepção. Márcia conta que já sofreu um acidente ali, porque a rampa é bastante íngreme, e como ela não tem muita força nos braços em razão de uma cirurgia nos ombros, sua cadeira de rodas virou. “Foi um susto, um constrangimento”, relata.
Márcia teve paralisia infantil com 1 ano e seis meses de idade. “Mas a paralisia não me atrapalhou em nada. Eu estudei, fiz faculdade, fui casada, tive filhos, netos”, conta. Tem um carro adaptado e dirige, só reclama da falta de educação dos motoristas, que não respeitam as vagas de estacionamento reservadas. É uma burocracia para a gente conseguir o cartão que dá direito ao uso dessa vaga e vem outro condutor, sem respeito, que não precisa, e ocupa aquele lugar. “Infelizmente para você ter consciência tem que sentar na cadeira de rodas”, lamenta.


Preconceito e ônibus com rampas estragadas

A Adfego emprega atualmente 48 pessoas em seu call center, o Disk Detran. Todas são portadoras de algum grau de deficiência motora e muitas dependem do transporte público coletivo para ir e vir. Uma rotina cansativa e, por vezes, indignante. “A sociedade não respeita”, reforça Maria de Fátima Carvalho, a Clara.
Clara contesta a informação das empresas concessionárias do transporte coletivo de que teriam 93% de sua frota acessível. “A realidade é bem diferente, além de não ter essa acessibilidade, os elevadores vivem estragados e os motoristas não são capacitados, acham que estão prestando um favor, quando na verdade, é uma obrigação”, aponta.
A falta de acessibilidade no transporte público dificulta inclusive a inserção no mercado de trabalho. “O mercado está aberto, mas às vezes a pessoa não consegue chegar por conta de obstáculos na calçada, no transporte”, explica Clara.
Débora Fontenele, que trabalha na Adfego há cinco anos, precisa pegar ônibus todos os dias. De casa para o trabalho, além da longa distância, enfrenta uma viagem cansativa e cheia de empecilhos. “Os motoristas são impacientes, não gostam de nos pegar, às vezes passam direto e até falam que não vão carregar a gente ou dá desculpa que a rampa (de acesso para a cadeira de rodas) não está funcionando”, diz.
Sem carro, ela depende dos ônibus para se ir e vir a qualquer lugar, seja a trabalho, lazer ou estudos. Mas na hora de fazer algo fora da rotina há sempre uma avaliação. “Olho muito a acessibilidade antes porque é muito cansativo, não é só o ônibus, as ruas também não ajudam. As vezes os ônibus até chegam, mas tem as calçadas…”, finaliza.
O call center José Natal, 47 anos, não usa cadeira de rodas, mas tem mobilidade reduzida. Também é usuário de ônibus e lista as dificuldades que enfrenta. “É calçada com carro estacionado, ponto de ônibus com lama, calçadas cheias de buracos que não servem para deficiente, nem uma pessoa normal passar”, sentencia. “Falta fazer uma panfletagem, uma campanha voltada para a conscientização da população”, avalia.


É preciso mais vontade política e fiscalização

André Jonas: “Cápsula do Tribunal de Justiça vive estragada”
André Jonas: “Cápsula do Tribunal de Justiça vive estragada”

O Brasil é país de destaque, segundo a Organização Mundial da Saúde, quando o assunto é legislação para resguardar os direitos das pessoas com deficiência. Falta colocar tais leis em prática, fiscalizar e promover a conscientização da população.
Para Maria de Fátima Carvalho, a Clara, falta vontade política. “A gente tem que começar a pensar no futuro, porque se não a gente nunca vai sair dessa mesmice, temos que pensar na cidade como um todo e não apenas na acessibilidade de uma rua”, assinala.
“A questão da acessibilidade é de suma importância para a inclusão da pessoa com deficiência. Com o direito de ir e vir tolhido, automaticamente a inclusão não acontece”, reforça o vice-presidente e advogado da Adfego, André Jonas, 35 anos. E hoje, ele completa, além de lidar com a falta de consciência do poder público, a gente ainda lida também com a falta de consciência da própria população, como a questão das calçadas.
“A pessoa com deficiência tem que trabalhar, estudar, buscar melhoria de vida sempre. Ela tem que ter um lazer, uma vida social, como ela vai ter isso se não tem acesso à rua, ao mercado de trabalho, porque vai ter que enfrentar um ônibus que não tem acessibilidade?”, questiona o vice-presidente da Adfego.
André Jonas cita o Tribunal de Justiça do Estado como um ponto crítico de acessibilidade na cidade de Goiânia. Ali, como advogado, ele precisa ir com frequência e o estacionamento fica na rua detrás do prédio. O acesso ao Tribunal se dá, portanto, por escada ou por uma cápsula, que, ressalta, vive estragada. “A cápsula nunca funciona, quando a pessoa com deficiência desce ali no TJ, que é a nossa casa do Poder Judiciário para poder fazer valer os direitos, tem que dar toda volta no prédio para ter acesso ao órgão pela frente”, relata.
De novo, vem toda a dificuldade da calçada, que não é de piso liso e sempre cheia de obstáculos.
“Para quem anda de cadeira de rodas é uma dificuldade muito grande. Além disso, não tem piso tátil, que é o que auxilia o deficiente visual no contorno para poder ter acesso ao prédio”, explica André. “É muito complicado, é um órgão que vou com frequência, e que não me atende”, critica.
O psicólogo Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual e também sofre para andar por Goiânia. “A acessibilidade é muito ruim, péssima, há desnível nas calçadas, obstáculos no meio do passeio público, os sinaleiros não têm sinais sonoros. Estamos uns 100 anos atrasados em relação a outras cidades”, destaca.
“Faltam vontade política e conscientização da população. A lei não é aplicada e o Ministério Público não fiscaliza, o MP poderia funcionar mais neste sentido, fazer valer as leis”, ressalta o psicólogo.
Um pouco de empatia também ajudaria nesse processo de acessibilidade e inclusão social dos portadores de deficiência. “Eu andava normalmente, com todo salto alto, sem pensar no próximo, e de repente sofri um acidente”, conta Clara, que aos 29 anos, ficou tetraplégica.
“A gente não pensa que pode ter um obstáculo na vida e, de repente, um degrau, um buraco faz uma diferença danada para você se socializar novamente. Temos de fazer coisas conscientes para uma vida melhor, uma cidade melhor, um país melhor”, destaca ela. E que isso seja responsabilidade de todos nós.

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