Crise empurra alunos da rede particular para escola pública

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Com a economia pressionada e a inflaçaõ em alta, vários estudantes da rede particular de ensino estão inadimplentes. Devido a esses fatores muitos alunos estão sendo obrigados a deixar o ensino privado

Como reflexo, escolas estaduais receberam aumento de 10% nas matrículas este ano, boa parte de alunos que estudavam em escolas particulares

Fabiola Rodrigues

A crise econômica e política que vem assolando o País e tem deteriorado os indicadores socioeconômicos está causando reflexo negativo no bolso de muitas pessoas. A situação da economia nada favorável tem afetado também as escolas particulares. O lema hoje é reduzir gastos, mesmo que essa redução seja involuntária. Com a inflação em alta, desemprego e salário em baixa, muitos estudantes das escolas particulares estão migrando para a rede pública de ensino.
Muitas famílias tiveram que cortar gastos e em muitos casos não restam outra alternativa a não ser transferir os filhos da rede particular para uma escola pública. A Federação Nacional das Escolas Particulares divulgou que as escolas particulares perderam entre 10% e 12% das matrículas em 2016, por causa, principalmente, da crise financeira.
As escolas estaduais do estado de Goiás tiveram aumento de 10% nas matrículas, em parte devido à chegada de estudantes oriundos da rede privada. E a tendência é que essa debandada continue, com mais alunos se matriculando nas escolas públicas.
O superintendente de Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte, Wisley Pereira, confirma essa tendência e explica que os pais continuam procurando as escolas estaduais.

Superintendente Wisley Pereira:  pais continuam procurando as escolas estaduais
Superintendente Wisley Pereira: pais continuam procurando as escolas estaduais

“O aumento da procura pelas escolas públicas é um fato. Vários alunos que estudavam em escolas particulares hoje são nossos alunos. Sei que a crise no País está fazendo com que isso aconteça. Estamos recebendo muitos estudantes oriundos de escolas particulares, na fase final do ensino fundamental. E também estudantes do ensino médio”, diz o superintendente.
Com a economia pressionada pelo aumento geral de preço, as mensalidades das escolas sofreram reajuste. O diretor do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino de Goiânia, Flavio de Castro, diz que os pais estão com muita dificuldade para manter o pagamento das mensalidades em dia.
“Tenho observado que muitos diretores nas reuniões estão falando sobre o problema de receber a mensalidade dos pais. Muitos estudantes estão inadimplentes. Infelizmente é uma realidade que estamos enfrentando”, afirma o diretor.
A falta de condição dos pais efetuar o pagamento das mensalidades implica no acúmulo de juros também. Essa dificuldade de acertar as dívidas no ambiente escolar é um dos fatores que tem levado alunos a mudar de escola. Os pais estão percebendo que a situação financeira não é favorável e precisam tomar decisões. Como trocar os filhos de instituição de ensino.

O professor Gesmar Vieira, coordenador do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, diz que não é preciso fazer grandes esforços para observar que a situação atual do País é crítica. Ele relata que o número de alunos inadimplentes é resultado do desemprego crescente, do aumento de vários produtos de consumos rotineiros, enfim, da inflação. Nessa perspectiva os pais dos estudantes não encontram outra saída. O atraso da mensalidade vira um problema crescente.
O economista alerta que a melhor solução é não acumular as dívidas. E evitar os juros para que o problema não vire uma bola de neve. Na área da educação, o melhor é negociar com a escola.
“A escola dificilmente vai abater preços. Ela pode reduzir taxa de juros e, o mais importante, muitas das vezes alargar os prazos. Em vez de pagar as mensalidades atrasadas de uma vez, pode dar um tempo para efetuar o pagamento de uma mensalidade para a outra”, explica o economista.

Economista Gesmar Viera: devido à crise muitos pais não conseguem pagar as mensalidades
Economista Gesmar Viera: devido à crise muitos pais não conseguem pagar as mensalidades

Gesmar Vieira diz que, na comparação entre os meses de março de 2015 e de 2016, o aumento da inadimplência na rede particular foi de 4,5%, já atingindo o índice de 13%. Em anos anteriores o índice não ultrapassava os 8%. Com a receita em queda, muitas escolas particulares começaram até a dispensar funcionários e professores.
O superintendente Wisley Pereira diz que a rede estadual de ensino está apta para receber o estudante da rede particular. Ele garante que há vagas para mais alunos. Wisley Pereira diz que esse momento serve também para melhorar o ensino público.
“Podemos transformar um momento de dificuldade em oportunidade. Com a chegada desses alunos os pais têm a chance de conhecer como são nossas didáticas de ensino. Essa vontade de melhorar o aprendizado em nossa rede de ensino só aumenta”, observa o superintendente.


Estudante tem de se adaptar à nova realidade

A recessão econômica está levando muitas famílias a mudar os hábitos e reduzir ainda mais os gastos que geralmente são necessários. Isso tem afetado o consumo e outras áreas onde é possível diminuir as compras, mas no caso da educação a redução é complicada. A inflação pressiona o valor das mensalidades escolares e aí não resta muita alternativa aos pais. Alguns então transferem os filhos para a escola pública.
A servidora pública municipal Azenete de Oliveira teve de mudar a escola da sobrinha que vive sob sua responsabilidade. Taynara Oliveira, de 13 anos, estudava em um colégio particular, mas desde o começo deste ano passou a estudar na rede municipal de ensino em Goiânia.

Taynara Oliveira: “Tudo no colégio era estranho, agora que estou me acostumando com a escola municipal”
Taynara Oliveira: “Tudo no colégio era estranho, agora que estou me acostumando com a escola municipal”

“Não queria tirar minha sobrinha do colégio em que ela estava, mas precisei fazer isso. Esse momento de crise econômica impediu ela de continuar na escola particular”, diz Azenete de Oliveira.
Taynara Oliveira diz que quando ficou sabendo que precisava mudar de escola se sentiu muito triste, porém teve de aceitar a mudança.
“Desde o começo deste ano, estudo em uma escola municipal. No início tudo no colégio era estranho, os amigos, as aulas, lá não tem cantina. Mas agora está melhor, estou me acostumando”, diz a estudante.
A situação financeira na casa apertou e agora a auxiliar de professora, está fazendo bombons para ajudar a completar a renda. Além dela ter trocado a sobrinha de instituição de ensino, precisou fazer “bico”, mesmo tendo o emprego fixo.
O economista Gesmar Viera diz que as pessoas estão com as finanças estagnadas devido ao aumento dos preços em geral, por causa da crise econômica e política que passa o país. Com aumento dos produtos, alimentos, água, energia, telefone, a família eleva os gastos diários, o que dificulta a manutenção do filho na rede particular.

Muitas famílias tiveram que cortar gastos e, em muitos casos, não restou outra alternativa a não ser transferir os filhos da rede particular para uma escola pública
Muitas famílias tiveram que cortar gastos e, em muitos casos, não restou outra alternativa a não ser transferir os filhos da rede particular para uma escola pública

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