O dedo podre

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Jorge de Lima

Boate e balada! Casa noturna cheia. Mais de 5 mil frequentadores. Espaço sobreposto a cotovelada e pisão no pé. Na noite, centenas de rapazes e moças disponíveis na caça. Com quem vou ficar hoje? Será que vou encontrar meu grande amor? Ela ali, vai toda produzida tentar-se a tentar. Olhares, dança, tudo tornando o corpo em vitrine. Mas na lei de Murphy e da vida, ela acaba sendo atraída no meio da multidão pelo que menos deveria gostar: o estelionatário posando de milionário clonando cartão de crédito ou o pequeno agressor egoísta que vai lhe pisar no calo durante os dois próximos anos. Por que seu desejo lhe trai?
Dedo podre é quem gosta de andar mal acompanhado para não ficar só,  quem gosta de viver de migalhas quando a temática envolve relacionamentos, é quem vive em um masoquismo, acreditando que amor é sofrimento .  Dedo podre traduz a falta de amor próprio, a necessidade de sofrer para sentir-se vivo, o auto boicote advindo de péssimas escolhas afetivas.
Quase todo mundo com dedo podre acha o seguinte: “Um dia ela (ou ele)  vai mudar”; “Comigo vai ser diferente”; “Ele me trata mal porque no fundo gosta de mim”; enfim, a pessoa, além de se boicotar, acaba bancando a cega, negando perceber os defeitos alheios, em um intenso processo de racionalismo no qual sempre tem uma desculpa, justificativa para suas ações e escolhas erradas ou sempre um álibi para quem o tortura. Será que isto traduz o que poderíamos chamar de gostar de sofrer?
A falta de amor próprio por vezes é tão interessante que muitos indivíduos acreditam piamente que só atraem parceiros errados por azar. Mais uma desculpa. Todavia o auto boicote enraizado no inconsciente afasta pessoas boas, parceiros ideais, o verdadeiro amor e o romance com final feliz.
Outra forma de viver com o dedo podre é o convívio intenso com quem não presta, com quem só faz asneira. Sabe aquele seu amigo que já capotou o carro oito vezes? Você vai deixá-lo dirigir seu carro? Vai pedir pro “chegado” totalmente enrolado com dívidas pra retirar o dinheiro em sua conta, lhe informando sua senha? Você vai realmente pedir conselho afetivo pra sua amiga encalhada que não dá certo com ninguém? Dedo podre é falta de consciência crítica aliada ao auto boicote, traduz a vida instintiva em armadilhas criadas pela própria pessoa, negando a si mesma uma vida tranquila. Muitas pessoas, por não saberem falar não, por terem dificuldade em colocar limites, acabam criando armadilhas intensas na vida, sempre refletindo a falta de amor próprio e autocuidado. Pecando por omissão, por negligencia, por apatia frente à própria vida, depois de entrar em um problema por convívio negando ainda sua própria responsabilidade frente a sua ação errada, normalmente projetando no outro toda culpa por sua falta de amor próprio e auto boicote.
Para mudar esse tipo de atitude é necessária uma reformulação de toda estrutura afetiva, começando pelo inconsciente. Um trabalho que exige esforço, mas que tem sua recompensa. O individuo deve primeiramente rever o que representa para ele sua forma de amar. Depois perceber sua estrutura interna de auto boicote e a reverter com a ajuda de um profissional.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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