Na infância é que se aprende a estudar

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Neuropsicóloga Caroline Dias: “É ignorância achar que não conseguir aprender é simplesmente preguiça do aluno”

Sem acompanhamento adequado para diagnosticar o real problema, estudantes da primeira fase se sentem pressionados e acham que são os únicos responsáveis por seus fracassos escolares

Fabiola Rodrigues

A primeira fase do processo de aprendizagem é crucial para que a criança apresente no futuro bom desempenho nos estudos. Porém muitos alunos ainda na infância apresentam alto grau de dificuldade para aprender. Estudos realizados por psicólogos apontam que as dificuldades de aprendizagem atingem 50% dos alunos nos seis primeiros anos de escolaridade. O resultado é um considerável número de crianças com problemas para desenvolver o raciocino.
O trauma da incapacidade de aprender vem sendo um problema crescente no meio estudantil. Especialista em neuropsicologia, a psicóloga Caroline Dias diz que tem recebido muitos alunos em seu consultório com graves dificuldades de aprendizado, devido a problemas físicos, mentais, emocionais, escolares ou familiares que aparentemente podem parecer não influenciar a criança.
“As condições pedagógicas, socioeconômicas e familiares, dificuldade visual e auditiva, existência de doenças crônicas como desnutrição e patologias, timidez, ansiedade e problemas situacionais de impacto emocional são fatores que colaboram para as dificuldades de aprendizado do aluno. E devem ser investigadas o quanto antes”, afirma a psicóloga.
Os pais devem ficar alerta e observar como os filhos estão absorvendo o ensino que recebem do ambiente escolar. Quando um estudante apresenta complicações em aprender até mesmo matérias simples pode ser sinal do efeito oculto de complicações na aprendizagem, esclarece Caroline Dias.
Sem detecção correta do problema, a dificuldade em aprender parece estar relacionada apenas às capacidades individuais da criança, que, quando pressionada, se acha a única responsável por seus fracassos escolares. Segundo a neuropsicóloga, os sentimentos mais comuns das crianças quando encontram dificuldades no aprendizado são frustração, inferioridade, incompetência, vergonha, baixa autoestima e ansiedade.
Existem alunos que por meses ou até anos podem apresentar incapacidade de aprendizado das matérias. E são cobrados por isso de forma incorreta.
“Os motivos do baixo rendimento escolar da criança precisam ser identificados e sanados corretamente. É ignorância achar que não conseguir aprender é simplesmente preguiça do aluno. O problema precisa ser diagnosticado e tratado, para que os estudantes não cresçam com maiores dificuldades”, diz a psicóloga.
Caroline Dias, que trabalha com atendimento psicológico em algumas escolas da cidade de Goiânia, relata que muitas crianças já estão autofragilizadas e se sentindo incompetentes porque não conseguem desenvolver o aprendizado em sala de aula. Quando tem um estudante nessa situação, a família encontra dificuldade de reconhecer que a criança pode estar com um problema mais grave na área emocional ou até mesmo de saúde.
A psicóloga lembra que neste caso é de extrema importância os pais descobrirem onde pode estar a falha em vez de apontar os “erros” do estudante relacioanados ao baixo rendimento escolar. A criança pode ter alguma doença crônica que não foi identificada, a didática de ensino talvez não seja adequada. Ou até mesmo o aluno pode estar enfrentando problemas pessoais.
“Por meio de estudos estou tentando mostrar aos pais e educadores e alertar a eles para que o estudante tenha melhor acompanhamento nos primeiros anos de ensino. A realidade de crianças sendo tratadas de maneira incorreta pela falta de capacidade em aprender vem acarretando traumas em várias crianças”, ressalta Caroline Dias.


Professores ajudam a detectar problemas

Os professores que acompanham os alunos no dia a dia se tornam muito importante para ajudar o aluno a obter tratamento adequado
Os professores que acompanham os alunos no dia a dia se tornam muito importante para ajudar o aluno a obter tratamento adequado

Além do tratamento especial que devem dispensar ao estudante diagnosticado com algum problema pessoal ou no ambiente escolar, os professores estão ajudando a detectar esses problemas apresentados pelos alunos.
“Atualmente os professores percebem mais do que os pais que o estudante está enfrentando algum tipo de problema. Voluntariamente os educadores estão contribuindo para que os alunos recebam tratamento adequado quanto à incapacidade de aprendizado”, diz a psicóloga.
Os pais precisam participar de forma mais ativa da vida estudantil dos filhos, principalmente nos primeiros anos escolares. O resultado dessa ausência são crianças com incapacidade de aprendizado – lembra Caroline Dias. Os professores que acompanham os alunos no dia a dia se tornam muito importante para ajudar o aluno a obter tratamento adequado.
A professora Michelly Lôbo dá aula para alunos de até 10 anos em uma escola em Goiânia e relata que diferentes problemas dificultam o aprendizado. Na maioria dos casos os alunos que apresentam incapacidade de aprendizagem estão com problemas familiares. Outros têm alguma doença que ainda não foi diagnosticada.
“O contato direto que tenho com os estudantes me faz concluir que as crianças são carentes da participação dos pais tanto da vida estudantil quanto pessoal. A estabilidade emocional da criança influencia bastante no rendimento escolar”, diz a professora.
Uma dica aos pais e educadores: quando um aluno apresentar algum tipo de dificuldade constante em aprender não adianta pressioná-lo. O correto nesse caso é procurar um acompanhamento psicológico para que as causas sejam descobertas e tratadá-las de maneira correta, ressalta Carolina Dias.


Atenção e cuidado previnem deficiências

Avó de estudante Teresinha Moreira: “Quando percebi que meu neto tinha mudança de comportamento  resolvi levar ele em um psicólogo”
Avó de estudante Teresinha Moreira: “Quando percebi que meu neto tinha mudança de comportamento resolvi levar ele em um psicólogo”

Além de fatores externos, existem algumas condições de origens neurológicas e neurobiológicas que podem causar certas dificuldades de aprendizagem das crianças no ambiente escolar. A psicóloga Caroline Dias conta que a deficiência mental, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), dislexia, discalculia, disgrafia, transtornos de humor e de memória, entre outros, são situações que exigem avaliação especializada e tratamento por uma equipe multidisciplinar. Crianças que apresentam ainda na infância algum desses problemas precisam de acompanhamento médico e escolar, para não serem prejudicadas os estudos.
O estudante Kaique Brito, de 11 anos de idade, passa por alguns transtornos de humor desde início de sua vida estudantil. Com a ausência do pai e a mãe com depressão crônica, ele é criado pela avó. O comportamento em sala de aula do estudante é inconstante, afetando assim o aprendizado e interatividade da criança – conta a avó, Teresinha Moreira.
“Desde quando meu neto começou a estudar, ele apresenta um comportamento diferente na escola. Há momentos que ele faz amizades com colegas e professores; outra hora ele se fecha bastante e não tem amizade com ninguém. No começo estranhei muito”, diz.
Ela lembra que quando o neto apresentava dificuldade em aprender, não sabia como agir corretamente. Mesmo sem querer, julgava a incapacidade do estudante em compreender as matérias. Quando passou a frequentar o ambiente escolar do neto, os professores a orientaram para que levasse a criança para fazer tratamento psicológico por causa da mudança constante de comportamento.
“Foi aí então que resolvi levá-lo no psicólogo e descobri que ele sofre de transtorno bipolar. Recebi a notícia com muita tristeza, porque às vezes o julgava e não sabia como tratá-lo, mas atualmente eu o compreendo e tento ajudar ele a se desenvolver nos estudos”, conta, emocionada, a avó.
Casos como esse estão se repetindo com muita frequência – diz a psicóloga Caroline Dias. Se não for dada a devida atenção pela família e educadores, acabam acarretando problemas severos na vida estudantil da criança.
“Compreender os fatores envolvidos nas dificuldades de aprendizagem e sua repercussão no autoconceito da criança favorece buscas mais assertivas de resolução ou minimização do problema, impedindo que feridas emocionais ocultas continuem a surgir em cada comportamento incompreensível”, ressalta Caroline Dias.

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