Tempo e cabeça

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Jorge de Lima

Qual é o tempo do certo? Cronos, foice ou  Saturno? Quantos anos você tem? qual a idade do mar de Fernando Pessoa? Tempo da língua, do dedo ou do beijo? O tempo do enigma da esfinge?  você se sente com a idade real de seu tempo cronológico? O espelho mente sua idade? Em que ano, década, você vive? Passado do bucolismo ou  na inquietude do futuro? Tempo do grito ou do silencio? Qual retrato de parede denuncia seu tempo de existir?
Há alguns meses conversava com uma paciente que  sentia seus relacionamentos naufragarem. Poucos amigos e muitas complicações afetivas. Ela falou de uma forma interessante sobre a idade das pessoas com quem convivia, a idade das pessoas que paquerava e tentava se envolver , dando muita ênfase ao aspecto da idade cronológica. O que os outros vão pensar…e muitos naufrágios por que muito de seu envolvimentos não davam certo.  Ela tinha 38 anos e gostava de conviver com pessoas mais velhas, que achava que eram mais maduras, podendo lhe oferecer mais chance de estabilidade afetiva. Mas suas escolhas não funcionavam. tempo errado? Tempo de silencio ou tempo de choro?
Um dos maiores enigmas da mente humana esta em nossa afetividade que tem um tempo próprio, O mesmo ocorrendo com nossa consciência e inconsciente. O tempo das percepções, da fantasia, do imaginário, dos sonhos, das nossas emoções qual é? O tempo da realidade ou o da fantasia? Tempo do desejo ou da impotência?
Existe uma falácia acerca da sustentabilidade do perfil de uma pessoa associado com seu tempo cronológico. A idade mente. Os afetos tem idade própria.  Conheci nesta vida  fatos e pessoas interessantes: uma senhora de 84 anos, ativa, viva, festeira qual uma adolescente com seus 15 anos, nos arroubos da sua juventude, tempo da vida louca; ou  a filha de uma amiga que com seus 12 anos de idade portava se como uma velhota curtindo carros antigos, bolero, o tempo dos anos  de 1940… homens de cachimbo e o aborrecimento de uma alma nascida velha. qual a idade do tempo?
Em minha vida vi vários adolescentes extremamente maduros e pessoas de meia idade   sem juízo algum, mostrando o absurdo da relatividade  do comportamento,  no anacronismo do tempo do afeto. Dizer que tem 50 anos de idade neste sentido tem pouco ou raro valor…por que tudo pode mudar diante da afetividade e de seus  mares bravios…como um gato tentando se reconhecer diante do espelho…lutando contra seu reflexo sem saber que ele sou eu…os duplos do existir em embate. Sou quem fui, ou sinto quem não serei? Como analista conheci ainda várias pessoas que falavam de seu passado, histórias de 30 ou 50 anos atrás, as narrando como se  houvessem ocorrido ontem. No ar fica a pergunta em que tempo você vive? “decifra me ou devoro- te”!

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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