Conselhos

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1972

Jorge de Lima

Pra quem você pede conselhos? quando os recebe, eles tem alguma eficácia em sua vida? Dois paradigmas da pós modernidade, aos quais temos dedicado parte de nossos estudos são o da transparência e o da visibilidade. Na ruptura dos valores, na transição social na qual estamos imersos, na era da dissolução e do esvaziamento, os preceitos de transparência e visibilidade tem profunda influencia no modo de vida de toda sociedade.
Eu particularmente fico muito impressionado com a  decadência da consciência crítica diante da livre  liberdade de expressão. É direito social adquirido poder se manifestar livremente. Emitir e dar opinião na era da visibilidade é fato social. Nos murais das redes sociais até preceito de convívio e interação. Todavia o filtro de recepção, de ajuste do que é dito, se tornou algo permeável.
O problema claro deste processo que citamos é o fato típico nos dias atuais de certas pessoas pedirem conselhos ou seguirem quem não tem a menor noção de ajuda, pessoas mais perdidas do que ele próprio. Há alguns dias ouvia uma paciente reclamando que sua vida afetiva havia virado um caos, ela pedia conselhos a uma amiga mais velha uma solteirona de seus 50 anos, frustrada, amargurada, reproduzindo um discurso ideológico ultrapassado e tolo. a paciente percebe que entrou em uma fria depois de comprometer sua vida seguindo os conselhos da “amiga”. Outro caso foi o de um homem que estava pedindo conselhos financeiros a um interlocutor que faliu suas empresas três vezes… a problemática apontada por Oscar  Wilde: “A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios”… ou o bom e velho: “faça o que eu digo não faça o que eu faço”!. Por que as pessoas elegem como conselheiros quem vai lhes trazer problemas?
A ruptura sistêmica da pós modernidade com a Individuação, e com a consciência, na atual cultura do escândalo, derivativo superficial da cultura do espetáculo de Guy Debord, denunciada na musica de Queen e Paul Rodgers-  C-lebrity – no album The Cosmos Rocks, mostra que várias pessoas querem seu instante de fama pagando para isto qualquer preço… Visibilidade, vazio e problemas… a face na TV.
Tenho visto como analista e psicólogo clinico muitas pessoas entrando em confusão por estarem ouvindo pessoas que pouco ou nada tem a oferecer. Muita encrenca desnecessária por exemplo por reproduzirem pensamentos e ideias, para as quais a própria pessoa que a reproduz não acredita. Idolatria de tolos e tolices. Isto colocando diretamente em questão os filtros de recepção , a consciência, os mecanismos  de alienação. Quem pensa quem é pensado?

Jorge Antonio Monteiro de Lima, São Paulo-SP – 10 de dezembro de 1968, é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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