O espaço

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2007

Jorge de Lima

Estes dias fui a um evento na chácara Jatobá para uma pequena festa junina. Na mesa com alguns amigos a onipotência pós moderna se manifesta: querer estar ali e em vários outros lugares ao mesmo tempo. O mágico desdobramento, as dobras espaciais, no duplo do existir. O dilema existencial de ser um só na necessidade dos muitos. Na prática contemplava uma amiga…que ali estava mas desdobrada em vários outros pontos da cidade…era um ser que estava parcialmente conosco, mas ali não pertencia… ela uma jovem mulher que destinou se a sair em um sábado com amigos, para se curtir nas redes sociais, no meio de muitas pessoas, mas isolada dentro de sua tela de celular…estou com vocês, mas presa a meu mundo…

A realidade virtual trouxe nos a consciência mais uma bela pitada de ansiedade, de força titânica como na descrita por Rafael López Pedraza. O anseio de querer viver tudo, de estar em todos os lugares, o mágico dilema de uma liberdade flutuante sem compromiços nem obrigações. Fantasia fez reagir a ideia básica da teoria da relatividade de Einstein tornando tempo e espaço mutáveis. O espaço que era uma noção concreta, delimitada, definida hoje sucumbe as ideias e a uma tela de plasma ou de cristal líquido. Léguas cabem em milímetros em que habitamos, o mundo em milímetros… a fantasia da realidade paralela… que extingue as forças do Ego , do desejo da identidade…

Ali estava minha amiga, ao lado, perto mas distante, presa a algum lugar, entre o nada e lugar algum. Outros colegas a chamavam , mas ela muda estava e muda ficou. Era absorta em um fragmento deste pequeno espaço que cabia na palma de sua mão. Delirando , tomada, abduzida de si mesma, e dos que a cercavam. Talvez em extenso diálogo com outro ser , que da mesma forma viva este reino mágico de distancias. presente e longe, no mesmo estar. Duas amigas puxaram papo com ela, … mas muda estava, muda ficou…dialogando sozinha em seu celular com o desconhecido… nem musica, nem comida, bebida nada a retiraria daquele lugar de si mesma… o que é assustador.

Essa situação me fez questionar em muito o empobrecimento rotineiro e cotidiano que hoje nos assola, nos vários diálogos que temos tido com paredes. Hoje é queixa comum em consultório a solidão, o isolamento, apatia e o empobrecimento dos vínculos afetivos. A expressão humana foi compartimentalizada por processadores binários. O afeto reduzido a um like… E concretizamos a alegoria das cavernas de Platão…só nos observamos por meio das imagens distorcidas, nossa Sombra projetada nas paredes…na crueldade deste virtual que nos rouba do real sua graça. Ali estava minha amiga que dois dias antes se queixava que as pessoas estão sem graça, ela com poucos amigos, que a vida anda sem sentido… em quantos mundos podemos existir? Esta pergunta encerra o abismo, entre viver mas não estar ali. Viver no vácuo, no entre lugares, flutuar, a Crise da filosofia do espaço, que hoje encerra o drama de nossa consciência! Onde existir, para ser em nossas eternas metades?

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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