A timidez

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1993

Jorge de Lima

Ela sente vergonha de encarar, baixa os olhos e se esquiva. Para ela sentir-se observada é a pior sensação do planeta. Sua pele esquenta qual fogo e fica vermelha, as rosadas bochechas viram brasas de carvão. O ar falta e tudo treme. Tudo balança e seu coração acelerado à “bilhões” de batidas por segundo. O rapaz apenas perguntou seu nome, mas a reação em cadeia toda é deflagrada. Ela não tem voz para responder. Justo o rapaz mais bonito da escola. Fica calada e ele insiste. Ela balbucia algo tremendo meio que indefinível. A mão suada. Ela fica a maior parte do tempo calada, observando a situação. Depois passado o susto do beijo roubado, a saudade e a falta de coragem de pedir outro. Ela se mantém quietinha e observadora.

A timidez é a dificuldade de um indivíduo de se expressar e, consequentemente, de se relacionar.

Confundida com a introspecção e com a introversão, a timidez traz a marca da dificuldade na socialização, da incompreensão e da solidão. Em um mundo maníaco e extrovertido, ser quieto e tímido passa a tornar-se um referencial de desajuste social plausível de ser medicado o que torna se um problema. Mesmo porque, existe um padrão a se seguir, enquanto regras sociais para um bom convívio. Assim a sociedade fala muito dos problemas da timidez, mas muito pouco de suas vantagens.

Pessoas tímidas são extremamente inteligentes e observadoras, sensíveis ao extremo. Utilizam sua capacidade racional bem mais que a população geral. Geralmente são perfeccionistas e detalhistas em tudo que fazem. Sua memória é bem ampla, lembrando de detalhes mínimos mesmo de fatos ocorridos há muito tempo. Sua cognição e sua percepção são mais apuradas. Lembrei-me de um senhor que conhecia, que tinha este perfil: um dia visitando uma amiga em comum, ele posteriormente relatou quantos metros tinha a sala que estávamos (cálculo feito contando os tijolos aparentes, de uma extremidade a outra da sala), quieto, nenhum detalhe lhe escapava. Até as cores das meias dos convidados ele percebeu.

O que marca a timidez é a dificuldade em se expressar. Seja verbal ou fisicamente. Por pensar demais, o feitiço vira-se contra o feiticeiro e, o excesso de cobrança interior estilo: “o que vão pensar de mim” trava a pessoa tímida em uma relação interpessoal. Soma-se a isto a insegurança, o medo, o perfeccionismo. O excesso de cobrança é o que pode deixar a timidez em um grau mais psicopatológico. Muitas pessoas abdicando da vida, se isolam para evitar o convívio. Muitos tímidos chegam virgens facilmente aos 30 anos, sem nenhum tipo de envolvimento afetivo. Esta regra é quebrada por vezes com a insistência e persistência de um candidato ao seu coração. Resumindo, tem de pegar no laço…

A timidez por si só não pode, nem deve, ser considerada como uma patologia. Embora traga certa dificuldade de convívio, uma pessoa tímida deve acima de tudo se conhecer e aprender a respeitar sua natureza e seus limites. Geralmente o que trabalhamos em consultório é a segurança do indivíduo, sua autoestima, minimizando seu excesso de cobrança interior.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

 

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