Simplicidade

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Jorge de Lima

Banho de chuva no calor, picolé na praça, banco de jardim, boa música, andar descalço, sonho de valsa ou prestígio, um solo de guitarra de BBKing, uma soneca após o almoço, dormir abraçadinho com o bem, uma gargalhada de criança, contemplar o trabalho de um trilheiro de formigas executando sua mais nova empreita em meu jardim.

Reler Machado de Assis, Paulo Francis ou Nelson Rodrigues, ouvir um sabiá ou um beija flor no quintal. Banho demorado, e até mesmo o prazer de uma boa latrina no alívio matinal.

Café quentinho, respirar ar puro, fugir do trânsito, sentir o cheiro da terra molhada e a alegria dos papagaios gritando de manhã cedo. Ter calma apesar da agonia alheia e não se estressar. Assistir a uma boa comédia ou um divino desenho de Pernalonga ou Pica-pau.

Arregaçar as calças e brincar de carrinho de ferro, pega-pega, empinar pipa com uma criança e andar na enxurrada. Roubar goiaba do vizinho e chupar jabuticaba no pé.

Aprendi o que era a simplicidade com as crianças e com os matutos com quem convivi, gente muito simples, muitos que em nossa concepção urbana seriam vistos como indigentes ou como idiotas. Ficaria aqui meses listando coisas simples que aprendi a curtir na vida.

Outro dia ouvia um conhecido gabando se de sua mais nova aquisição. Uma nova caminhonete importada um foguete ultra potente exclusiva uma verdadeira fortuna, tração nas quatro rodas, dois sistemas de navegação semelhante ao conforto de um hotel quatro estrelas. O rapaz a comprou para viajar mais confortável e poder pescar com sua família. Mas assim que a tirou da concessionária se arrependeu, ficou com dó de seu mais novo bem e resolveu guardar ela em sua garagem. Sequer saia com ela na cidade por medo de assalto ou que batessem em seu precioso bem. Assim tornou se escravo de sua própria vaidade. Abandonou sua pescaria para não estragar seu carro novo. Sofisticou demais e perdeu sua alma e alegria de viver.

Semanas atrás entrei em uma loja de instrumentos musicais. O vendedor resolveu me mostrar uma nova pedaleira para guitarra com 600 tipos diferentes de efeitos. Um minicomputador com 100 tipos diferentes de função digital. Achei interessante, mas uma genuína droga.Muita tecnologia para pouca coisa. Já tenho uma pedaleira boa analógica, antiga valvulada, e confesso que quando toco se uso muito são no máximo dois ou três efeitos.

Nosso mundo é assim muita oferta, muita tecnologia, muitas possibilidades, muita mania, onipotência para pouca praticidade.

Queria ver a pedaleira ou os teclados modernos transformarem alguém em um músico genuíno. Queria ver a alegria do carro novo perdurar por toda vida.

O problema psíquico que vivemos liga se diretamente a necessidade de nossa sociedade de consumo. Queremos muito para ter e não para usar bem o que temos. A vaidade que se instala por que adquirimos um bem é patética. E o principal problema disto tudo é que a maior parte do que adquirimos não faz o menor sentido para nosso espírito. Não nutre nossa carência e assim a satisfação é momentânea.

Muitas pessoas que hoje tem uma vida sem sentido mergulham com intensidade nesta sofisticação visando apenas agradar a sociedade.

Perdem suas metas e objetivos de vida e com isto camuflam sua insatisfação e os problemas de sua psique atrás de aparências, de uma casca que não se sustenta. Assim conhecem a fundo a literalidade da palavra vazio. Isto em médio prazo torna se uma melancolia intensa, uma vida sem graça, superficial que só faz sentido em uma sacola de shopping center.

A burrice apostólica natural percebida no evangelho quando os apóstolos proibiam crianças de se aproximarem de Jesus trazem a tona mais um ensinamento: “deixe vir a mim os pequeninos por que deles é o reino dos céus o adulto que quiser conhecer a morada de meu pai deve tornar se qual uma criança”. E a palavra chave que resume isto tudo chama se simplicidade que passa longe, bem longe de nossa sofisticação.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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