Crise econômica e isolamento social são fatores que podem estar ligados ao crescimento do número de diagnósticos de depressão, inclusive com tendências suicidas. Doença é tratavél e há institutos em Goiânia que oferecem assistência à comunidade carente

Daniela Martins

O impacto da crise econômica ultrapassou os limites da vida prática e chegou às emoções, à saúde mental do brasileiro. Vivemos uma epidemia de depressão, e, segundo especialista da área comportamental, um dos fatores é justamente o  atual arrocho financeiro do país.

“Em minha experiência clínica, dois aspectos têm sido cruciais para a depressão: dívidas e solidão. É é o que vejo como razões para esse aumento nos casos”, avalia o psicólogo Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista comportamental e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

“Vivemos o fim da ilusão no ciclo econômico, com o consequente endividamento da população. Para completar, tem o aumento do isolamento social, as pessoas estão mais frias, distantes uma das outras”, explica.

Jorge conta que, em média, são atendidos 200 casos de depressão semanalmente no Instituto Olhos da Alma Sã, clínica que oferece assistência à população carente. São 17 profissionais e 40 estagiários na equipe. O psicólogo constatou que, do início do ano para cá, houve um aumento expressivo dos casos de depressão e, o pior, vários com tendência suicida.

“Temos de fazer algo para conter esta epidemia que se alastra. A depressão é uma doença que tem cura e temos de agir para evitar mortes desnecessárias”, reforça.

A constação empírica do psicólogo clínico é avalizada por levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) que apontam para um índice de 7,6% da população brasileira dignosticada com depressão. Acrescenta-se a esse percentual, as pessoas que não chegam a ser diagnosticadas por um especialista.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também apresenta números assustadores. Estima-se que de 350 a 400 milhões de pessoas sofram com alguma forma de depressão, algo em torno de 5% da população mundial.

Vera, nome fictício, é uma das pacientes do Instituto Olhos da Alma Sã. A mulher, de 37 anos, começou 2016 sofrendo as consequências de grandes baques. Separou-se, após o casamento de 10 anos, sucumbiu a um calote financeiro e perdeu sua empresa. Antes, alegre e independente, Vera se viu em meio a uma crise depressiva, sem entender ao certo o que estava acontecendo.

“Eu não queria sair de casa,  não conseguia chorar nem por pra fora tudo que estava sentindo. Não gosto de mencionar isso,  mas tive momentos de desejar muito sair deste mundo”, relata.

Em janeiro, Vera chegou ao consultório de Jorge. Foi diagnosticada com depressão e desde então faz tratamento. “Ele me ajudou a entender que precisava passar por isso,  a gente foge do sofrimento o tempo todo, mas na verdade, temos de enfrentá-lo”, diz.

O tratamento rápido ajudou Vera a compreender o transtorno e a enfrentá-lo. Mas o problema é que nem sempre é assim. “Com o tempo, a depressão, como qualquer outra patologia, se agrava e surge a tendência suicida”, destaca o psicólogo.

Jorge Lima, psicólogo: “depressão é uma doença que tem cura, temos de agir para evitar mortes desnecessárias”
Jorge Lima, psicólogo: “depressão é uma doença que tem cura, temos de agir para evitar mortes desnecessárias”

A consequência é preocupante. A depressão tornou-se, uma das principais causas de suicídios, levando o Brasil a figurar entre os dez países que registram os maiores números absolutos de suicídios, com 9.852 mortes, em 2011.

Dados da OMS apontam o suicídio como responsável anualmente por um milhão de mortes. E esses números  não incluem as tentativas de suicídio, 10 a 20 vezes mais frequentes que o suicídio em si.

“Os casos de depressão vêm se proliferando. As pessoas estão sem perspectivas de futuro, sem objetivos claros de vida, correndo atrás de pokemon, como se isso fosse dar algum sentido para suas vidas…”, pondera o psicólogo.

Apoio familiar é fundamental para superar a depressão­

Não julgar. Esse é um ponto fundamental para familiares e amigos de alguém com depressão. “As pessoas se esquecem que  depressão é doença. Não é frescura, enjôo nem preguiça. É uma doença, como um resfriado forte, que retira do indivíduo suas energias, lhe trazendo muito mal-estar físico”, explica o psicólogo Jorge Monteiro.

Sendo assim, o apoio da família, amigos e pessoas próximas é fundamental para a recuperação do paciente. “Não pode haver abandono”, sentencia.

A depressão, ao ser tratada da forma correta, tem cura. O melhor tratamento é aliar medicação, psicoterapia e atividade física. Tudo ao mesmo tempo.

“A família deve ajudar e exigir dos profissionais resultados, tentar trazer ânimo e força para o paciente. Persistir para que ele se trate. Quando a família ajuda, facilita muito o tratamento”, enfatiza o psicólogo.

Jorge acredita que toda sociedade deve dar a mão a quem está doente, ter mais caridade, amor ao próximo, tolerância, e, ao mesmo tempo, ter um posicionamento radical com relação a resultado nos tratamentos.

“Infelizmente, vejo casos de pacientes se tratando de depressão por 15, 30 anos, sem melhora, o que é um absurdo. Especialmente quando o tratamento deixa o paciente dopado, sem ânimo, mal. Repito: depressão tem cura, basta fazer o tratamento da forma correta”, finaliza.

No box abaixo, estão os contatos do Instituto Olhos da Alma Sã e do Cepsi da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), que oferecem atendimento psicológico à comunidade carente.

Quadro suicidio

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