A epidemia dos motoristas superconectados

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Se falar ao celular enquanto dirige já é um perigo, manipular o aparelho torna o risco de acidentes ainda maior. Infrações pelo uso do telefone ao volante crescem 35% ao ano, na Capital

Daniela Martins

A era digital não nos permite  “perder tempo” no trânsito. O resultado dessa máxima são motoristas divididos entre a atenção que deveriam concentrar no trânsito e as telas de seus aparelhos celulares. Não é difícil flagrar condutores distraídos numa ligação, navegando na internet, teclando mensagens de texto ou até mesmo tirando selfies e gravando vídeos.
Dados da Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT), de Goiânia, apontam para um aumento anual de 35% no registro de multas aplicadas aos motoristas que utilizam celulares ao volante. Em 2014, foram 8.679 infrações desse tipo; em 2015, o número pulou para 11.730. Esse ano, somente até julho, já foram 7.920 condutores multados.
“Essa infração está entre as dez mais registradas pelos agentes de trânsito na Capital”, destaca Horácio Ferreira, especialista em direito e trânsito e gerente de Educação de Trânsito da SMT. Além da distração dos motoristas, continua Horácio, há estudos que apontam para um aumento no número de atropelamentos em razão do uso de celulares por pedestres durante a travessia das vias. “É total desatenção!”.
Apesar de altas e preocupantes, as estatísticas oficiais estão bem aquém da realidade. Os variados casos de desrespeito ao Código  Brasileiro de Trânsito (CBT) são subnotificados, como pontua o perito em mobilidade urbana Antenor Pinheiro. “Somente  uma infração, a cada 8 mil cometidas, é flagrada pelo Poder Público, já que nem sempre tem um agente de trânsito ou equipamento eletrônico de monitoramento”, assinala.
Mesmo sem pesquisas que os correlacione, especialistas de trânsito são unânimes em afirmar que a junção do celular com volante é tão perigosa quanto a combinação de álcool e direção. “São duas práticas igualmente danosas à segurança do trânsito, com efeitos sobre as condições físicas e psicológicas das pessoas”, enfatiza Benjamim Jorge Rodrigues dos Santos, doutor em Engenharia de Transportes e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC).
Benjamim explica que durante o simples ato de baixar o olhar e tocar nas teclas do celular são decorridos pelo menos dois segundos. Nesse tempo, se a velocidade for de 50km/h, terá sido percorrido um trajeto de cerca de 50 metros com o veículo fora do controle do motorista. “Percorrendo-se uma distância desta magnitude, com o veículo totalmente sem controle, os acidentes são praticamente inevitáveis, como a colisão na traseira de outro veículo ou saídas de pista seguidas de capotamentos, por exemplo”, avalia.
O acidente do jornalista Fábio Marques Calaça, 30 anos, não foi tão grave, apenas uma colisão traseira. O sinal acabara de abrir e ele dirigia a menos de 20km/h. No entanto, estava completamente desligado do trânsito, com os olhos voltados para o celular. “Não percebi o engarrafamento que se formou, motivado por um capotamento em outra rua. Quando vi que todos estavam parados e não andando devagar, pisei no freio, mas já não havia espaço suficiente pra eu parar por completo”, conta.
Felizmente, foi uma batida em que ninguém se machucou. “Mas saiu caro o conserto e foi uma lição importante”, avalia o motorista, ao admitir que o acidente o fez mudar de comportamento no trânsito. “Hoje, enquanto dirijo esqueço que existe celular. Nem aplicativos de música, que usava antes, tenho usado mais”.


Celular atrapalha fluidez do trânsito

Ao analisar seu acidente, o jornalista Fábio Marques comenta uma junção de fatores que têm contribuído para tornar os motoristas superconectados. Primeiro, tem-se a atual “era de aplicativos”, feitos para manter as pessoas ligadas ao celular o tempo todo, soma-se a isso o grande tempo que as pessoas passam no trânsito e, para completar, carros mais modernos já vêem com sistemas dedicados a essa febre de conectividade .
Tudo isso, segundo ele, faz nascer a falsa sensação de que não há problema em usar o celular enquanto se dirige. “Afinal, existem sistemas de fábrica que contribuem para isso. E a combinação disso é macabra”, comenta o jornalista.
“Quem comete o vacilo que cometi, faz achando que está no controle da situação. Hoje percebo que tal controle é impossível. Imagina se o acidente acontecesse em alta velocidade ou, pior, se um pedestre entrasse na frente de repente”, comenta Fábio.
Além do risco de acidentes, manipular o celular no trânsito atrapalha o fluxo de veículos e gera estresse coletivo. “É o que mais flagramos hoje, esse comprometimento da fluidez do trânsito. As pessoas se distraem teclando, no sinal vermelho, e deixam de retomar o movimento quando abre o semáforo”, aponta o perito Antenor Pinheiro.
Cria-se, então, um vazio à frente do carro, o que compromete o tempo do cálculo semafórico e toda a dinâmica do trânsito. “Curioso é que, se estamos atrás de alguém dirigindo mal e notamos que a pessoa está ao celular, ficamos com raiva, mas muitas vezes fazemos o mesmo”, observa Fábio Marques.
O perito em Mobilidade Urbana Antenor Pinheiro ressalta que usar o celular ao volante é uma infração de trânsito deliberada. O condutor sabe que é proibido, que é uma conduta perigosa, porém, continua com a prática. Por quê?
“Aqui entra um pouco de antropologia. Já é um fator cultural. A gente sempre pensa que nunca vai acontecer com a gente. Só com o outro. E, de repente, você está no necrotério, está aleijado ou provocou a morte de outra pessoa. Vemos isso todos os dias”, finaliza Antenor Pinheiro.
A psicóloga Danielle Caetano Borges, especialista em Psicologia do Trânsito, tem mais uma argumentação. “Quando vamos dirigir, transferimos todo nosso lado emocional para o carro, o que inclui as nossas más atitudes, como desobediência e raiva. Tendenciamos a pensar e agir em prol do que queremos, desmerecendo a necessidade do próximo, como se a nossa fosse a prioridade”.


 Política de trânsito é ineficiente

“O Brasil não tem uma política nacional de trânsito séria. As três esferas do governo (municipais, estaduais e federal) são omissas e não conversam entre si. Ou, quando conversam, fazem política errada”, sentencia o perito Antenor Pinheiro.
A consequência dessa falta de política de trânsito são as muitas mortes e casos de invalidez causadas por imprudências pelo Brasil afora. Os acidentes de trânsito matam, todos os dias, pelo menos 115 pessoas no país, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Dentre os fatores que impulsionam essas mortes estão, na opinião de Benjamim Jorge Rodrigues dos Santos, a falta de conscientização dos motoristas por meio de campanhas educativas e também maior ação do Poder Público para coibir atitudes como o uso de celular ao volante.
Já para Antenor Pinheiro, o fato de ser habilitado pressupõe um compromisso por parte do motorista de que ele deva obedecer o Código de Trânsito.  “É uma infração deliberada”. Mas, considera também, como fator que impulsina a imprudência, a falta de fiscalização, inclusive em razão de uma quantidade inadequada de agentes de trânsito.

Antenor Pinheiro: “Multas de trânsito no Brasil deveriam ser mais caras”
Antenor Pinheiro: “Multas de trânsito no Brasil deveriam ser mais caras”

Os dois especialistas consideram ainda que as multas têm valor baixo e falta maior rigidez nas penalidades aplicadas, o que contribui para a desobediência por parte dos condutores. “As multas no Brasil são as mais baratas do mundo. No Canadá, se você avançar o sinal, vai pagar uma multa de dois mil dólares. Se machucar alguém, sua carteira é cassada”, exemplifica Antenor.
“Multas com valores mais elevados ajudariam. Na Inglaterra, por exemplo, a multa por dirigir e falar ao celular é de 1.000 libras (R$ 4.160,00)”, também exemplifica Benjamim.
Para ele, deveria haver maior  transparência na aplicação das verbas arrecadadas com as multas de trânsito, o que poderia influenciar de forma positiva na conscientização dos motoristas.

Benjamim Jorge: “Falta transparência no uso do que é arrecadado”
Benjamim Jorge: “Falta transparência no uso do que é arrecadado”

“Pelo Código de Trânsito Brasileiro, a verba arrecadada com multas deveria ser aplicada na sinalização, fiscalização, policiamento, engenharia de tráfego e na educação para o trânsito, mas não existe nada que obrigue a prestação de contas dessa verba”, critica Benjamim Jorge.
Atualmente, pelo CTB, dirigir falando ao celular é considerada infração média, e a penalidade é multa de R$ 85,13 e inclusão de quatro pontos na carteira de habilitação. A partir de 1º de novembro próximo, o ato de falar ou manusear o celular ao volante será considerado infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH.

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