Bebo por que é sólido, se fosse líquido comê-lo-ia

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Jorge de Lima

Bebe todo dia, mas jura que dá conta de parar quando quiser. Dizem que bebe muito, mas em sua roda de amigos é quem menos bebe, e esta é sua desculpa. Tem como lema: “mais vale ser um bêbado famoso, que um alcoólico anônimo”. Todo mundo tem problemas menos ele. Está bem, alegre! Virou hábito vomitar e acordar de ressaca. Aliás, acordar para quê? As economias e seu trabalho foram pro ralo há muito tempo. Mas ele supera, ele faz parte de uma estatística de desempregados e pra resolver recorre a sua velha amante garrafa. Ela que ali sempre está inegável a seu lado.  E porque recriminar se todo mundo bebe, seja este um político, um policial, um Juiz? Bateu o carro como todo mundo, na fatalidade atropelou um pai de família, mas tá tudo em ordem. A esposa largou porque não aguentava mais estressadinha.
As brigas quotidianas o fizeram conhecer várias delegacias pura farra, toma mais uma pra esquecer e tá tudo limpo. Filhos passando por necessidade, algo que não existe, seu dinheiro some toda vez, destinado ao caixa do bar. Mas ele está bem o problema sempre é
A pior praga da saúde mental é o alcoolismo. Uma doença alastrada e embrenhada com o aval de toda sociedade. Inúmeros dados da saúde apontam que o alcoolismo atinge a toda sociedade ativa ou passivamente.
Ativa por ligar se ao próprio usuário e seu abuso da droga. O alcoolismo é uma doença adquirida que tem tendência hereditária. Quando um paciente tem o alcoolismo, não importa o quanto, nem a frequência que ele bebe, pois sua relação doentia com o álcool, faz a menor dose, após muitos anos, ser motivo para o início de uma nova crise. No alcoolismo o indivíduo não consegue dizer não a droga, nem consegue parar quando inicia seu uso. E toda sua vida e hábitos passam a ser norteados pelo vício. A isto estão ligados os hábitos culturais, o lazer e os relacionamentos interpessoais, tornando-se facilmente o hábito de beber o esteio da vida de um indivíduo. Um anjo caído, o Daimon pervertido de força sagrada buscando a realização e ou o clima orgástico no embriagar-se. É contra isto que lutamos, e por isto seu tratamento é tão difícil. Tornando se uma patologia crônica requer tratamento e ou acompanhamento por toda a vida redimensionando a personalidade e suas relações. E no Brasil não há políticas públicas de prevenção nem de tratamento.
Se o alcoólico fosse o único a se prejudicar, tudo seria mais tranquilo. Mas, ao contrário, gera por sua doença inúmeras vítimas, os passivos citados anteriormente, vítimas do abuso da droga do primeiro. Como exemplo, cito as vítimas de acidentes automobilísticos que sofrem danos por que algum indivíduo resolveu dirigir embriagado. Isto sem falar nas vítimas de sua agressividade e ou abandono.
E nas cidades em que bares são fonte de lazer a todas as classes sociais, a incidência da patologia torna-se alta. Com o aumento da incidência vários outros problemas são associados, como a violência urbana, violência doméstica, pedofilia, acidentes automobilísticos, acidentes de trabalho, falência da instituição família. Tudo sacramentado e juramentado ao ritual da santa garrafa!
Existe tratamento, mas quem quer de verdade se tratar?
O custo do alcoolismo na sociedade é alto. O orçamento para funcionamento de um hospital de grande porte, que acaba lidando indiretamente com a questão do alcoolismo, como o Hospital de Urgências de Goiânia consome em termos de custo ao município sozinho cerca de 3/4 do que o mesmo município arrecada com bares e casas noturnas. Se junto a esta cifra colocarmos o custo da violência urbana e dos acidentes automobilísticos as contas públicas ficariam bem atrás em sua arrecadação. Resumindo os impostos que a indústria do álcool geram, não cobrem nem de perto seu prejuízo. E isto se repete em todas cidades do país. Mesmo assim o município, o estado e a nação se omitem. Toma mais uma pra esquecer! E a existência de políticas públicas sem eficácia de tratamento agravam toda situação. Solução existe se encararmos o problema como uma crise social cujo tratamento é possível.
O custo do tratamento de um dependente químico é alto. Requer esforço do paciente e de sua família. Envolve um tratamento integrado por uma equipe multidisciplinar com medicação, psicoterapia, terapia ocupacional, atividade física. Na maior parte das vezes, o paciente deve ser internado inicialmente para uma desintoxicação em termos ideais durando cerca de 90 dias. Depois seguem o tratamento ambulatorial que envolve não apenas o paciente, mas sua família. E novamente o custo disto acaba sendo alto em proporção ao custo do divertimento: para cada  real gasto em bebida, o paciente terá de investir outros cinco para se tratar posteriormente.
No campo psicológico tratamos a compulsão, o vício, a manipulação. Frequente a quem abusa de um tipo de droga, e no campo da análise lidamos com forças instintivas intensas ligadas a compulsão e ao vício, forças consteladas a complexos ativados negativamente. O trabalho da análise liga-se a toda reestruturação da personalidade que direcionou se a auto-destrutividade. A personalidade do alcoolista é destrutiva tendendo a boicotar toda tentativa de tratamento. A Persona identifica se com a sombra em um eixo neurótico. O SELF é ignorado e a vida provisória se instala em um instinto de morte, que anula a consciência. Assim um paciente passa a se destruir com “alegria”. O centro da vida, da percepção, da atenção vira o vício, que torna-se hábito, uma força instintiva intensa. Todo viciado sequer percebe que tem problemas projetando sua patologia nos outros, mostrando a infantilidade de sua personalidade. Com isto chega à ruína moral, profissional, familiar, afetiva, financeira… A família geralmente adoece conjuntamente e da mesma forma requer atenção. Por ser um problema crônico, o tratamento é de longo prazo.
Por tratar se de um tratamento de alto custo, que requer mão de obra altamente qualificada, com equipes extremamente bem preparadas – algo que é raro pelo custo de formação – a solução social seria investir mais em prevenção. Todavia nosso estado embriagado pelo poder pretende viver de ressaca… enquanto toda sociedade paga esta conta cara!

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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