O Carinho

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Sua atitude lembrava a de um Ouriço ou um Porco Espinho. Não havia lado para chegar. Embora as vestes lhe trouxessem um certo ar provocante e sensual, na prática existia uma placa: “Mantenha a distância”. A dicotomia personificada em forma de gente, tanta provocação para que? Ela é apenas uma mulher emancipada, livre, liberada, cheia de títulos e cursos. Dominadora tal qual foi o sonho projetado nela por sua mamãe. Mas no fundo, o que ela quer? Carinho, cuidado, respeito, e como todos nós, viver um amor com intensidade e respeito.
Mas na atualidade, o discurso do Ser Romântico é visto como careta coisa de fraco. O tempo todo na mídia se fomenta a temática da independência, da autoafirmação, A questão é a de levar vantagem, de programar o futuro, de dominar e controlar as paixões e se dar bem, custe o que custar. Fora os afetos, viva apenas de razão, ainda que de forma inerte e fria.
Nossa heroína moderna dança, sorri, enche a cara, provoca, fica com tanta gente, é bela, e acaba ao final das noites sozinha. Por que tanta gente existe e ninguém se interessa por mim? Os homens têm medo das mulheres modernas? Noites frias e tantos desencontros… mas este é um problema que transcende gênero, relaciona se diretamente com nosso egoísmo e a solidão da pós modernidade, com a ilusão de independência.
Tanto senso comum e tão pouca observação da vida. Tanta tecnologia e tão pouca essência. Tanta bioquímica cerebral, tantos comprimidos e, tão pouca essência, tantas receitas e kits mágicos para pouquíssimos resultados efetivos… racionalismo, crenças fomentadas para inebriar o ego que hoje vive na fantasia.
Um dos maiores problemas psicológicos atuais é a dificuldade existente do ser humano lidar com o carinho. Um aspecto intrínseco da afetividade e da sexualidade, algo que deveria ser inato às relações em que exista uma manifestação espontânea. Ligado diretamente a nossa cognição, as experiências de carinho transcendem aspectos da educação e da formação, envolvendo toda cultura e sociedade. Algo que deveria ser inerente à vida e ao processo civilizatório, mas que por distorções em ampla escala acabam se perdendo. O carinho é a base para que possam ocorrer o respeito e as boas relações interpessoais.
Todavia é comum encontrarmos pessoas que não sabem lidar com sua própria afetividade, que tem medo dela e consequentemente de carinho. Quantas pessoas hoje em dia não trocam relacionamentos concretos por parceiros virtuais nas redes sociais? Medo, incerteza, tentativas de autoproteção que engendram o isolamento? Uma Dafne moderna, em uma metamorfose anunciando sua vida vegetativa diante de um computador?
Hoje em dia para boa parte das pessoas carinho resume-se à genitália, apenas sexo. O resto é descartado. E isto hoje em dia é tão comum a homens e mulheres, transcendendo a discussões de gênero. O afeto foi mercantilizado, tem preço virou objeto literalmente, bem de consumo. Doação, permuta ou venda explícita? O que se faz com a própria afetividade?
Fora as máscaras sociais tão difundidas de uma pseudo autossuficiência imbecilóide. Embora todos queiram no fundo carinho, tornou-se comum negar nossas necessidades e desejo, tudo em nome de um “tipo” independente, descolado, sexualmente ativo, devorador… dominador até da vontade do outro em doar seu carinho. Esta é a ilusão moderna, achar que podemos controlar racionalmente a expressão afetiva do outro e a condicionar. Tentar ter o dom do Cupido e acertar, a nosso gosto, o coração do outro. Tantas receitas prontas, pena que não funcionam… Carinho é simples como a vida, exigindo apenas espontaneidade. Que tal se permitir?

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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