Especialistas avaliam imagem dos candidatos na TV

0
2965

As primeiras aparições dos prefeitáveis na tevê foram marcadas por erros e acertos. Faltaram aos candidatos à Prefeitura de Goiânia mais empatia e profissionalismo na construção de uma imagem pessoal assertiva

Daniela Martins

Se uma imagem vale mais que mil palavras, o que dizer de três, cinco e até dez minutos na tevê? Os programas eleitorais são a grande oportunidade que os candidatos têm de gerar empatia no telespectador, transmitir credibilidade e angariar votos. É a hora de “se vender” como a melhor escolha para a população.

O problema é que o eleitor não anda muito a fim de conversa. Os políticos brasileiros, no geral, caíram em descrédito perante a população. Assim, a construção da imagem pessoal, que sempre foi uma ferramenta importantíssima para o candidato, constantemente observado e julgado por milhares de pessoas, tornou-se imprescindível para o sucesso nas urnas este ano.

Iris Rezende (PMDB), Delegado Waldir (PR), Vanderlan Cardoso (PTB), Adriana Accorsi (PT) e Francisco Júnior (PSD), os cinco principais candidatos à Prefeitura de Goiânia, pelo que parece, não começaram tão bem. Muitos erros na construção da imagem pessoal de cada um foram apontados por especialistas convidados pela Tribuna do Planalto a avaliar os primeiros programas de tevê.

“A imagem é o reflexo de quem nós somos. Não estamos mais no momento de parecer, mas de ser, de assumirmos nossa essência”, aconselha Maria Júlia Costa, consultora de Imagem e Estilo, com MBA em Marketing e criadora do Método Inteligência Visual, que tem por objetivo promover o desenvolvimento da imagem tendo com referência a essência pessoal.

Neste sentido, os candidatos deveriam trabalhar a sua essência e não escondê-la ou minimizá-la. Iris Rezende, por exemplo, é experiente, mas durante toda a construção do programa, diante das críticas à sua idade, tenta passar uma ideia de jovialidade. “A maturidade, que muitos outros candidatos estão buscando e que é o trunfo dele, Iris tenta esconder”, observa Maria Júlia.

“Independente do descrédito, a questão com a postura, o gestual, a vestimenta, com o que falar ou não, sempre foi importante. Talvez seja mais evidente neste momento. São recursos que precisam ser resgatados e profissionalizados, porque estamos falando do inconsciente”, aponta o jornalista e media training João Camargo Neto, especialista em Planejamento em Comunicação e em Gestão de Crises de Imagem.

Para ressaltar a importância desse conjunto, João Camargo cita que “o que não se diz, mas se vê, tem mais importância”, uma conclusão de pesquisas realizadas pelo professor de Comunicação, hoje aposentado, Gaudêncio Torquato, atual consultor de imagem do presidente Michel Temer. “O que se vê tem muito mais efeito do que o que se ouve, até porque é inconsciente e involuntário”, reforça o jornalista.

Maria Júlia Costa
Maria Júlia Costa

Adriana Accorsi
• Quando a pessoa vai para a mídia, é avaliada pelo quanto mudou para chegar no momento da disputa eleitoral. Adriana está muito diferente. E o ruim não é estar diferente. O ruim é que foi feito especificamente para o momento da campanha.
• O ideal é que a mudança fosse progressiva, feita o longo do tempo, para ser mais natural.
• Na questão física, Adriana demonstra feminilidade, tem uma imagem muito bem cuidada, olha na câmera e gesticula pouco.
• Por estar sentada, passa uma ideia de submissão, de passividade. Já quando fala, a voz é forte e denota autoridade. Há, então, uma contradição, um ruído, entre o visual e o verbal.
• Ela pode apresentar mais a sua autoridade, que é uma característica do líder. No tom certo, sem ser arrogante.
• Sua qualidade natural é a oratória, no entanto, ela segue um script. Poderia ser mais natural e ter uma postura mais afirmativa, sem deixar margens para dúvidas.
• Tudo que pode ser um ponto negativo, se bem utilizado, se transforma em um ponto positivo. Adriana parece ter a intenção de omitir a informação de que pertence ao PT. Essa informação poderia ser sutil, com o uso de um lenço ou outro detalhe de seu visual em vermelho.

Delegado Waldir
• Vejo hoje no Delegado Waldir uma suavidade maior do que a apresentada por ele na campanha anterior. Melhorou a linguagem verbal, está um pouco mais suave. Porém, ainda é forte a presença da autoridade, da imposição. A fala rápida e o comportamento agitado podem causar a sensação de agressividade.
• A informalidade tem que ser mais controlada. Tevê não é uma self, não é vídeo de rua nem de rede social.
• Precisa ter mais cuidade com o vestuário, com a gravata.
• O gestual ainda é muito forte. Sinto que melhorou na questão da arma (deixou de simbolizar uma arma com as mãos, comum na campanha anterior).
• Há vídeos que começam com música de suspense, o que remete a filme policial, e logo na sequência mostra a cena de criança, o que gera um conflito na construção da história.
• O candidato quis passar a ideia de ser uma pessoa do povo, humilde, contando sua trajetória. No entanto, mantém nessa sequência a postura de delegado. Deveria estar com uma roupa mais simples.

Francisco Júnior
• Suas cenas são muito caseiras.
• Pretende se mostrar como uma pessoa família, mas na cena em que o candidato toma café, não há a presença dos seus familiares. Poderia ter conectado melhor isso.
• Ao entrar no carro, se diz “incomodado” com as portas de comércios fechados. O discurso não é claro. A forma como diz, o “me incomoda”, passa a ideia de que quer resolver um problema que está incomodando a ele e não que é uma questão da população, um problema coletivo.
• Ainda no carro, Francisco dirige e faz uma gravação. Não aprovaria essa imagem, está completamente errada.
• A fala deveria ser mais incisiva, demonstrar um pouco de autoridade. A voz macia e o estilo “paizão” criam uma imagem de pessoa bondosa, romântica. São características positivas, mas que não convencem o eleitor de que ele é o líder, não mostra a competência dele como gestor.
• O candidato tem uma boa aparência, uma harmonia estética, rosto jovem, mas não demonstra essa jovialidade.

Iris Rezende
• Passou por procedimentos estéticos, é nítida a vontade de transmitir jovialidade. A maturidade, um trunfo, ele está tentando disfarçar.
• Tem um sotaque regional, sua marca registrada. No entanto, a comunicação, por vezes, não demonstra clareza e tem erros de português, como quando diz “atindimento”, uma falta grave de comunicação.
• É um dos poucos candidatos que tem trocado de roupa. Faz uma cena com uma roupa e troca para outra cena. Positivo.
• Chama a atenção o fato de não olhar nos olhos, atitude que denota falta de confiança. Deve começar atentar para o olho no olho ao falar com as pessoas, mesmo no vídeo.
• As pessoas com quem Iris conversa nas ruas têm discursos muito parecidos e certinhos. São pessoas com excesso de maquiagem, o que demonstra ser uma cena montada.

Vanderlan Cardoso
• O candidato consegue trabalhar muito bem a apresentação de números, fala em dados, o que remete a um administrador.
• Por ser mais intelectual, mais racional, Vanderlan não demonstra muito quem ele é, o seu lado pessoal. Na tevê, é importante criar essa empatia. Faz falta o sorriso, sobra formalidade. Deveria apresentar uma imagem “menos certinha” e de mais emoção.
• Quando é questionando, no vídeo, responde tecnicamente. Isso traz credibilidade ao que fala. No entanto, falta descontração, um postura emotiva. Não é apenas o Vanderlan empresário, ali ele é também uma pessoa que está pedindo voto.
• Precisa planejar melhor a imagem. Há muita repetição de roupas.

João Camargo Neto

João Camargo Neto

Adriana Accorsi
• A candidata inicia o programa estática, limitada a uma cadeira de estúdio, sem interação, engessada pelo teleprompter.
• A fala precisa ser mais contundente se pretende explorar a vocação e a formação de delegada.
• A gesticulação é correta, puxa para si a mensagem positiva.
• O sobrenome é destacado mais que o próprio nome, na tentativa de resgatar o legado político do pai.

Delegado Waldir
• O candidato deveria deixar o costume e a gravata apenas para o estúdio de tevê. Em gravações ao ar livre, sugiro optar por outra vestimenta: uma calça social e uma camisa lisa estariam a contento, sem paletó nem gravata.
• Bastante efusivo, pode se comprometer se estiver ao vivo com microfone de lapela, pois a gesticulação, que deveria obedecer as linhas do peito e do umbigo, ultrapassa os limites.
• A voz exageradamente empostada pode demonstrar arrogância.

Francisco  Júnior
• As imagens não são profissionais, de início.
• A gravação no carro superdimensiona características faciais, como testa, nariz.
• De início, no meio do mercado popular, parece não dobrar as mangas da camisa. Só em seguida, quando a câmera amplia o enquadramento, que fica claro que estendeu as mangas.
• Sugiro não usar os óculos em todas as cenas.

Iris Rezende
• Camisas acertas, todas lisas, golas adequadas, corretamente abotoadas. Camisa branca, porém, deve ser evitada. À luz do sol, estoura de claridade. Deve-se optar por camisas claras, no entanto, evitar brancas.
• As cenas são diversas, da burocrática, sentado, discursando, à dinâmica, visitando seus marcos, como Vila Mutirão, e sorrindo com eleitores.
• Extrapola muito o limite da gesticulação, chega a levar as mãos acima da cabeça.

Vanderlan Cardoso
• No ponto. Ao lar livre, durante o dia, usa apenas camisa e dobrou as mangas, como se espera de um humano debaixo de sol a pino no meio do Cerrado.
• A marca de uma camisa jamais deve ser evidente. A camisa do Vanderlan tem a marca – talvez Dudalina, não dá para ter certeza – na altura do peito esquerdo. Deve optar, para fazer imagens, por roupas lisas, sem informações desse tipo.
• O anel remete ao casamento, o que, para a sociedade conservadora, conta ponto.
• Quando grava na empresa, Vanderlan aparece com a mesma camisa, mas sem a marca que figurava anteriormente no peito esquerdo.
• Quando aparece ao lado do candidato a vice, a desproporção na altura dos dois chama a atenção. Talvez uma cena menos dinâmica não enfatize que Thiago Albernaz é muito mais alto que o titular da chapa.
• As eleitoras do Vanderlan são exageradamente produzidas, tanto cabelo como maquiagem. Falta naturalidade. Sugiro maquiagem caseira para que o telespectador tenha empatia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here